
O Coração Escolheu Ana
Capítulo 3
O apartamento para onde Ana o levou não parecia um lar. Pelo menos, não o lar dele.
Era um lugar pequeno e arrumado no centro da cidade, com paredes brancas e móveis funcionais. Havia plantas nas janelas e livros empilhados nos cantos, mas faltava algo essencial: ele.
"Esta é a nossa casa," Ana disse, com uma voz um pouco incerta, enquanto o ajudava a entrar.
Pedro caminhou lentamente pela sala, passando os dedos sobre uma estante de madeira. Havia fotos em porta-retratos: Ana com Sofia, Ana com um casal mais velho que ele supôs serem seus pais, Ana rindo com um grupo de amigos. Nenhuma foto dele.
Ele abriu um armário na cozinha. Estava cheio de chás de ervas e comida orgânica. Ele se lembrou de um flash, um fragmento de memória: o cheiro de manteiga e alho, o som de uma faca batendo numa tábua de cortar. Ele gostava de cozinhar. Comida de verdade. Com sabor. Aquele armário não era de um chef de cozinha.
"Você parece… gostar muito de chá," ele comentou, fechando a porta do armário.
Ana se virou, surpresa. Ela estava na porta do quarto, segurando a mala dele.
"Ah, sim. Eu gosto. Ajuda a relaxar," ela respondeu rapidamente. "Nós gostamos."
Ela se corrigiu, mas era tarde demais. O lapso pairou no ar entre eles.
Pedro continuou sua exploração silenciosa. O quarto era igualmente impessoal. Uma cama de casal, um guarda-roupa e uma pequena escrivaninha. As roupas no guarda-roupa eram todas femininas, exceto por algumas camisetas e calças masculinas dobradas numa prateleira, que pareciam ter sido compradas às pressas. Eram do tamanho dele, mas não tinham o cheiro dele, o desgaste do uso.
Ele se sentou na beira da cama. O colchão era macio. Ana o observava da porta, uma expressão de ansiedade no rosto.
"Está tudo bem?" ela perguntou.
"Sim. Só é… estranho. Não me lembrar de nada disso."
"O médico disse que é normal. Que as memórias podem voltar aos poucos."
Ela se aproximou e colocou uma mão no ombro dele. O toque era gentil, hesitante. Pedro não se afastou. Ele gostava da sensação.
"Eu vou preparar algo para você comer. Você deve estar com fome."
Enquanto ela estava na cozinha, ele ouviu o som suave dos armários se abrindo e fechando, a água correndo na pia. Eram sons caseiros, reconfortantes. Apesar da mentira que envolvia tudo aquilo, a presença de Ana era calmante.
Ele se deitou na cama, fechando os olhos. O apartamento tinha o cheiro dela. Uma mistura suave de livros antigos e do chá de camomila que ela estava preparando. Era um cheiro bom. Ele se perguntou qual era o cheiro de Sofia. Ele tentou se lembrar, mas sua mente só trazia o cheiro de antisséptico do hospital.
Ana voltou com uma bandeja. Tinha uma caneca de chá e um sanduíche simples.
"Não é nada muito elaborado," ela disse, sem graça. "Eu não sou uma chef como você."
Pedro pegou o sanduíche. Pão integral, queijo branco e peito de peru. Era exatamente o tipo de comida sem graça que ele imaginou que encontraria naquela cozinha. Mas ele estava com fome, e comeu tudo.
Enquanto comia, ele a observava. Ela se sentou numa poltrona no canto do quarto, fingindo ler um livro, mas ele podia ver que seus olhos estavam fixos nele por cima das páginas. Havia uma preocupação genuína em seu olhar. Diferente do olhar calculista de Sofia.
Ele terminou de comer e colocou a bandeja de lado.
"Obrigado. Estava bom."
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
"De nada."
Ele pensou na ironia da situação. Sua noiva o abandonou com a melhor amiga dela, que agora fingia ser sua noiva. E ele, o noivo sem memória, sabia de tudo. Era o roteiro de uma comédia trágica. Ele quase riu, mas se conteve.
"Acho que preciso descansar um pouco," ele disse, usando a desculpa perfeita. Sua recuperação. "Minha cabeça ainda dói."
Era uma mentira. A dor tinha diminuído. O que ele precisava era de espaço. Espaço para pensar, para processar a teia de enganos em que estava preso.
"Claro, claro," Ana se levantou imediatamente. "Descanse. Eu vou ficar na sala se precisar de alguma coisa. Qualquer coisa mesmo, é só chamar."
Ela saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.
Sozinho, Pedro se levantou e foi até a janela. Observou as luzes da cidade se acendendo enquanto a noite caía. Ele não se lembrava do seu passado, mas seu instinto estava intacto. E seu instinto lhe dizia que Ana, apesar de fazer parte da mentira, não era como Sofia. Havia algo nela… uma decência, uma bondade que ela não conseguia esconder, mesmo tentando.
Ele se perguntou por que ela aceitou. Por lealdade? Por pena? Ou, como Sofia havia insinuado, por algo mais?
Ele voltou para a cama e se deitou, o cheiro dela nos lençóis o envolvendo. Pela primeira vez desde o acidente, ele não se sentiu completamente sozinho. Estava sendo enganado, sim. Mas também estava sendo cuidado. E essa dualidade era a coisa mais interessante que lhe acontecera desde que acordou naquele hospital. Ele decidiu continuar no papel do amnésico confuso. Por enquanto. Ele queria descobrir quem era a verdadeira Ana.
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