
O Fim de Um Amor
Capítulo 2
O som monótono do monitor cardíaco era a trilha sonora da minha vida há três anos. Três anos sentado ao lado da cama de hospital, segurando a mão de Sofia, a mulher que eu acreditava ser o amor da minha vida.
Ela estava em coma desde um acidente de carro. Os médicos disseram que as chances eram mínimas, mas eu nunca desisti. Abandonei minha carreira promissora no futebol no auge, ignorei contratos milionários e me dediquei a cuidar dela.
Eu lia para ela, contava sobre meu dia, sobre como sentia falta do seu sorriso. Eu acreditava que ela podia me ouvir. Acreditava que nosso amor era forte o suficiente para trazê-la de volta.
Hoje, algo mudou.
Os dedos dela se mexeram na minha mão.
Meu coração disparou.
"Sofia?", chamei, a voz trêmula de esperança.
Os olhos dela se abriram lentamente. Focaram em mim. Um alívio imenso percorreu meu corpo, tão forte que me deixou tonto. Ela estava de volta.
"Sofia, você acordou! Eu sabia!", eu disse, chorando de felicidade.
Inclinei-me para beijar sua testa, mas fui recebido por um tapa forte no rosto.
O estalo ecoou no silêncio do quarto.
Eu cambaleei para trás, a mão na minha bochecha ardendo, o choque congelando cada músculo do meu corpo.
"O quê...?"
Sofia se sentou na cama com uma agilidade que alguém em coma por três anos não deveria ter. Não havia fraqueza em seus movimentos, apenas uma força fria e calculada. O olhar dela, antes cheio de amor, agora era puro desprezo.
"Finalmente", ela disse, a voz rouca, mas firme. "Três anos. Três anos fingindo ser um vegetal para roubar o seu talento. Você não tem ideia de como foi entediante."
As palavras dela me atingiram como socos.
Fingindo?
Roubar meu talento?
"Do que você está falando, Sofia? Você estava em coma..."
Ela riu, um som cruel que não pertencia ao rosto que eu tanto amava.
"Coma? Ah, Pedro. Sempre tão ingênuo. O acidente foi real, mas a recuperação foi rápida. O coma foi a minha obra-prima. Uma chance de ouro para pegar o que é seu por direito."
Ela se referia ao meu segredo. A "entidade", o sistema que me foi dado. Um poder que me conectava ao futebol de uma forma sobrenatural. Cada gol que eu marcava, eu era recompensado. Mas a condição era cruel: a lealdade de Sofia. Cada falha de amor, cada traição dela, me trazia uma punição física excruciante. Eu contei a ela, em um momento de fraqueza e confiança absoluta, acreditando que nosso amor era a minha maior fortaleza.
Naquele momento, enquanto a verdade me esmagava, uma dor lancinante explodiu no meu peito.
Era a punição.
"Argh!"
Caí de joelhos, agarrando meu peito. Era como se mil agulhas estivessem perfurando meu coração ao mesmo tempo. O ar não entrava nos meus pulmões. Meu corpo inteiro começou a convulsionar.
Sofia me observava do alto da cama, com uma curiosidade clínica, sem um pingo de compaixão.
"Então é isso que acontece", ela murmurou para si mesma. "Interessante. A punição pela traição. Você está sentindo agora, não é? A dor de eu nunca ter te amado."
A porta do quarto se abriu.
Lucas entrou. Meu rival de infância, o jogador que sempre viveu à minha sombra, consumido pela inveja. Ele caminhou até a cama e beijou Sofia longamente, bem na minha frente.
"Parece que o nosso pequeno gênio do futebol não está se sentindo muito bem", disse Lucas, com um sorriso vitorioso.
Ele estava nisso também. Os dois. Tudo foi um plano.
"Você...", consegui sussurrar, a dor me roubando a voz.
"Nós", corrigiu Sofia, passando os braços pelo pescoço de Lucas. "Planejamos tudo. O acidente foi um imprevisto, mas um imprevisto útil. Deu-nos a desculpa perfeita. Enquanto você, o tolo apaixonado, abandonava tudo para cuidar de mim, nós preparávamos o terreno para tomar o seu sistema."
A dor se intensificou, uma nova onda me atingindo. Lembrei-me das noites em claro, das minhas mãos calejadas de tanto massagear os pés dela para evitar atrofia. Lembrei-me de vender meu carro, minhas medalhas, tudo para pagar pelo melhor tratamento. Lembrei-me de sussurrar "eu te amo" para o seu corpo imóvel, acreditando que ela era meu tudo.
Cada memória era agora uma faca envenenada.
"Por quê?", gritei, mais para mim mesmo do que para eles.
Lucas se agachou na minha frente, seu rosto a centímetros do meu. O cheiro de seu perfume caro me enjoava.
"Por quê? Porque você não merece, Pedro. Você nasceu com tudo. O talento, a fama, o amor. Enquanto eu tive que lutar por cada migalha. Agora, é a minha vez. E a vez da Sofia."
Eu estava quebrado. Física e emocionalmente. Deitado no chão frio do hospital, eu via o amor da minha vida nos braços do meu maior inimigo, ambos rindo da minha desgraça. Meu corpo era uma prisão de dor, e minha alma, um vazio de traição.
Não havia mais nada. Eles tinham levado tudo.
Mas em meio à agonia, um pensamento surgiu. O sistema. A entidade que me punia também me obedecia. Se ela podia ser tirada de mim, talvez... talvez eu pudesse me livrar dela.
Eu precisava sair dali. Precisava me libertar dessa dor, desse amor, dessa vida. E precisava garantir que eles pagassem.
Com o último pingo de força que me restava, olhei para eles. O ódio começou a queimar mais forte que a dor.
Eles iriam se arrepender.
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