
O Grito Silencioso de Helena
Capítulo 3
"Divórcio?"
Laura finalmente olhou para mim, os seus olhos arregalados de incredulidade, como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
"Estás a brincar comigo, Helena? Vais deitar fora um casamento por causa disto? És fraca."
Ela pousou a faca e a maçã com força na mesa de cabeceira.
"O Pedro está a construir uma carreira. Ele precisa de uma família estável, não de uma mulher histérica que cria problemas por nada."
"Por nada?", repeti, a minha voz a tremer de raiva contida. "Eu perdi o meu filho, o seu neto."
"E o que queres que ele faça? Pare o mundo por causa disso?", ela retorquiu. "A vida continua. A Eva precisava dele hoje. A família vem primeiro."
A ironia da sua frase atingiu-me com força. Eu não era família? O meu bebé não era família?
O meu telemóvel vibrou. Era uma notificação do Instagram. Uma nova publicação de Eva.
Abri a aplicação por um impulso doentio.
Era uma foto. Pedro e Eva, lado a lado, sorrindo para a câmara. Ele tinha o braço à volta dela, e ambos seguravam uma faca sobre um bolo de aniversário gigante.
A legenda dizia: "O melhor irmão do mundo! Fez o meu dia tão especial, mesmo quando as coisas estão difíceis. Obrigada por estares sempre aqui para mim, Pedro."
As coisas estão difíceis.
De repente, lembrei-me da razão da minha queda.
Eu estava a sair de uma consulta de pré-natal, feliz e animada. Eva ligou-me, a chorar histericamente.
"Helena, preciso da tua ajuda! O meu senhorio está a despejar-me, ele está aqui, a gritar comigo! Estou com tanto medo!"
Corri para o apartamento dela, preocupada. Mas quando cheguei, não havia senhorio. Só a Eva, sentada no sofá, a olhar para as unhas.
Ela sorriu-me. "Oh, afinal ele foi-se embora. Mas já que estás aqui, podes ajudar-me a levar estas caixas para o carro do Pedro? Ele vem buscar-me."
Eu estava grávida de sete meses, mas ela apontou para uma pilha de caixas pesadas. Senti-me desconfortável, mas ela insistiu que não eram assim tão pesadas.
Quando levantei a primeira, senti uma dor nas costas. Ela apressou-me. Ao descer as escadas, o meu pé escorregou num degrau molhado.
Não havia nenhum sinal de "piso molhado".
Lembro-me de Eva a olhar para mim do topo das escadas, o seu rosto sem expressão, enquanto eu caía.
Ela não gritou por ajuda. Ela não correu para o meu lado.
Ela apenas observou.
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