
O Inferno de Sua Traição
Capítulo 2
Ponto de Vista: Elisa Ferraz
O gosto amargo do café do hospital grudava na minha língua, mas a percepção da minha recém-descoberta determinação era um estimulante mais eficaz. A raiva de Augusto, a presunção de Cristal – agora eram apenas combustível. A antiga Elisa, aquela que ansiava por sua aprovação, morreu naquele incêndio. Esta nova mulher, com cicatrizes, mas de olhos claros, estava pronta para lutar.
Meu irmão, Cássio, entrou então, com um copo de isopor de chá na mão. Ele parecia cansado, sua mandíbula forte e tensa, mas seus olhos estavam afiados. "Augusto foi embora?", ele perguntou, sua voz baixa, seu olhar varrendo o quarto vazio.
Eu assenti, um leve sorriso tocando meus lábios. "Foi. E ele nem perguntou se eu estava bem."
Cássio colocou o chá na minha mesa de cabeceira, sua mão roçando levemente meu braço enfaixado. "Ele nunca perguntou, não de verdade." Suas palavras eram suaves, mas carregavam o peso de uma história não dita. Ele sempre viu através de Augusto. É por isso que eles nunca se deram bem, por isso Cássio acabou se distanciando de mim. Minha lealdade sempre esteve com Augusto. Que tola eu fui.
"Preciso fazer uma declaração", disse a Cássio, me erguendo um pouco. "Augusto quer que eu negue tudo. Que interprete a esposa traída, mas que perdoa."
Cássio franziu a testa. "E você vai?" Seus olhos buscaram os meus, procurando pela antiga fraqueza.
"Sim", afirmei, minha voz firme. "Mas não por ele. Por mim. Para ganhar o tempo que preciso. Eu disse a ele que faria, mas apenas se ele executasse o acordo de divórcio pré-assinado e ativasse a cláusula do negócio."
As sobrancelhas de Cássio se ergueram. "A cláusula da apólice de seguro? Aquela das ações iniciais?" Ele soltou um assobio baixo. "Essa é uma jogada inteligente, Elisa. Eu sempre te disse para manter suas opções abertas."
"Ele nunca pensou que eu a usaria", eu disse, um lampejo de satisfação eclipsando momentaneamente a dor. "Ele estava confiante demais na minha devoção."
"Seu maior erro", concluiu Cássio, um sorriso sombrio no rosto. "Então, qual é o plano?"
"Primeiro, a declaração. Depois, eu desapareço. Preciso estar legalmente livre e financeiramente independente. E preciso me curar." Fiz uma pausa, olhando para meu irmão. "E preciso da sua ajuda, Cássio. Mais do que nunca."
Ele assentiu sem hesitar. "Pode contar comigo. Qualquer coisa." Sua lealdade era um bálsamo para meus nervos em frangalhos.
No dia seguinte, enfrentei a imprensa. Augusto estava rigidamente ao meu lado, uma imagem de preocupação forçada. Cristal estava conspicuamente ausente, sua "queimadura séria" a mantendo longe dos olhos do público. Li uma declaração preparada, minha voz cuidadosamente modulada, desprovida de emoção.
"Meu marido, Augusto Wagner, e eu queremos abordar os recentes rumores e o infeliz incidente na celebração do meu aniversário", comecei, as palavras soando estranhas na minha língua. "A sugestão de infidelidade é totalmente infundada. Augusto e eu estamos comprometidos com nosso casamento e em superar quaisquer desafios que enfrentemos. O incêndio foi um trágico acidente, e sou profundamente grata a Augusto por arriscar sua própria segurança para garantir a minha e a de nossos convidados."
Olhei brevemente para Augusto. Seu alívio era palpável. Ele apertou minha mão, um sinal silencioso de triunfo. Mal sabia ele que estava apertando a mão que estava prestes a assinar o fim de seu futuro.
"Quanto aos meus comentários naquela noite", continuei, "peço desculpas se causaram alguma confusão. Foi uma noite emocionante, e eu estava simplesmente expressando um desejo de crescimento pessoal e um novo capítulo em minha vida, que pretendo plenamente buscar dentro do meu casamento." A última frase era uma mentira, uma pílula amarga que me forcei a engolir em nome da estratégia.
Os repórteres, sempre famintos por drama, pressionaram por mais, mas Augusto rapidamente encerrou a conferência. Ele me conduziu para longe, um brilho triunfante em seus olhos. Ele achava que tinha vencido. Ele achava que tinha me colocado de volta na minha caixa.
De volta ao apartamento da cobertura, Augusto serviu-se de uma bebida. "Viu, Elisa? Não foi tão difícil, foi? Um pouco de controle de danos, e tudo ficará bem." Ele tomou um longo gole de uísque. "Agora, sobre aquela cláusula que você mencionou..."
Encarei seu olhar, meus próprios olhos frios. "Não está em negociação, Augusto. Você assinou. É legalmente vinculativo."
Seu rosto escureceu. "Você realmente acha que pode simplesmente pegar um pedaço da minha empresa e ir embora? Depois de tudo que eu te dei?"
"O que você me deu?", ri, um som áspero e sem humor. "Você me deu uma ilusão, Augusto. Uma gaiola dourada. Eu sacrifiquei minha família, meus sonhos, a mim mesma. E você me deu uma década de mentiras."
Ele bateu o copo na mesa, o som ecoando na opulenta sala de estar. "Não se faça de vítima, Elisa! Você sabia o que era isso! Você queria o estilo de vida, a segurança. Você escolheu isso!"
"Eu escolhi te amar", corrigi, minha voz tremendo novamente, mas não de medo – de uma raiva profunda e profunda. "Eu escolhi acreditar em você. E você escolheu me trair, repetidamente."
Ele zombou. "Cristal e eu... nunca foi um segredo. Apenas algo que você escolheu ignorar."
"Eu ignorei porque te amava!" As palavras rasgaram minha garganta, cruas e dolorosas. "Eu queria acreditar que você me amava. Eu queria acreditar que nossa família, nosso futuro, era real."
Ele se virou, um suspiro cansado escapando de seus lábios. "É o que é, Elisa. Agora, sobre as legalidades. Meus advogados revisarão suas exigências."
"Elas já foram revisadas", afirmei calmamente. "Meus advogados enviaram a papelada esta manhã. O acordo de divórcio pré-assinado já foi protocolado. E a cláusula está ativada. Você não tem escolha, Augusto."
Sua cabeça se virou bruscamente. "Você o quê?" Sua voz era um rosnado perigoso.
"Eu disse, está feito." Senti uma estranha sensação de calma, um poder silencioso que eu não sabia que possuía. "Os papéis estão protocolados. O processo começou. Você queria que eu fizesse meu papel. Eu fiz. Agora, você faz o seu."
Ele me encarou, seus olhos arregalados de incredulidade, depois se transformando em pura fúria. "Você acha que pode simplesmente fazer isso? Você acha que pode simplesmente pegar o que é meu?"
"Não é mais só seu", contrapus, minha voz firme. "É o que me é devido. O que eu ganhei através de uma década de devoção cega e contratos legais. Você assinou, Augusto. Cada palavra."
Ele deu um passo em minha direção, suas mãos se fechando em punhos. Por um momento aterrorizante, pensei que ele poderia me bater. Mas então, as palavras anteriores de Cássio ecoaram em minha mente: *Ele nunca perguntou, não de verdade*. Augusto era um homem de movimentos calculados, não de violência desenfreada. Ele não arriscaria a imagem.
Ele parou, seu peito arfando. "Você vai se arrepender disso, Elisa. Você vai se arrepender de me desafiar."
Encarei seu olhar, meu queixo erguido. "Eu me arrependi de muita coisa na minha vida, Augusto. Mas de te deixar? Isso não será uma delas."
Ele virou nos calcanhares e saiu furioso da cobertura, a porta batendo atrás dele, deixando um silêncio ecoante em seu rastro.
Afundei no sofá macio, a adrenalina drenando do meu corpo, me deixando fraca e trêmula. Estava feito. O primeiro passo. A fachada pública foi mantida, mas a guerra privada havia sido declarada. Eu queimei minhas pontes, mas também acendi um caminho para a liberdade. O vazio na sala era vasto, mas pela primeira vez em anos, não parecia solitário. Parecia espaço. Espaço para respirar. Espaço para curar. Espaço para finalmente me tornar Elisa novamente.
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