
O Divórcio da Linha Reta
Capítulo 2
O corredor do hospital cheirava a desinfetante e a medo. As luzes brancas e frias do teto refletiam no chão polido, pareciam infinitas.
O meu pai estava a morrer do outro lado daquela porta de vidro fosco.
"Senhora Alves, precisamos de uma decisão," disse o médico, com uma voz cansada. "A cirurgia de emergência é de alto risco, mas é a única opção que resta."
A minha mão tremia enquanto eu segurava o telemóvel.
"Só preciso da assinatura do meu marido. Ele já devia estar a chegar."
O médico olhou para o relógio na parede, a sua expressão não mudou.
"Não temos muito tempo."
Ele voltou para dentro da Unidade de Cuidados Intensivos, deixando-me sozinha com o som dos meus próprios batimentos cardíacos.
Disquei o número do Leo pela décima vez. Chamou, chamou, e foi para o correio de voz. De novo.
"Leo, por amor de Deus, atende. É o pai. Os médicos precisam de ti."
Deixei a mensagem, a minha voz a falhar.
Sentei-me no banco de plástico duro, o frio a atravessar a minha roupa. Olhei para as minhas mãos, para a aliança de casamento no meu dedo. Parecia um objeto estranho.
O telemóvel vibrou na minha mão. Era ele. Atendi no primeiro toque.
"Sofia? O que se passa? Estás a ligar sem parar, assustaste a Clara."
A sua voz era irritada, impaciente. Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Clara.
"Leo, é o pai. Ele está mal. Os médicos precisam de ti aqui para assinar os papéis da cirurgia. Agora."
Houve uma pausa. Ouvi o Leo a suspirar.
"Sofia, não posso ir agora. A Clara caiu das escadas, torceu o tornozelo. Estou a levá-la ao hospital."
O meu sangue gelou.
"Caiu das escadas? Leo, o meu pai está a morrer! Que hospital? Eu vou ter contigo!"
"Não," ele disse, a sua voz firme. "Fica aí. Os médicos que esperem. A Clara está em pânico, não a posso deixar sozinha. Ela não tem mais ninguém."
Ela não tem mais ninguém. E eu? E o meu pai?
"Leo, por favor," implorei, o meu orgulho a desfazer-se. "É uma questão de minutos."
"Tu consegues tratar disso, Sofia. És forte. Assina tu os papéis. Ligo-te mais tarde."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
Olhei para o telemóvel, incrédula. Olhei para a porta da UCI.
O médico saiu novamente. Desta vez, o seu rosto era sombrio. Ele não precisou de dizer nada.
Atrás dele, o monitor cardíaco que eu conseguia vislumbrar pelo vidro mostrava uma linha reta e emitia um som agudo e contínuo.
O meu mundo ficou em silêncio.
O meu telemóvel apitou com uma nova mensagem. Era do Leo.
"A Clara só partiu um osso do pé. Que susto. Já estamos a ser atendidos. Beijo."
Não respondi. Deixei o telemóvel cair no meu colo. O meu pai tinha-se ido. Sozinho.
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