
O Fim de Um Pesadelo
Capítulo 3
O caminho para casa foi um borrão.
Eu dirigi no piloto automático, as luzes da cidade passando como manchas de cor sem sentido.
A humilhação no salão de festas ainda queimava em meu rosto, mas agora, na solidão do carro, a dor da traição se aprofundava, se transformando em algo mais frio e cortante.
Cada detalhe dos últimos meses começou a se encaixar, formando um quadro horrível.
As "aulas de capoeira" até tarde da noite.
Os fins de semana em "retiros de negócios" dos quais eu nunca ouvia falar depois.
O cheiro de um perfume masculino diferente em suas roupas, que ela dizia ser de um "cliente".
Eu tinha sido tão cego.
Tão estúpido.
Eu amava a mulher que acreditei que ela era, não a mentirosa manipuladora que ela se revelou.
Quando cheguei em casa, a mansão que compramos juntos parecia fria e vazia.
Cada objeto, cada quadro na parede, era uma lembrança de uma mentira.
Eu fui até o bar e me servi de uma dose de uísque, a bebida queimando minha garganta.
A porta da frente se abriu com força.
Ana Paula entrou, o rosto uma máscara de fúria.
Ela jogou a bolsa de grife no sofá.
"Como você ousa?", ela gritou, vindo em minha direção. "Como você ousa me humilhar daquele jeito na frente de todos?"
Eu ri, um som seco e sem alegria.
"Eu te humilhei? Você anuncia que está grávida do seu amante na festa da nossa empresa e eu sou o vilão?"
"Você arruinou tudo! Você fez uma cena patética! Você deveria ter ficado quieto, como o homem fraco e doente que você é!"
Suas palavras eram como socos.
"Chega, Ana Paula. Acabou."
Eu coloquei meu copo na mesa com firmeza.
"Eu quero o divórcio."
Ela parou, surpresa.
Ela provavelmente esperava que eu implorasse, que eu chorasse.
"Divórcio?", ela repetiu, e então um sorriso de escárnio se formou em seus lábios. "Você não tem nada, João Carlos. A casa está no meu nome. Os carros estão no meu nome. A empresa... bem, você mesmo disse que não tem mais nada a ver com ela."
"Metade de tudo é meu por direito. Nós construímos juntos."
"Tente provar isso no tribunal", ela zombou. "Você se afastou. Eu tenho todos os documentos que mostram que eu sou a única mente por trás do sucesso da Lopes Tech nos últimos doze meses. Você é apenas um ex-marido doente e ressentido."
Eu me senti cansado. Uma exaustão profunda, que vinha da alma.
"Eu não quero brigar, Ana Paula. Eu só quero sair disso. Fique com a casa, com os carros. Eu só quero a minha parte da empresa. A parte que me corresponde pelos anos que dediquei a ela."
"Você não vai conseguir um centavo!", ela gritou.
"Então nos vemos no tribunal."
"Você não entende, não é?", ela disse, aproximando-se, a voz perigosamente calma. "Você não está em posição de exigir nada."
Ela parou na minha frente, e seus olhos brilharam com uma luz fanática.
"Eu fiz isso por nós, João Carlos."
Eu a encarei, confuso. "Fez o quê por nós? Me traiu? Me humilhou?"
"Eu te dei um presente!", ela disse, a mão indo novamente para a sua barriga. "Este filho... ele é a chave para o nosso futuro."
A náusea subiu pela minha garganta.
"Nosso futuro? Esse filho não é meu!"
"Claro que não é!", ela disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Eu não podia ter um filho com você. Com seu sangue. Sua genética fraca."
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
O quarto começou a girar.
"O que... o que você está dizendo?"
"Zé Pequeno não é qualquer um", ela continuou, os olhos brilhando. "Ele é descendente de uma linhagem nobre de Angola. Sangue real, João Carlos! Você entende o que isso significa? Nosso filho terá o melhor dos dois mundos. A beleza e a força dele, e a inteligência e a riqueza que eu construí."
Eu a olhava, boquiaberto.
Era loucura. Pura e completa loucura.
"Você... você usou esse homem... para ter um filho... como se estivesse escolhendo um animal premiado?"
"É um empréstimo de sêmen, se você quer ser técnico", ela disse, com uma frieza clínica que me gelou até os ossos. "Um investimento no futuro da nossa dinastia. Pense nisso. Um herdeiro com sangue nobre para herdar o império Lopes Tech. Ninguém poderá nos parar."
"Você é doente", eu sussurrei, o horror me paralisando. "Você é completamente insana."
"Eu sou uma visionária!", ela rebateu. "E você, com sua doença e sua fraqueza, estava me atrasando. Mas eu sou generosa. Eu ainda estava disposta a deixar você fazer parte disso. Você poderia ter sido o 'tio' rico, o padrinho. Mas você tinha que estragar tudo com seu drama sentimental."
O choque deu lugar a uma fúria cega.
O amor, a dor, a humilhação... tudo se dissolveu em um ódio puro e branco.
Essa mulher na minha frente não era apenas uma traidora.
Ela era um monstro.
Um monstro que me via não como um marido, mas como um obstáculo defeituoso a ser contornado.
"Fora", eu disse, a voz tremendo de raiva.
"Esta é a minha casa", ela lembrou, com um sorriso vitorioso.
"Então eu saio."
Eu me virei para pegar minhas chaves e minha carteira.
Eu não aguentava mais olhar para ela.
Eu não aguentava mais respirar o mesmo ar que ela.
Meu coração, que ela já havia quebrado, agora estava sendo pisoteado, moído em pó pela sua crueldade inimaginável.
Eu só precisava sair.
Sair antes que a raiva me consumisse por completo.
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