
O Grito Silencioso da Esposa Substituta
Capítulo 3
Eles me deixaram sair do porão depois de dois dias. Eu estava fraca, com febre por causa do frio.
Eu flutuei em uma névoa de doença. Em meu estado semiconsciente, às vezes sentia uma mão fria na minha testa, uma voz murmurando meu nome. Pensei que poderia ser Heitor, um vislumbre de seu estranho e possessivo "cuidado".
Quando a febre finalmente cedeu, me senti forte o suficiente para sair da cama. Desci as escadas, minhas pernas instáveis.
O som de risadas me atraiu para a sala de estar.
Heitor estava lá, sentado no sofá. Alice estava aninhada ao lado dele, a cabeça em seu ombro. Ele acariciava suavemente o cabelo dela, da mesma forma que às vezes me tocava no meio da noite, quando pensava que eu estava dormindo.
Uma memória emergiu. Um dos raros e confusamente gentis momentos. Ele estava traçando a linha do meu maxilar, seu toque leve como uma pluma. "Tão macia", ele murmurou, sua voz grossa de sono.
Vê-lo fazer o mesmo por Alice, tão abertamente, tão ternamente, foi como um soco no estômago.
Nunca era eu que ele estava tocando. Era sempre ela. Eu era apenas uma substituta, um corpo quente para preencher seu espaço até que ela decidisse retornar. A percepção se instalou em meu peito, pesada e fria como uma pedra.
Alice me viu pairando na porta. "Clara! Venha, junte-se a nós", ela chamou, sua voz doentiamente doce.
Eu queria virar e correr. Queria me esconder no meu quarto até Léo vir me buscar.
"Clara." A voz de Heitor era uma ordem. "Sente-se."
Eu obedeci, meu corpo se movendo por instinto. Sentei-me na poltrona em frente a eles, sentindo-me como uma espectadora em meu próprio funeral.
Heitor pegou um pequeno bolo da mesa de centro. "Você não comeu. Coma um pouco disso." Ele estendeu para mim.
Era um bolo de chocolate rico, do tipo que ele sabia que eu odiava. O cheiro me revirou o estômago. Uma onda de náusea me invadiu.
"Não estou com fome", disse eu, minha voz mal um sussurro.
"Eu não estava perguntando." Seus olhos eram duros. "Coma."
Peguei o bolo, minha mão tremendo. Forcei uma pequena mordida na boca. A doçura enjoativa era avassaladora. Meu estômago se revoltou.
Levantei-me de um salto, cobrindo a boca, e corri para o banheiro mais próximo, onde vomitei violentamente.
Quando saí cambaleando, minha cabeça girando, desmaiei. A última coisa que vi foi o rosto de Heitor, sua expressão indecifrável, antes que o mundo ficasse preto.
Acordei com o cheiro estéril de um hospital. A luz era muito forte.
Um médico falava em voz baixa do outro lado de uma cortina. "Os exames são conclusivos. A Sra. Dantas está grávida."
Grávida. A palavra ecoou na sala silenciosa.
"Ela está com cerca de seis semanas", continuou o médico. "Mas sua saúde está muito debilitada. Desnutrida, anêmica... ela precisa de repouso absoluto. Outro choque como o que ela teve pode ser perigoso tanto para ela quanto para o feto."
A cortina foi puxada para o lado. Heitor estava lá, seu rosto uma máscara de pedra. Alice estava ao seu lado, suas feições perfeitas torcidas em uma expressão feia de choque e ciúme.
Heitor olhou para o médico, sua voz desprovida de qualquer emoção. "Livre-se disso."
O médico pareceu surpreso. "Sr. Dantas, devo desaconselhar. Dada a condição frágil de sua esposa, um procedimento de interrupção acarreta riscos significativos."
"Estou ciente dos riscos", disse Heitor, sua voz fria como gelo. "E eu tomei minha decisão. Ela é minha esposa. A escolha é minha."
Eu estava acordada. Ouvi cada palavra. Minha mão instintivamente foi para o meu estômago. Um bebê. Nosso bebê. Um pequeno e impossível lampejo de vida dentro de mim.
E ele ia apagá-lo sem um segundo pensamento.
Eu não tinha voz. Nem direitos. Eu era apenas um recipiente, e meu conteúdo era um inconveniente para seus planos com Alice.
"Preparem para o procedimento", Heitor ordenou ao médico, seu tom não deixando espaço para discussão.
Ele se virou e seus olhos encontraram os meus. Eu estava deitada na cama, indefesa, uma lágrima traçando um caminho pela sujeira na minha bochecha.
Ele caminhou até a minha cabeceira. Por um momento, vi aquele lampejo de algo novamente em seus olhos. Era arrependimento? Pena?
Então ele se inclinou, sua voz um sussurro baixo apenas para meus ouvidos. "Isso é para o melhor, Clara. Um obstáculo que não precisamos."
Era apenas uma ilusão. Qualquer suavidade era um produto da minha imaginação desesperada. Não havia humanidade neste homem.
Eles me levaram em direção à sala de cirurgia. Quando as portas se abriram, olhei para trás para ele uma última vez. Ele ficou lá, me observando, sua expressão uma máscara fria e indecifrável.
O procedimento foi um pesadelo. Eu estava acordada, a anestesia não pegando totalmente. Dor, aguda e ofuscante, me rasgou por dentro.
Então, algo deu errado. Ouvi a voz em pânico de uma enfermeira.
"Doutor, ela está com hemorragia! Estamos perdendo ela!"
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