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Capa do romance O destino de Maude

O destino de Maude

Maude, uma herdeira de Portland, viveu três anos de abusos sob o teto de um marido cruel. Após ser espancada por ele e sua amante ao revelar uma gravidez, ela é resgatada à beira da morte por Owen Grant. O fazendeiro viúvo a leva para o campo, onde Maude descobre a beleza da vida simples e do trabalho árduo. Enquanto se recupera, ela enfrenta um dilema: entregar-se a um novo amor com Owen ou priorizar sua sede de vingança contra quem a destruiu.
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Capítulo 3

Para a surpresa de Owen, a misteriosa mulher havia sobrevivido à noite. Tivera alguns poucos momentos de lucidez, em que balbuciava coisas sem nexo com uma voz muito fraca. Isso devia ser um bom sinal, ao menos ela não estava em coma. Com medo de ser pego com uma pessoa quase morta em sua carroça, ele viajou a noite toda, por estradas mais afastadas, e em uma boa velocidade. Eram dois dias de viagem até sua cidade, isso se mantivesse um bom ritmo. Ao amanhecer parou para que os cavalos descansarem e comer alguma coisa.

Verificou que ela ainda estava respirando. Não havia muito o que pudesse fazer ainda, poderia cuidar melhor dela quando chegasse em casa. Teria que chamar seu médico de confiança, diria que a encontrou na estrada nesse estado. Depois de um pouco de descanso, seguiu viagem até anoitecer. Estava exausto, mal conseguiu comer algo e deitou-se ao lado da mulher na carroça, tomando cuidado para não machucá-la ainda mais. No dia seguinte, acordou antes de amanhecer, comeu e seguiu viagem.

Era de tarde quando chegou a Sun City. Resolveu que primeiro a deixaria na fazenda e só depois buscaria as crianças, elas poderiam ficar assustadas com a aparência da desconhecida. Ao chegar, tirou-a da carroça e a levou para dentro. Deitou-a em uma das camas do quarto das crianças com cuidado. A deixou aos cuidados de um de seus empregados de confiança. O homem ficou assombrado quando viu a moça.

– Meu Deus, Owen, o que aconteceu com ela?

Ele achou melhor contar a versão oficial que adotaria com o médico, mais tarde teria tempo de explicar toda a situação ao amigo.

– Eu a encontrei no caminho de volta, estava jogada na beira da estrada. Fiquei com pena e a trouxe para que o médico a visse. Inclusive devo ir logo buscar ele e as crianças.

Ele foi em direção a cidade, falou com o médico que disse que iria em seguida atender seu chamado. Pegou as crianças e voltou para casa.

Ele era o pai orgulhoso de três filhos lindos. O mais velho tinha oito anos, a menina do meio tinha seis e a mais nova era um bebê de um ano e seis meses. Havia se casado com Ana quando ele tinha vinte dois e ela dezessete, era a vontade dos pais que já estavam velhos, que ele constituísse família. Os dois morreram um ano após seu casamento.

Ana sempre fora uma mulher introvertida, mas nos últimos tempos era assolada por uma melancolia assombrosa. Nem mesmo os filhos foram capazes de lhe devolver a vontade de viver. Sucumbiu por uma gripe, afinal tinha uma composição fraca, pois não se alimentava bem. Owen sempre a tratou com respeito e gentileza, mas ela sempre foi distante. Acreditava haver aceitado o casamento por pressão dos pais e também para sair da miséria em que vivia sua família.

A fazenda dos Grant era próspera, eram conhecidos na região pelos ótimos rebanhos que comercializavam com todo o estado. Eles levavam suas cabeças de gado em comitiva até a estação de trem mais próxima onde as embarcavam. Viviam modestamente, mas sem passar necessidade alguma. O trabalho era árduo no campo, e ele tinha poucos funcionários para ajudá-lo. Haviam períodos mais difíceis que os outros, o inverno era sempre um medo constante, em alguns anos chovia muito, em outros era um pouco mais seco.

As crianças se recuperaram relativamente bem da morte da mãe: ela estava longe de ser um modelo de afetuosidade. Geralmente ficava em seu próprio mundo, fazia pelos filhos apenas o básico, já que não contavam com uma babá. Mas carinho e atenção eram parcos naquela relação. Quando ela morreu, Owen não teve dificuldade em assumir o cuidado deles, mas estava sendo muito difícil conciliar com o trabalho. Isso e o fato de achar que os pequenos realmente precisavam do amor de uma mãe foi o que o fez partir para Portland, e se meter nessa enorme confusão.

O médico examinou a estranha cuidadosamente, levou um tempo até que verificasse todos os seus ferimentos.

– Quem quer que tenha feito isso com ela estava com muita raiva. Nunca vi uma mulher tão agredida. Não será uma pessoa perigosa para ter sido atacada assim?

– Realmente não sei doutor, mas acho que nada justifica uma agressão dessas a uma mulher.

– Sim, é verdade. Pelo que vi ela vai se recuperar. Não tem nenhuma perfuração pulmonar, a respiração parece regular. Responde à estimulação de luzes.

– Sim, no caminho ela balbuciou algumas coisas.

– É, de fato, creio que irá se salvar. Mas a recuperação será lenta e dolorida. Vou deixar láudano para dar para ela se tiver dores fortes. Tente alimentá-la e dar bastante líquidos.

– Está certo doutor, eu farei isso. Muito obrigada por vir.

– Não precisa agradecer, é o meu trabalho afinal. Mas rapaz, foi uma sorte você ter encontrado-a na estrada. Outra noite ao relento e ela não sobreviveria.

– Sim, vou fazer o meu melhor para cuidar dela até se recuperar. Se eu precisar, chamo o senhor.

– Certo, boa sorte na recuperação dela.-- O médico olhou mais uma vez em direção a cama que ela estava deitada antes de sair, com ar de pesar.-- Pobre moça, que Deus a ajude.

Quando o médico foi embora, Owen foi ver os filhos que estavam com o capataz. Ele disse a eles que no seu quarto estava uma moça que tinha ficado muito doente, e estava se recuperando. Mandou que a menina de seis anos, Melanie, dormisse na outra cama do quarto, e levou o Menino Tobby de oito e a bebê Alex para dormirem com ele em sua cama. Melanie ficou feliz com a atribuição de cuidar da recém-chegada, o pai lhe disse que seria uma tarefa muito importante, digna de uma menina grande.

Dois dias se passaram antes que a mulher acordasse completamente. Ela ficava indo e vindo em um estado de semiconsciência. Owen conseguiu dar algumas colheradas de sopa e água para ela. Os cabelos e outras partes de seu corpo estavam um caos de sangue e areia. Os hematomas já estavam ganhando uma coloração arroxeada. Ele limpou os ferimentos como pode, não queria faltar com o respeito devido. Sorte que os cortes eram em sua maioria em lugares visíveis.

Quando ela abriu os olhos e conseguiu mantê-los assim era Melanie que estava com ela, a menina havia pegado o hábito de brincar com suas bonecas ao lado de sua cama, como se ela pudesse participar da brincadeira.

Ela assustou-se e gritou pelo pai.

– Papai, a moça acordou! Papai, papai venha logo.

Maude tentou se sentar na cama, mas não conseguiu, apenas se levantou um pouco e se recostou melhor nos travesseiros. A menina loira não parava de gritar e sua cabeça parecia explodir.

– Não grite. – Ela conseguiu dizer com uma voz fraca.

Owen entrou no quarto apressado, quando ouviu os gritos de Melanie não pensou direito, apenas saiu correndo em direção ao quarto. Quando passou pela porta viu que a mulher havia acordado.

– Finalmente acordou. Cheguei a pensar que não aconteceria.

Ela apenas o encarava um pouco temerosa.

– Querida, vá brincar lá na sala, por favor.

A garotinha demonstrou insatisfação.

– Mas papai, ela agora acordou, vai poder finalmente brincar comigo.

– Agora não, Melanie, a moça tem que se recuperar primeiro. Me obedeça e vá para a sala.

A menina saiu contrariada e ele dirigiu seu olhar a mulher deitada.

– Você lembra quem você é, e o que aconteceu com você?

Ela apenas balançou a cabeça em afirmação, a boca e o maxilar ainda doíam um pouco ao tentar falar.

– Quem é você, e onde estou?

Ela conseguiu perguntar com voz fraca.

– Eu sou Owen Grant e está na minha casa. Você está segura, está longe de Portland. Eu encontrei você nesse estado e a trouxe para cá, na tentativa de salvá-la.

Ela apenas assentiu, deitou-se novamente e fechou os olhos, não resistindo ao cansaço. Owen entendeu ser o momento de deixá-la sozinha outra vez.

Os dias se passaram com ela, passando cada vez mais tempo acordada. Comia o que lhe era oferecido e ficava cada vez mais forte. Um dia pediu água para se lavar.

– Acha que já está bem para levantar? Eu tenho aqui um vestido limpo para você trocar.

Ele saiu e ela se lavou como pode, colocou o vestido limpo e voltou para a cama.

– Alguém vem me procurar? - Ela perguntou um dia quando ele trouxe o jantar.

– Dificilmente, não sabem nem que ainda está viva. O homem que me entregou você não sabe quem eu sou ou de onde eu vinha. Fique tranquila, estará segura aqui.

Ela assentiu e continuou sem silêncio.

Para Maude os dias demoravam a passar, trancada naquele quarto. A garotinha vinha toda hora, falava pelos cotovelos, e exigia que brincasse com ela quando estivesse melhor. Havia também um menino mais velho e um bebê, mas esses não vinham muito ao quarto. Ver aquele bebê havia sido deprimente, a fez pensar no seu próprio. Certamente o havia perdido depois do ataque, era impossível que houvesse sobrevivido.

Ser mãe era o maior sonho de sua vida, e já amava o bebê. Mas não sabia como seria conviver com uma criança filha de Sebastian, talvez tivesse sido melhor assim. O homem chamado Owen era muito atencioso e gentil, trazia comida e cuidava de seus ferimentos. Apesar da aparência rude e das roupas de trabalho muito gastas, sua voz era tranquila e inspirava calma e segurança, Maude gostava de ouvi-lo. Depois de mais de uma semana acamada, ela sentia que precisava de um banho e lavar os cabelos. As compressas de água fria que o homem trazia fizeram os hematomas desinchar bastante, sua aparência já era bem melhor. O dono da casa era um homem muito alto, com uma estrutura de músculos aparentes. Tinha o cabelo castanho-claro e os olhos verdes, trazia uma barba espessa, um tanto mal cuidada, mas sempre limpa. Era definitivamente o que imaginaria de um homem do campo, que trabalhava duro para ganhar seu sustento. Apenas pelo seu trato gentil, ela já o consideraria agradável, e talvez até bonito por debaixo de toda aquela barba. Os olhos eram incríveis, de um tom de verde que ela jamais havia visto, ela notou que quando ele sorria, parecia sorrir também com os olhos. Não acreditava que conseguiria fazer esse tipo de julgamento outra vez, mas se fosse, poderia dizer que ele era, se não bonito, mas agradável aos olhos. Aparentava ser bem mais velho que ela, na casa dos trinta, talvez, era amoroso com as crianças, como o próprio pai havia sido com ela. O que teria acontecido com a mãe de seus filhos? Não viu nenhuma mulher na casa, seria ele viúvo?

Quando ele entrou no quarto pela manhã, ela não perdeu tempo em perguntar.

– Senhor, tem algum lugar que eu poderia tomar um banho e lavar os cabelos?

– Tem, sim, uma tina que usamos para isso, também tem um chuveiro na rua, mas a água lá é gelada.

– Eu acho que prefiro o chuveiro, será mais prático.

– Tudo bem, eu te levo até lá.

Ele a deixou no galpão do chuveiro e saiu para dar privacidade a ela.

Maude tirou suas roupas e pode finalmente ter uma ideia do número de ferimentos e hematomas. Eram muitos, espalhados por todo o corpo, mas a maioria já estava se curando. Apesar de tudo, ainda era difícil acreditar que Sebastian havia feito aquilo com ela. Sempre foi um marido ausente e até um pouco agressivo, mas não imaginaria que chegaria a tanto. Ele devia ter sido amante daquela mulher desde o início, por isso era frio e distante. Doía pensar no quanto os dois devem ter rido da ingenuidade dela. Depois do casamento ele sempre fazia questão de deixar claro o quanto ela era desinteressante. Sem graça e livre de atrativos era o que ele dizia. A tal Helena era de fato uma mulher exuberante como ela nunca seria, com aqueles cabelos loiros e um corpo muito esbelto. Maude sempre teve uma constituição mais cheia, pois comer era algo que sempre gostou muito de fazer, os doces, então, sempre foram seu fraco. Nunca esteve acima do peso, mas não era extremamente magra igual ditava a moda.

A água caiu como uma bênção em seu corpo. Mesmo gelada, era reconfortante poder se lavar decentemente. O dono da casa lhe entregou outro vestido limpo, sabão, toalha e um pente de cabelo. Tudo ao seu redor era muito humilde, em nada se parecia com a vida luxuosa que levou a sua vida inteira. Mas lembrou-se que fora justamente pelo luxo e riqueza que aquilo havia acontecido com ela. Não precisava que Owen lhe dissesse que ela havia sobrevivido por sorte. Em muitos momentos ela achou que fosse morrer, em alguns deles, ela até desejou isso. Inclusive durante seu casamento, Sebastian já a havia destruído muito antes de tentar matá-la. Agora ela era um esboço mal feito da jovem que fora, cheia de alegria e esperanças. Uma mulher destruída, sem sonhos ou anseios. Fora anos tortuosos em que ela teve que sofrer sozinha seu calvário. E lembrar que se ela não tivesse feito as escolhas que fez, seu querido pai ainda poderia estar vivo, era mais uma coisa que assombrava seus dias.

Graças àquele estranho ela estava viva e a salvo. O fazendeiro foi o herói de uma desconhecida e a trouxe para a sua própria casa. Ainda não sabia ao certo o que fazer com isso, precisava estar plenamente recuperada para decidir.

Ela terminou o banho e o encontrou esperando-a à porta do galpão.

– O senhor ficou aí esse tempo todo?

– Não me chame de senhor, para todos aqui eu sou só Owen. Menos para as crianças, para elas eu sou o papai. Não tinha certeza se você estava confortável para andar por aí sozinha. Pode levar um tempo até adquirir confiança.

– Owen, apesar de tudo, eu tenho me sentido segura aqui. Nunca vou poder pagar pela sua hospitalidade, e por tudo o que fez por mim.

– Bem, já que você já se sente melhor e entrou no assunto, tem algo que eu gostaria de receber em retribuição.

Ela arregalou os olhos, surpresa com a declaração dele.

– A senhora poderia se tornar a minha esposa e mãe dos meus filhos?

Maude pensou que houvesse ouvido errado, ela só poderia ter ouvido errado.

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