
O Divórcio Foi Apenas o Começo
Capítulo 2
O cheiro a fumo e a desinfetante enchia os meus pulmões. Sentada no corredor frio do hospital, eu olhava para a porta da Unidade de Cuidados Intensivos. O meu pai estava lá dentro, a lutar pela vida.
A fuligem ainda me sujava o rosto e as mãos. A imagem da oficina do meu pai, o trabalho de uma vida inteira, a ser consumida pelas chamas, repetia-se na minha cabeça.
Peguei no telemóvel pela vigésima vez. Finalmente, o meu marido, Miguel, atendeu.
A voz dele soava distante, irritada, com música alta ao fundo.
"Clara? O que foi agora? Estou numa reunião importante."
"Miguel," a minha voz saiu rouca, "a oficina do pai... ardeu."
Houve uma pausa. A música ao fundo diminuiu ligeiramente.
"Ardeu? Que grande chatice. O teu pai está bem?"
"Não. Ele está nos cuidados intensivos. Inalou muito fumo."
"Merda. Olha, agora não posso mesmo falar. A Helena está a fechar um negócio crucial, preciso de a apoiar. É o futuro da empresa dela."
A Helena. A sua amiga de infância, a sua sócia não oficial em tudo.
"O teu sogro pode morrer, e tu estás preocupado com um negócio?"
"Não sejas dramática, Clara. O que queres que eu faça? Que vá para aí e apague o fogo com as mãos? Os bombeiros trataram disso. Os médicos estão a tratar do teu pai. Eu estou a tratar do nosso futuro financeiro."
"Nosso futuro?" eu ri, um som oco e sem alegria. "Não há 'nosso', Miguel."
"O que é que isso quer dizer?"
"Quero o divórcio."
O silêncio do outro lado foi pesado. Depois, ele bufou, um som de desprezo total.
"Estás a usar a tragédia do teu pai para fazer chantagem emocional. Falamos quando voltares a ti. Agora, a sério, tenho de ir."
Ele desligou.
Olhei para o telemóvel na minha mão. A tela preta refletia o meu rosto manchado. O homem com quem eu era casada há cinco anos tinha escolhido uma "reunião importante" em vez da minha família em cinzas.
A porta da UCI abriu-se e uma enfermeira saiu. O seu rosto era uma máscara de compaixão profissional.
"O seu pai está estabilizado por agora," disse ela suavemente. "Mas as próximas horas são críticas."
Eu assenti, incapaz de formar palavras.
Estabilizado. Uma palavra tão frágil. Tão temporária. Como o meu casamento.
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