
O Homem Que Abandonou Seu Amor
Capítulo 3
Eu não disse nada. Apenas fiquei ali, assistindo à sua performance.
A antiga Clara estaria histérica, implorando por seu perdão, desesperada para se explicar. Mas a antiga Clara se foi. Ela morreu em algum lugar naquela mata. Eu soube então que nunca mais suplicaria por seu amor.
Caio pareceu confuso com meu silêncio.
"Você não vai dizer nada? Pedir desculpas?"
"Já acabou?", perguntei, com a voz cansada.
"O quê?"
"Estou cansada", eu disse. "Vou para o meu quarto."
Virei-me e fui embora, deixando-o gaguejando na sala de estar com sua preciosa Karina. Eu não sentia a necessidade de explicar. Não me importava com o que ele pensava.
Naquela noite, ele entrou no quarto e deitou-se ao meu lado. Ele me abraçou, seu corpo quente contra minhas costas. Eu não me mexi.
"Estou cansado, Clara", ele sussurrou, a voz cheia de uma exaustão falsa. "Apenas seja boazinha. Pare de brigar com a Karina. O casamento é na semana que vem. Eu te darei tudo o que você quiser. Apenas se comporte."
Ele enterrou o rosto no meu cabelo e passou a mão pela minha barriga.
"Ok?"
"Ok", sussurrei de volta.
Fechei os olhos e decidi. Eu abriria mão de tudo que me ligava a ele. Começando pelo bebê.
No dia seguinte, ele insistiu que fôssemos todos a uma festa juntos. Um encontro com seus amigos mais próximos.
"Vai ser mais confortável para você no banco de trás, querida", ele disse, abrindo a porta traseira do carro para mim enquanto Karina deslizava para o banco do passageiro da frente.
Fechei os olhos e os ouvi conversar durante todo o caminho. Falaram sobre piadas internas antigas, memórias do colégio, um mundo do qual eu nunca fiz parte. Eu era apenas uma espectadora da história de amor perfeita deles.
A festa foi em uma sala privativa de um restaurante caro. Era toda a sua turma. Todos cumprimentaram Karina com abraços calorosos e me trataram com uma distância educada.
"Olha só o casal feliz!", disse Marcos, piscando para Caio e Karina. "E a... outra."
Karina corou lindamente.
"Não seja bobo. Caio e eu somos apenas amigos. Clara é a noiva dele." Ela disse isso de um jeito que soava como uma piada, como se ela fosse o prato principal e eu, o acompanhamento que ninguém pediu.
Caio franziu a testa levemente, um sinal silencioso para seus amigos pegarem mais leve, mas não me defendeu. Ele apenas puxou uma cadeira para mim, um gesto superficial, antes de fazer o mesmo por Karina, bem ao seu lado.
Quando o garçom veio servir o vinho, Caio o interrompeu antes que chegasse a Karina.
"Para ela não. Faz o rosto dela ficar vermelho." Ele sabia desse detalhe minúsculo e íntimo sobre ela. Meu copo já estava cheio. Ele nem tinha notado.
Eu sorri um sorriso fraco e cansado.
Alguém sugeriu um jogo. Verdade ou consequência com uma garrafa. A garrafa girou, parando, é claro, em Karina.
Marcos gritou.
"Consequência! Eu te desafio a jogar o jogo do biscoito com alguém nesta sala!"
Karina fingiu timidez, seus olhos percorrendo o ambiente antes de pousarem em Caio.
"Caio, você me ajuda? É só um jogo."
Ele olhou para mim. Meu rosto era uma máscara em branco. Não lhe dei a satisfação de uma reação. Não vendo protesto, ele deu de ombros.
"Claro, por que não?"
Eles colocaram o biscoito coberto de chocolate entre os lábios. A sala explodiu em aplausos enquanto eles mordiscavam cada vez mais perto. Seus rostos estavam a centímetros de distância.
Coloquei a mão na minha barriga lisa, um gesto que agora parecia vazio. Todos naquela sala haviam esquecido que eu estava ali, que eu era sua noiva, que eu estava carregando seu filho.
As orelhas de Caio ficaram vermelhas. Eu só tinha visto isso acontecer quando ele estava genuinamente nervoso, genuinamente afetado.
"Eu lembro quando vocês dois foram eleitos o Casal Mais Bonito no último ano do colégio", Léo disse, arrastando as palavras, feliz. "Todos nós pensamos que vocês iam se casar."
"É, e lembra daquela vez que o Caio dirigiu a noite toda para te levar sopa quando você estava com gripe?", acrescentou Marcos.
Caio lançou-lhes um olhar de advertência.
"Gente, calem a boca." Ele estendeu a mão e pegou a minha. A dele estava quente, a minha estava gelada. "Eles só estão bêbados e falando besteira. Não liga pra eles."
"Eu não ligo", eu disse, meu sorriso parecendo frágil em meu rosto.
Ele assentiu, satisfeito. Ele realmente acreditava que eu era tão estúpida. Que eu ainda era a mesma garota que engoliria qualquer mentira que ele me contasse.
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