
O Erro Deles, Minha Salvação
Capítulo 3
A reação de Raegan à gravidez foi de puro horror.
"Quanto queres para desaparecer?" ela perguntou-me, dias depois, com um cheque em branco na mão. A sua voz estava carregada de desprezo. "Tu e o teu filho. Ninguém precisa de saber."
Recusei. Não pelo dinheiro, mas pela criança. Era meu filho também.
A avó dela interveio. O casamento foi rápido, discreto. Uma transação comercial.
Quando Lara nasceu, era a imagem em miniatura de Raegan. Linda, de feições delicadas e, desde muito cedo, com os mesmos olhos frios quando olhava para mim.
Eu tentei. Deus sabe como eu tentei. Abdiquei do meu sonho de ter o meu próprio restaurante para ser um pai a tempo inteiro. Aprendi a cozinhar todos os seus pratos favoritos, memorizei cada uma das suas alergias, cada nuance do seu humor.
Mas nada disso importava.
Porque há um ano, Hugo tinha voltado.
E em poucos meses, ele conseguiu o que eu nunca consegui em cinco anos: o afeto da minha filha.
Ele era o "tio Hugo", o homem divertido que lhe trazia presentes caros, que a levava a passeios excitantes. Eu era apenas o "pai", o homem aborrecido que a mandava comer os vegetais e ir para a cama a horas.
Sentia-me um fantasma na minha própria casa. Via-os os três – Raegan, Lara e Hugo – a rir juntos, a partilhar segredos, e eu ficava do lado de fora, a observar através de uma janela invisível.
Naquela noite, depois do incidente no centro hípico, cheguei a casa e encontrei-a vazia e silenciosa. Fui ao quarto de Lara para verificar se ela tinha deixado alguma coisa fora do sítio.
Foi então que ouvi as vozes das empregadas na cozinha.
"Viste a cara do Sr. Acosta? Parecia que ia chorar."
"Coitado. A menina Lara fez de propósito. Ouvi-a a combinar com o Sr. Ferreira ao telefone. Disse que se caísse do cavalo, a mãe e ele tinham de vir a correr e assim passavam a tarde juntos."
O mundo pareceu parar. A minha própria filha. Manipulada por aquele homem para me magoar.
Lembrei-me de outras vezes. A vez em que o meu fato caro, que eu ia usar para uma rara função da empresa de Raegan, apareceu "acidentalmente" manchado com tinta. Lara disse que estava a pintar e não viu. Mais tarde, vi Hugo a usar um fato novo, a acompanhar Raegan ao evento.
Ou a vez em que o meu carro teve os quatro pneus furados na manhã de um piquenique de família. Hugo apareceu "por acaso" com o seu descapotável e levou-as a elas.
A ausência delas nos dias seguintes foi um tormento. Não atendiam as minhas chamadas. A única forma de saber delas era através das redes sociais de Hugo.
Ele publicava fotos. Raegan e Lara a sorrir na praia. Os três a jantar num restaurante chique. A legenda era sempre algo como "Tempo de qualidade em família".
E debaixo de uma dessas fotos, um comentário de um amigo dele: "Linda família! O Leonel não se importa de ficar de fora?"
O que me destruiu foi ver que Raegan tinha gostado desse comentário.
Aquele "gosto" foi a confirmação final da minha exclusão. Senti uma dor aguda no peito, uma falta de ar que me manteve acordado a noite inteira.
Lembrei-me subitamente. O dia seguinte era o nosso aniversário de casamento. O sexto.
Engoli o meu orgulho e liguei-lhe.
"O que é?" A voz dela era pura irritação.
"Amanhã... é o nosso aniversário," gaguejei. "Pensei que podíamos jantar fora, os três."
Houve uma pausa. "Vou ver. A Lara tem saudades tuas."
Uma pequena chama de esperança acendeu-se em mim.
Preparei o seu prato favorito, vesti a minha melhor camisa. Esperei.
Às sete da noite, o carro de Hugo parou à porta. Mas só Lara saiu.
Ela correu para mim e abraçou-me, algo que não fazia há meses. "Pai! Tenho tantas saudades tuas! A mãe disse que eu podia passar a noite contigo, mas ela tem um jantar de negócios muito importante com o tio Hugo."
A esperança vacilou, mas o abraço dela era tão real. "Claro, meu amor. O que queres fazer?"
"Vamos ao parque de diversões! Por favor, por favor!"
No parque de diversões, ela parecia a criança feliz que eu recordava. Rimos, comemos algodão doce. Por um momento, acreditei que tudo podia voltar a ser como antes.
Mas quando estávamos na roda gigante, no ponto mais alto, ela apontou para o seu relógio inteligente. "Pai, olha! O tio Hugo mandou uma foto!"
E no ecrã minúsculo, vi-a. Raegan e Hugo, num restaurante à luz de velas, a sorrir um para o outro.
De repente, Lara começou a chorar. "Quero descer! Quero ir para casa! Estás a demorar muito! A mãe vai ficar zangada!"
Ela começou a gritar, a debater-se. O pânico tomou conta de mim. Tentei acalmá-la, mas ela não parava. Quando finalmente saímos da roda gigante, ela correu, desaparecendo na multidão.
"Lara! LARA!"
O meu coração batia descontroladamente. Corri por todo o parque, a gritar o nome dela, o pânico a sufocar-me.
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