
O Coração Por Quem Me Casei
Capítulo 3
Ponto de Vista: Helena
Virei-lhe as costas, um movimento simples que pareceu construir um muro, tijolo por tijolo silencioso. Fui até minhas malas, verificando as etiquetas uma última vez. Florianópolis (FLN) para São Paulo (CGH). Minha nova vida.
Atrás de mim, o silêncio era pesado. Eu podia sentir a confusão de Arthur irradiando pela sala. Ele estava acostumado com minhas lágrimas, meus apelos silenciosos por atenção, meus silêncios magoados. Essa calma fria e distante era uma linguagem que ele não entendia. Um sentimento oco começou a florescer em seu peito, um vazio desconhecido onde minha adoração constante e inabalável costumava estar. Ele provavelmente descartou isso como aborrecimento, um lampejo de irritação com minha súbita rebeldia. Ele era um homem que racionalizava as emoções até que elas deixassem de existir.
"Você ainda está brava", ele finalmente disse, sua voz tingida com uma espécie de paciência cansada, como se estivesse lidando com uma criança birrenta. Ele foi até a cozinha e se serviu de um copo de uísque, o tilintar do gelo contra o vidro o único som.
Virei-me para encará-lo, apoiando-me em minha bagagem.
"Onde está a Bianca?", perguntei, meu tom leve, conversacional. "Você não deveria estar com ela?"
Ele tomou um gole de sua bebida, seus olhos se estreitando. Ele pensou que isso era uma nova tática, um estratagema sarcástico para chamar a atenção.
"Ela está em casa, descansando. Os pais dela estão com ela." Ele girou o líquido âmbar em seu copo. "Olha, Helena, eu sei que estive... ausente. A festa de gala é na próxima semana. Iremos juntos. Vou te comprar aquele colar que você estava olhando."
Um suborno. Uma tentativa barata e impensada de amenizar as coisas, como ele sempre fazia. No passado, eu teria me agarrado a essa pequena oferta, a essa migalha de atenção. Agora, era apenas insultante.
"Não estou interessada na festa de gala, Arthur", eu disse. "Nem no colar."
Sua mandíbula se contraiu.
"Não seja difícil. Desfaça as malas. Saímos em uma hora para jantar com meus pais."
Antes que eu pudesse recusar, ele se aproximou, agarrou meu braço e me puxou em direção ao quarto. Seu aperto era como ferro.
"Vá se trocar." Não era um pedido.
Na viagem silenciosa para a mansão de seus pais, seu telefone tocou.
"É a Bianca", ele disse, não como um pedido de desculpas, mas como uma constatação. Uma crise que só ele poderia resolver. Ele parou o carro abruptamente. "Saia", disse ele, seus olhos já distantes, focados em seu telefone. "Pegue um táxi. Tenho que ir até ela."
Ele me deixou na beira de uma estrada mal iluminada, sem pensar duas vezes, pela segunda vez em três dias. A humilhação nem sequer registrou mais. Eu simplesmente observei suas luzes traseiras desaparecerem, depois chamei um Uber.
No dia seguinte, recebi uma mensagem de um dos amigos de Arthur, um banqueiro bajulador chamado Tadeu. 'Festa na boate hoje à noite. Arthur quer você lá.' Eu sabia que Arthur não tinha enviado a mensagem. Mas eu queria ver Bianca uma última vez. Eu queria ver a mulher que, inadvertidamente, me libertou.
Eu fui. A boate estava barulhenta, vibrando com a música e a conversa da elite da cidade. Eu os vi imediatamente — Bianca e seu círculo de bajuladores. Bianca me viu também, e um pequeno sorriso malicioso brincou em seus lábios. Enquanto eu passava por sua mesa, ela deliberadamente esticou o pé. Eu tropecei, e sua amiga prontamente "acidentalmente" derramou um coquetel vermelho e pegajoso na frente do meu vestido branco.
O grupo explodiu em risadas. Bianca olhou para mim, seus olhos brilhando de triunfo.
"Ops", disse ela, sua voz escorrendo falsa simpatia. "Você é tão desastrada, Helena."
Eu fiquei ali, encharcada e humilhada, o líquido frio se infiltrando no tecido. Eu não chorei. Nem sequer vacilei. Apenas olhei para ela.
"Se divertindo?", perguntei calmamente.
O sorriso de Bianca vacilou por um segundo, desconsertada pela minha falta de reação. Então ela pegou o celular.
"Ah, você tem que ver isso. Arthur me mandou ontem à noite."
Ela tocou um vídeo. Era Arthur, no que parecia ser seu escritório, falando para a câmera. Ele estava sorrindo, um sorriso raro e genuíno que eu quase nunca tinha visto.
"Para a Bia", ele disse, sua voz suave. "Feliz aniversário adiantado. Sei que você sempre quis isso." Ele ergueu um conjunto de chaves de um carro esportivo novinho em folha, o modelo exato sobre o qual Bianca vinha falando há meses. O vídeo era íntimo, pessoal e claramente não destinado aos meus olhos.
"Ele é tão fofo, não é?", Bianca arrulhou, guardando o celular. "Ele se lembra de cada coisinha sobre mim."
Tadeu, sentado ao lado dela, interveio com uma risada.
"Nossa, o Ferraz está caidinho. Você o tem na palma da mão desde que eram crianças."
Meu olhar permaneceu em Bianca. O vídeo, a humilhação pública — tudo era apenas ruído agora. Ruído branco antes do silêncio.
"Sabe", eu disse, minha voz cortando suas risadas, "vocês dois são perfeitos um para o outro."
Todos pararam e me encararam.
"Ele é arrogante e egoísta", continuei, meus olhos fixos nos de Bianca, "e você é manipuladora e cruel. É uma combinação feita no céu."
Virei-me para Tadeu.
"E você pode dizer uma coisa para o Arthur por mim."
Inclinei-me, minha voz baixando para um sussurro conspiratório, mas alto o suficiente para toda a mesa ouvir.
"Diga a ele que eu mandei ele se foder."
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