
O inferno de perdê-la
Capítulo 3
Era como se Marc achasse que ela não soubesse falar achure, já que nem se deu ao trabalho de esconder a tela enquanto digitava rapidamente "Estou a caminho" antes de desligar o celular sem hesitação alguma.
"Stella, preciso resolver uma coisa urgente. Se não pode ajudar, pelo menos não atrapalhe. Seja uma boa menina, está bem?", ele disse num tom suave, enquanto acariciava os cabelos dela como se ela fosse uma criança.
Então, ele se virou e foi embora sem nem olhar para trás. Ela apenas ficou sentada ali, o deixando ir.
Nesse momento, ela sentiu como se algo dentro dela tivesse sido despedaçado, causando uma dor tão intensa que a impedia de sentir qualquer outra coisa.
Após deixar os materiais da conferência no instituto para serem arquivados, ela foi para casa em silêncio.
Marc não voltou nos três dias seguintes, e ela não ligou.
e ela não ligou para ele, nem uma vez sequer. Afinal, não havia mais nada a dizer.
Enquanto aguardava a aprovação final, ela se manteve ocupada organizando suas coisas, fazendo qualquer coisa para evitar que sua mente entrasse em colapso.
O depósito era um santuário dos anos que eles passaram juntos: bilhetes escritos à mão da primeira vez que se declararam, a cerâmica torta que fizeram no primeiro encontro, uma pequena pedra em formato de coração de uma noite na montanha e fileiras de fotos emolduradas agrupadas por ano. Até as câmeras Polaroid estavam organizadas da mais antiga para a mais nova.
Stella sempre foi sentimental, guardando essas coisas na esperança de que um dia eles se sentassem juntos como almas antigas, rindo do passado.
No entanto, agora tudo isso parecia uma piada cruel. Sem hesitar, ela jogou as lembranças na lareira e as observou queimar.
Quanto aos presentes caros — diamantes, relógios de luxo, colares delicados e até a aliança de casamento —, ela os enfileirou, tirou fotos e enviou uma mensagem para seu contato na boutique de revenda, pedindo para que ele liquidasse tudo.
Quando viu a caixa de joias vazia, ela finalmente se deu conta de que o amor, por mais brilhante que fosse, não valia nada quando era manchado pela traição.
Dois dias depois, ela recebeu a notícia de que sua inscrição para participar do projeto de pesquisa confidencial havia sido aprovada.
Ela teria dez dias de folga antes do início do projeto.
Querendo estocar alguns itens essenciais, ela trocou de roupa e foi ao shopping. No entanto, ao descer a escada rolante com suas sacolas de compras, ela avistou uma cena que a fez parar abruptamente.
Lá estava Jazlyn Walsh, sua sogra sempre crítica, sorrindo calorosamente e segurando o braço daquela mulher, Haley, como se fossem velhas amigas. O afeto no rosto dela foi como um soco no estômago para Stella.
Ao lado delas estava Marc, o mesmo homem que havia desaparecido por dias, colocando cuidadosamente uma pulseira de diamantes brilhante no pulso de Haley com toda a ternura que costumava reservar para ela.
Eles pareciam completos, como uma família de comercial de margarina, uma da qual ela não fazia parte.
Quando Haley assentiu com a cabeça em sinal de satisfação, Jazlyn elogiou seu gosto com um brilho nos olhos e entregou casualmente um cartão preto para o pagamento.
Para Stella, esse momento estava carregado de uma ironia amarga.
Afinal, aquele cartão preto era dela, e era seu dinheiro que estava sendo gasto.
Ela havia conquistado esses privilégios — descontos generosos, prioridade nas novas coleções —, tudo por causa da sua amizade íntima com o diretor da marca.
O que era para ser um gesto atencioso para aproximá-la de Jazlyn agora estava sendo usado para agradar a amante de Marc.
Sem hesitar, Stella foi até o balcão, arrancou o cartão da mão da vendedora atônita e disse calmamente: "Desculpe, mas este cartão não é mais válido."
A funcionária piscou, confusa. "Senhora, este é um cartão premium. Ele não expira e não pode ser cancelado..."
"Ah, é mesmo?" Stella quebrou o cartão ao meio e o jogou na lixeira próxima sem nem piscar. "Agora ele está cancelado."
A fúria de Jazlyn explodiu. Dando um tapa forte no rosto de Stella, ela sibilou: "O que deu em você? Por acaso não percebe o quão vergonhoso está sendo o seu comportamento?"
A família Walsh tinha uma reputação impecável, e Marc sempre foi elogiado como um prodígio das finanças.
Desde o início, quando Stella e Marc começaram a namorar, Jazlyn a tratava com indiferença. E depois do casamento, essa frieza só aumentou. Por mais que Stella tentasse conquistar sua aprovação, um sorriso caloroso nunca aparecia.
Ela sempre ficava quieta, não querendo colocar Marc numa situação difícil.
No entanto, essa paciência, construída com base no amor, finalmente se esgotou.
e ela não tinha mais motivos para tolerar isso.
De repente, dois tapas estalados ecoaram, atingindo em cheio o rosto de Marc.
O barulho silenciou todos ao redor.
Esse era Marc Walsh, o homem aclamado nos círculos financeiros como uma lenda, e agora ele estava ali, com as bochechas vermelhas, esbofeteado em plena luz do dia.
"Stella!", Jazlyn gritou, furiosa. Ela arregaçou as mangas, como se estivesse prestes a avançar e revidar.
No entanto, Stella se manteve firme, com o queixo erguido. "Se encostar a mão em mim de novo, vou bater nele com o dobro de força. Quer me testar?"
"Sua... Sua..." Jazlyn estava tão furiosa que segurou o peito para respirar. "Marc! Olhe para ela! Como pode deixá-la agir como uma megera?"
Stella olhou para Marc com um sorriso frio. "Me diga, Marc... eu não tinha todos os motivos para te dar um tapa?"
A expressão de Marc se enrijeceu, e seu maxilar se contraiu. Dando um passo à frente, ele segurou o pulso dela, murmurando baixinho: "Stella, já chega. Se acalme. Você está fazendo um escândalo."
De repente, Haley correu para os braços de Marc, puxando a mão dele para a cintura dela e reclamando em achure sobre o comportamento ultrajante de Stella.
Ela se agarrava a ele como uma hera, o chamando de "querido" repetidamente, como se quisesse se fundir à pele dele.
Marc murmurou palavras de tranquilidade em achure, falando com ela gentilmente.
A visão deles, tão próximos e aconchegantes, fez Stella rir em descrença.
Então, do nada, ela falou em achure fluente e num tom incisivo:
"Se você é ousada o suficiente para ser amante de alguém, pelo menos tenha a decência de não se fazer de inocente. Você está dormindo com o marido de outra mulher, então nem pense em negar isso. Se o achure não está funcionando para você, podemos mudar. Falo dezesseis idiomas. Escolha um, e eu acompanho o ritmo. Se eu perder a discussão, admitirei a derrota."
O rosto de Haley ficou vermelho como um pimentão.
Ela claramente nunca imaginou que Stella falasse achure tão bem. Marc não havia dito que sua esposa era apenas uma funcionária comum de escritório?
O rosto de Marc se obscureceu, e ele perguntou num tom rígido: "Stella... quando você aprendeu achure?"
Esse momento a atingiu como uma faca se cravando mais fundo numa ferida aberta.
Seus lábios se curvaram num sorriso amargo.
"Ah, Marc, você deve me amar muito, né?" O sarcasmo na sua voz era afiado como uma navalha. "Vá em frente, aproveite suas comprinhas. Não vou atrapalhar."
Com isso, ela virou nos calcanhares e foi embora.
Marc se moveu rapidamente para segui-la, mas Jazlyn e Haley seguraram, cada uma, um de seus braços, o impedindo.
"Marc, se divorcie dessa mulher sem vergonha logo! Como ela ousa encostar a mão em você?", Jazlyn disparou.
Ela já havia dito essas palavras inúmeras vezes, e Marc sempre as ignorava. No entanto, por algum motivo, desta vez elas pareceram diferentes, o irritaram.
"Isso é entre mim e ela", ele murmurou, se livrando delas e correndo atrás de Stella.
Felizmente, ele conseguiu alcançá-la quando ela chegou ao carro. "Stella."
No momento em que os dedos dele tocaram o pulso dela, uma onda de náusea a atingiu, a fazendo se afastar com nojo. "O que foi, senhor Walsh? Já terminou de brincar de casinha com sua pequena selvagem?"
O rosto de Marc se contorceu em frustração. "Haley é só uma amiga. Por que está com tanto ciúme? Não pode ser madura pelo menos uma vez? Precisa mesmo nos humilhar em público?"
Stella soltou uma risada seca e incrédula.
Claro. De alguma forma, no final, a culpa sempre recaía sobre ela. Que conveniente.
"Então deixe-me ver se entendi. Mesmo se eu pegar vocês dois na cama, com a sua amante, eu deveria sorrir, fechar as cortinas e ficar de guarda do lado de fora para proteger o nome da família?", ela retrucou.
Apertando o pulso dela, os olhos dele brilharam. "Quantas vezes tenho que dizer isso? Ela é só uma amiga!"
"Uma amiga, é?", Stella perguntou num tom irônico enquanto o olhava de cima a baixo.
Então, seu olhar se tornou brincalhão, com algo mais aguçado, como sedução ou talvez vingança.
"Tudo bem, então vou arranjar um amigo para mim também. E farei questão de fazer tudo o que você e a Haley fizeram, cada coisinha." Se inclinando ligeiramente, ela continuou num sussurro carregado de veneno: "E você, querido marido... não fique com ciúmes. Isso não seria justo, não é mesmo?"
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