
O Coração de Aço Traído
Capítulo 3
Pedro se aproximou logo atrás dela, seu rosto expressando uma falsa preocupação. Ele estava impecável em um terno de grife, o cabelo perfeitamente penteado, o relógio caro brilhando em seu pulso. Ele era a imagem do sucesso, um contraste gritante comigo, que parecia um fugitivo com as roupas amassadas e a barba por fazer.
"João, o que aconteceu? Por que vocês estão aqui?", ele perguntou, a voz mansa, como se fosse o mediador sensato.
Alguns fotógrafos e convidados próximos perceberam a tensão. Os flashes começaram a disparar em nossa direção. Ouvi alguém sussurrar:
"Olha, é a Ana Clara com o Pedro. Que casal lindo!"
Outra pessoa acrescentou: "Quem é aquele homem com a menina? Parece um parente pobre."
A humilhação era pública, palpável. Ana Clara sentiu isso e seu rosto ficou ainda mais duro. Pedro, o oportunista mestre, tentou controlar a situação.
"Vamos entrar, conversar em um lugar privado", ele disse, tentando me guiar para dentro, longe dos olhos curiosos. "Não vamos expor a Sofia a isso."
A ironia em suas palavras era tão espessa que eu quase engasguei.
Mas antes que eu pudesse responder, uma pequena figura passou correndo por Pedro e se agarrou às pernas de Ana Clara. Era o filho de Pedro, Lucas, vestido como um pequeno príncipe. Ele olhou para cima com seus grandes olhos e disse em voz alta e clara:
"Mamãe, quem são eles?"
O mundo pareceu parar por um segundo. A palavra "mamãe" ecoou no ar, carregada de um significado que apenas eu, Ana Clara e Pedro entendíamos completamente. Vi o pânico absoluto nos olhos de Ana Clara. O rosto de Pedro se contraiu.
Sofia, ao meu lado, franziu a testa. "Mãe? Por que ele te chamou de mãe?"
O contraste entre as duas crianças era doloroso. Sofia, minha filha, parecia confusa e deslocada em suas roupas simples. Lucas, por outro lado, usava um terninho infantil que provavelmente custava mais do que todo o meu guarda-roupa. Ele era o herdeiro do império, enquanto minha filha era tratada como uma intrusa.
Ana Clara rapidamente se recompôs, forçando uma risada nervosa.
"Ah, querido, que bobagem. Ele está confuso", disse ela, afagando a cabeça de Lucas. "Ele chama todas as mulheres bonitas de mamãe. Não é, meu anjo?"
Pedro entrou na farsa, ajoelhando-se ao lado do filho. "Isso mesmo, campeão. Essa é a sua tia Ana Clara. Lembra?"
A mentira era tão descarada, tão insultuosa à minha inteligência.
Ana Clara, então, virou sua fúria para mim, usando o ataque como a melhor defesa.
"Olha o que você fez!", ela sibilou, a voz baixa e cheia de veneno. "Você está assustando as crianças! Está traumatizando a Sofia com suas paranoias! Vá embora, João Carlos. Agora!"
Ela tentou me pintar como o louco, o descontrolado, o vilão da história. Na minha vida passada, eu teria discutido, teria gritado, teria tentado desesperadamente fazê-la ver a verdade. Mas o Dr. Coração de Aço não era movido pela paixão cega. Ele era movido pela estratégia.
Eu a ignorei. Olhei para Pedro, depois para Ana Clara, meu rosto uma tela em branco.
"Eu não vim aqui para brigar", eu disse, minha voz calma e firme, cortando a tensão. "Eu vim buscar uma coisa que me pertence. Uma coisa que está no depósito da sua empresa."
Minha calma os desarmou. Eles esperavam gritos, acusações. Em vez disso, receberam um pedido simples e enigmático. Ana Clara me olhou, desconfiada, mas também aliviada por eu não ter exposto o caso deles ali mesmo, na frente de todos.
"Uma coisa? Que coisa?", ela perguntou, impaciente.
"Uma caixa", respondi. "Uma caixa antiga. Com coisas do meu consultório. Preciso dela."
A semente da dúvida estava plantada. Eles não sabiam o que eu queria, mas a necessidade de me tirar dali era maior do que a curiosidade.
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