
O Divórcio e o Recomeço
Capítulo 3
"Você não entende tudo que eu sacrifiquei por você, Miguel?"
A voz de Ana no telefone era irritante, cheia de uma arrogância que me revirava o estômago. Ela conseguiu meu novo número através de algum parente.
"Sacrificou? O que você sacrificou, Ana? Eu paguei a faculdade do seu irmão. Eu paguei a hipoteca da casa dos seus pais. Eu trabalhei em dois empregos por três anos para que você pudesse fazer seu mestrado sem se preocupar com nada. O que você sacrificou?"
Houve um silêncio do outro lado.
"Isso era sua obrigação como marido" , ela finalmente disse, com a voz carregada de desdém. "Você era o homem da casa."
"Eu era um idiota, isso sim."
Desliguei na cara dela. Cada conversa só reforçava minha decisão.
Ela não via meus sacrifícios. Para ela, era apenas o esperado. Minha dedicação era um fato consumado, não algo a ser valorizado. E agora, ela achava que podia simplesmente trocar as regras do jogo e eu continuaria jogando.
Uma suspeita terrível começou a crescer em mim. Se ela mentiu sobre algo tão fundamental como a capacidade de ter filhos e sobre um caso de dois anos, sobre o que mais ela teria mentido?
Nosso apartamento. Nós o compramos juntos, cinco anos atrás. Dei a entrada com o dinheiro que herdei do meu pai. O financiamento estava no nome de nós dois, mas as parcelas sempre saíram da minha conta.
Com o coração na mão, entrei no site do cartório de registro de imóveis. Digitei nosso endereço.
E lá estava.
O nome do proprietário: Ana de Souza. Apenas o nome dela.
A data da transferência: seis meses atrás.
Enquanto eu achava que ela estava em uma viagem de negócios, trabalhando duro, ela estava no Brasil, transferindo nosso bem mais valioso para o nome dela, me tirando da escritura.
Eu senti o chão sumir sob meus pés. Não era só traição emocional. Era um golpe. Um plano meticulosamente executado para me deixar sem nada.
A raiva me consumiu de uma forma que nunca tinha sentido antes. Uma raiva fria, cortante.
Peguei o telefone e liguei para Portugal. Para o meu antigo professor da faculdade de arquitetura, um mestre renomado que sempre me incentivou.
"Professor, sou eu, Miguel. Desculpe ligar assim, sem avisar."
"Miguel, meu filho! Que surpresa boa! Como você está?"
"Professor, eu preciso ser direto. Aquela vaga de pesquisador assistente no seu ateliê... ela ainda existe?"
Houve uma pausa.
"Sim, existe. Estávamos para abrir um novo processo seletivo. Por quê?"
"Eu quero a vaga. Eu posso estar aí na semana que vem."
"Miguel, aconteceu alguma coisa? Sua voz..."
"Aconteceu tudo, professor. Minha vida aqui acabou. Eu preciso recomeçar. E eu quero recomeçar aí, com o senhor."
"As portas estarão sempre abertas para você, Miguel. Você sabe disso. Quando puder vir, me avise."
Desliguei o telefone e, sem pensar duas vezes, comprei uma passagem só de ida para Lisboa. Para dali a três dias.
Enviei meu pedido de demissão por e-mail. Eu não devia satisfação a mais ninguém.
No dia seguinte, precisava sair de casa para respirar. Andei sem rumo pela cidade, tentando processar a velocidade com que minha vida estava desmoronando e se reconstruindo.
Passei por um café charmoso, um lugar que sempre quis levar Ana, mas ela dizia ser muito "brega".
E então eu os vi.
Sentados em uma mesa na calçada, estavam Ana e Pedro.
Ela estava sorrindo, um sorriso genuíno que eu não via há anos. E ela estava fazendo algo que me deixou paralisado.
Ela estava colocando pimenta em um prato de comida e dando na boca dele.
Pimenta.
Nos oito anos de nosso casamento, Ana nunca me deixou comprar pimenta. Ela dizia que odiava o cheiro, que tinha alergia, que a fazia passar mal. Nossa casa era uma zona livre de pimenta. Eu, que adoro comida picante, abandonei o hábito por ela.
E ali estava ela, cuidando de Pedro, alimentando-o com algo que ela supostamente odiava, com uma intimidade que me revirou as entranhas. Ele parecia fraco, pálido, mas o olhar dele para ela era de adoração.
Aquele pequeno detalhe, a pimenta, foi mais doloroso do que a descoberta do caso. Porque mostrava que o problema nunca foi a pimenta. O problema sempre fui eu. Para ele, ela estava disposta a tudo. Para mim, nem o mínimo.
Virei as costas e saí andando, cego pela dor e pela raiva.
Naquela noite, meu celular tocou. Era um número desconhecido. Atendi.
"Miguel? É a mãe da Ana."
A voz dela era um xarope amargo.
"Você é um ingrato! Depois de tudo que minha filha fez por você, você a abandona agora que ela mais precisa? Que tipo de homem você é?"
Chantagem emocional. A mesma tática da filha.
"Sua filha teve filhos com outro homem e quer que eu os crie. Que tipo de mulher ela é?" , respondi, com a voz gélida.
"Pedro é um homem bom! Ele está doente! Ana só tem um coração grande! E você, como marido, tem a obrigação de cuidar dessa nova família! É sua responsabilidade!"
Responsabilidade. A palavra que elas usavam para me acorrentar.
"Minha única responsabilidade agora é comigo mesmo. Não me ligue mais."
Desliguei. Bloqueei o número.
A decisão estava tomada. Não havia mais volta. Portugal não era mais uma opção. Era uma necessidade. Era minha única saída.
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