
O Desprezo e a Luta: A Saga de Uma Mãe Autista
Capítulo 2
Eu estava na esquadra da polícia.
O ar condicionado estava avariado, e o calor de Lisboa em pleno agosto parecia entrar pelas paredes.
O meu marido, Pedro, sentou-se na cadeira em frente a mim, com uma expressão de preocupação no rosto.
"Sofia, eu sei que estás chateada, mas não precisavas de vir aqui fazer queixa."
Olhei para ele, depois para o meu braço, onde uma marca roxa começava a formar-se.
"Ele empurrou-me, Pedro. O teu pai empurrou-me."
"Ele estava nervoso", disse ele, passando a mão pelo cabelo. "Sabes como ele fica por causa do Miguel."
Miguel. O nome do meu filho. O neto que o meu sogro, o Sr. Alves, se recusava a aceitar.
O polícia voltou com dois copos de água.
"Então, Sra. Costa, pode contar-me outra vez o que aconteceu?"
Respirei fundo.
"Eu fui a casa dos meus sogros para deixar o Miguel. A minha mãe está doente, precisava de ir ao hospital. O meu sogro abriu a porta. Quando viu o Miguel, ficou furioso."
"Ele disse que o meu filho não era bem-vindo naquela casa."
"Eu disse-lhe que ele era o avô, que não podia fazer aquilo. Ele começou a gritar. Disse que o Miguel era um erro, uma vergonha para a família."
"Depois ele empurrou-me. Eu caí para trás, contra a parede."
Pedro interrompeu. "Foi um acidente. O meu pai tem 70 anos, ele não queria magoar-te. Ele só estava a tentar fechar a porta."
O polícia olhou de mim para o Pedro.
"E o que é que você fez, Sr. Alves?"
Pedro baixou o olhar.
"Eu... eu estava a tentar acalmar o meu pai. Levei o Miguel para o carro."
"Ele deixou a mulher dele no chão e foi cuidar do filho", completei, com a voz vazia.
O polícia suspirou. "Isto é uma queixa de violência doméstica, Sra. Costa. Se avançarmos, o seu sogro será chamado a depor."
Pedro levantou-se de repente.
"Não! Sofia, por favor. Pensa na nossa família. O meu pai está velho. Um escândalo destes... ia destruí-lo. Ia destruir a minha mãe."
"E eu?", perguntei, a minha voz finalmente a tremer. "E o nosso filho? Não fazemos parte desta família?"
"Claro que fazem", disse ele, a sua voz a suavizar, a tentar manipular-me. "Tu és a minha mulher. Mas tens de compreender o meu pai. Ele é de outra geração. Para ele, o Miguel..."
Ele não conseguiu terminar a frase.
"...é autista", disse eu, a palavra a pesar no ar quente da esquadra. "É isso que ele é. O teu pai tem vergonha do próprio neto porque ele é autista."
Pedro não respondeu. O seu silêncio era uma confissão.
"Vamos para casa, Sofia. Conversamos em casa. Resolvemos isto."
Ele estendeu-me a mão.
Eu olhei para a mão dele, depois para o polícia.
"Eu quero avançar com a queixa."
Você pode gostar





