
O Dia Em Que Meu Amor Por Ele Morreu
Capítulo 2
Ricardo olhou para mim, um lampejo de surpresa em seus olhos. Ele não esperava que eu simplesmente "entrasse na linha". Ele não sabia que minha aceitação silenciosa não era rendição, mas uma declaração de guerra.
Ele tentou amenizar as coisas mais tarde naquela noite. Entrou no meu quarto, a hora tardia, a casa silenciosa. A luz da lua cortava a janela, pintando listras no tapete caro. Ele se sentou na beirada da minha cama, sua presença um peso que eu não mais desejava.
"Helena", ele sussurrou, sua voz tingida com a falsa ternura que ele agora reservava para aparições públicas. "Eu sei que isso é difícil. Mas somos uma equipe, lembra? Vamos superar isso. É temporário. Apenas pela família."
"Temporário", repeti, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Foi isso que você me disse quando me pediu em casamento, Ricardo? Que nosso amor, nosso casamento, seria 'temporário'?"
Ele se encolheu. "Isso não é justo. Isso é diferente. É sobre legado."
"Legado? Ou conveniência?" Minha voz permaneceu nivelada, uma calma perigosa que deveria tê-lo alertado. "Você me prometeu tudo, Ricardo. Um futuro compartilhado. Uma família nossa. Você disse que eu era a única."
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. "E você é. Você é a única. Meu coração está com você." As palavras soaram ocas, ensaiadas.
Naquele momento, algo dentro de mim se fechou. Uma porta que eu mantive aberta, apesar de todo o abuso, finalmente se fechou com força. O amor que eu uma vez senti por ele, tão vasto e consumidor, murchou e morreu. Não foi uma explosão súbita de raiva, mas uma extinção fria e silenciosa.
Lembrei-me de Ricardo, não como o CEO dos Almeida Prado, mas como o jovem ambicioso, quase desesperado, que conheci. Ele era um analista júnior na época, ofuscado por seu irmão mais velho, vivendo em um apartamento apertado que mal cabia seus sonhos. Meu pai, Francisco Ferraz, um magnata da tecnologia que construiu seu império do nada, viu através do verniz polido de Ricardo imediatamente.
"Ele é um alpinista social, Helena", meu pai havia avisado, seu olhar afiado. "Ele te vê como um degrau, não como uma parceira."
Mas eu amava Ricardo. Ou melhor, eu amava o homem que eu acreditava que ele era — o homem que afirmava me amar com uma intensidade tão feroz. Ele me pediu em casamento em um telhado chuvoso, de joelhos, com um anel que não podia pagar. Ele olhou nos meus olhos, cheios de lágrimas, e fez um juramento que ressoou com o desespero cru de um homem que sentia que não tinha nada a perder.
"Eu vou te amar, Helena Ferraz, até meu último suspiro", ele prometeu, sua voz embargada de emoção. "Eu nunca vou te trair. Eu sempre vou escolher você." Ele até enfrentou meu pai formidável, derramando seu coração, implorando por minha mão.
Meu pai, sempre pragmático, viu a intensidade, talvez a tenha confundido com devoção genuína. Mas ele também era um homem que protegia os seus. Ele tinha uma condição.
"Se você algum dia trair minha filha, Ricardo", meu pai declarou, sua voz como aço, "se você algum dia der a ela motivo para questionar sua fidelidade, tudo o que você ganhar com este casamento, tudo o que você construir, será perdido. Entendeu?"
Ele então apresentou um documento. Um acordo pré-nupcial, blindado e impiedoso, com uma cláusula de infidelidade que tiraria de Ricardo cada centavo e cada ativo ganho durante o casamento, caso ele se desviasse. Também continha uma cláusula sobre a residência principal do casal.
Ricardo, com os olhos brilhando e insistindo em seu "amor eterno", assinou sem pensar duas vezes. "Claro, Sr. Ferraz", ele disse, com um sorriso confiante no rosto. "Eu nunca sonharia com isso." Ele até riu, como se a noção de me trair fosse absurda.
A ironia agora queimava como ácido na minha garganta. Ele havia assinado seu futuro, sem saber. E eu, tola que era, fiquei comovida com sua suposta devoção.
Ricardo se inclinou, tentando me beijar. Seus lábios roçaram minha bochecha, e eu senti — o cheiro persistente do perfume de Isabela, fraco, mas inegável, misturando-se com o dele. Era um cheiro enjoativo, doentio, como flores machucadas.
Meu estômago se revirou. Uma onda de náusea me invadiu. Eu o empurrei para trás gentilmente, sutilmente, mas com uma força que surpreendeu até a mim mesma.
"Eu preciso dormir, Ricardo", eu disse, minha voz plana. Meu corpo sentia repulsa, uma reação visceral ao seu toque. A traição não era mais apenas um conceito abstrato; era uma presença física, um gosto ruim na minha boca, um cheiro persistente na pele do meu marido.
Ele hesitou, depois se levantou, um lampejo de mágoa em seus olhos. Ele não insistiu. Simplesmente saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Fiquei deitada no escuro, meu corpo rígido, a náusea diminuindo lentamente. Mas outra coisa havia tomado seu lugar. Uma clareza fria e dura. A porta estava fechada. E nunca mais se abriria.
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