
O Coração Dele, Minha Traição Suprema
Capítulo 3
Ponto de Vista: Helena "Lena" Ferraz
"Arthur, não!" O apelo foi arrancado da minha garganta, cru com um terror que ele conhecia intimamente. A porta pesada se fechou com um clique, o som ecoando o fechamento final de uma tumba. A escuridão me engoliu por inteiro.
Minha respiração engasgou, meus pulmões gritando por um ar que de repente era denso demais para inalar. As paredes, eu podia senti-las, pressionando-me, roubando meu oxigênio, esmagando meus ossos. Minhas palmas ficaram úmidas de suor enquanto eu tateava contra o aço liso e frio da porta.
"Por favor, me deixe sair", implorei, minha voz um gemido patético contra o metal à prova de som. "Arthur, por favor."
Silêncio.
Ele sabia o que isso fazia comigo. Foi ele quem me encontrou, hiperventilando e arranhando as paredes de um elevador preso apenas um ano depois de nosso casamento. Ele me abraçou por horas depois, murmurando promessas de que nunca me deixaria sentir presa daquele jeito novamente. "Eu sou seu porto seguro, Helena", ele sussurrou em meu cabelo. "Sempre vou te proteger."
Outra mentira. Uma mentira linda e venenosa.
A memória do incêndio no meu antigo ateliê voltou com força — o cheiro acre de fumaça, o calor sufocante, a percepção aterrorizante de que a porta dos fundos estava trancada. Eu estava presa naquela época também, convencida de que ia morrer. Arthur tinha sido meu salvador, meu herói que arrombou a porta e me carregou para o ar limpo e fresco da noite.
E agora, o herói havia se tornado o monstro. Ele me trancou no escuro, usando meu medo mais profundo como sua arma.
Um leve som de arranhão veio do outro lado da porta. Minha cabeça se ergueu. Era um dos funcionários? Clara?
"Olá?" chamei, pressionando meu ouvido contra o aço frio. "Tem alguém aí?"
O arranhão parou, substituído por uma risada baixa e feminina. Era um som que se arrastava sob minha pele e fazia meu sangue gelar.
Júlia.
"Ele não vem te buscar, sabe", sua voz era uma provocação sedosa, abafada pela porta grossa. "Ele está comigo. Cuidando de mim."
Uma nova onda de pânico, quente e sufocante, me invadiu. "O que você quer?" ofeguei.
"O que eu quero?" Sua risada foi mais aguda desta vez. "Eu quero o que é meu. Quero minha vida de volta. Quero ele de volta. E você, minha cara substituta, é apenas um meio para um fim. Assim que ele conseguir o que precisa do seu pai, você será descartada como o resto do lixo."
"Você é louca", solucei, deslizando pela porta para me encolher no chão.
"Sou? Ele acabou de trancar sua esposa grávida, a mulher que supostamente carrega seu filho, em um quarto que ele sabe que a aterroriza, tudo porque eu tossi algumas vezes. Quem você acha que ele ama, Helena?"
A verdade de suas palavras foi um golpe físico. Envolvi meus braços em volta dos joelhos, tentando me fazer menor, tentando desaparecer. O ar estava rareando, a escuridão pressionando. Pontos pretos dançavam diante dos meus olhos.
"Por favor", sussurrei para a escuridão vazia. "O bebê."
Não sei quanto tempo fiquei lá. Poderiam ter sido minutos ou horas. O tempo deixou de ter significado. Minha mente era um turbilhão de terror, um rolo de filme em loop de fumaça e portas trancadas e o rosto frio e implacável de Arthur. Justo quando minha visão começou a afunilar completamente, ouvi o assobio da porta se destrancando.
A luz inundou o pequeno espaço, me cegando. Rastejei para trás, protegendo os olhos. Quando minha visão clareou, Júlia estava na porta, um sorriso triunfante brincando em seus lábios. Arthur não estava em lugar nenhum.
"O tempo acabou", disse ela friamente. "Não se preocupe, eu disse a ele que você estava apenas sendo dramática. Ele é tão maravilhosamente crédulo quando se trata do meu bem-estar."
A visão dela, tão presunçosa e vitoriosa, acendeu uma faísca de raiva através do meu medo. "Fique longe de mim", engasguei, cambaleando para me levantar.
Ela deu um passo para dentro do quarto, seu sorriso se alargando. "Você não tem nada, sabe. Ele pertence a mim. Esta casa, o nome dele, o futuro dele — tudo deveria ser meu. Você é apenas um parasita que ele teve que tolerar para conseguir a cura."
Algo dentro de mim se partiu. Avancei, não para machucá-la, mas para empurrá-la para fora do meu espaço, para afastá-la de mim. "Me deixe em paz!" gritei.
Minhas mãos mal tocaram seus ombros, um empurrão desesperado nascido do terror. Mas Júlia era uma atriz. Ela soltou um grito agudo e se jogou para trás, desabando no chão da biblioteca em um monte.
"Helena, não!"
A voz de Arthur rugiu do final do corredor. Ele tinha visto. Ele tinha me visto empurrá-la. Ele correu até nós, seu rosto contorcido em uma máscara de fúria. Ele nem sequer olhou para mim. Ajoelhou-se ao lado de Júlia, envolvendo-a em seus braços.
"Você está bem? Ela te machucou?" ele murmurou, sua voz carregada de preocupação frenética.
"Eu... eu não sei", Júlia gemeu, segurando o braço. "Ela só... ela simplesmente me atacou. Disse que eu estava tentando roubar você dela."
"Ela está mentindo!" gritei, minha voz tremendo. "Ela estava me provocando! Ela fingiu o ataque de alergia, Arthur, ela está tentando se livrar de mim!"
Arthur lentamente levantou a cabeça, e o olhar em seus olhos parou meu coração. Era um olhar de puro e absoluto desprezo.
"Você empurra uma mulher doente no chão e ainda tem a audácia de mentir sobre isso?" ele rosnou, sua voz perigosamente baixa.
"Eu não-"
"Chega!" ele trovejou, levantando-se e avançando sobre mim. "Já tive o suficiente do seu ciúme e do seu teatro."
Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne como garras. "Júlia é uma convidada nesta casa. Ela é minha amiga e está doente. Você vai tratá-la com respeito, ou que Deus me ajude, Helena, você vai se arrepender."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e furiosas. "Ela não é sua amiga! Ela é a mulher que você ama! A mulher que você planeja usar meu pai para salvar!"
Seu rosto ficou pálido, seu aperto se intensificou até que eu gemi de dor. Por um segundo aterrorizante, vi um lampejo de algo em seus olhos — choque? Medo? Mas desapareceu tão rápido quanto veio, substituído por uma raiva gélida.
"Você vai para o seu quarto", disse ele, sua voz baixando para um sussurro mortal. "E vai ficar lá até aprender a se comportar como um ser humano civilizado e não como uma megera ciumenta."
Ele soltou meu braço com um empurrão, e eu cambaleei para trás. Ele me deu as costas completamente, curvando-se para levantar Júlia em seus braços como se ela fosse uma boneca de porcelana preciosa e quebrada.
"Eu te peguei", ele murmurou para ela, sua voz novamente suave e cheia de cuidado. "Não vou deixar que ela te machuque de novo."
Ele a carregou pelo corredor, para longe de mim, deixando-me sozinha com o peso esmagador de seu desprezo e a percepção arrepiante de que eu não era mais uma esposa nesta casa. Eu era uma prisioneira, e meu carcereiro e minha algoz agora viviam sob o mesmo teto.
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