
O Caçador de Feras indomáveis
Capítulo 3
Leônidas sentiu a mulher desmaiar de dor em seus braços. Puxou a pele que havia retirado do leopardo e o colocou ao lado dela, de modo que pudesse deitar-lhe sobre a pele.
Notou que o ferimento estava sangrando muito. Lembrou-se então de sua bolsa, e buscou ali algo que servisse para vedar o sangramento.
Encontrou um lenço branco com rendas delicadas, era um presente que lhe acompanhava há muito tempo, mas no momento também era o único que poderia usar.
O apertou entre as mãos, fechou os olhos por um momento suspirando, enquanto seus pensamentos retornavam a quem lhe havia presenteado.
"Sinto muito ítane! Nossa promessa tem me acompanhado todo este tempo, mas acredito que nem mesmo a ausência deste nobre presente apagará o que tenho vivido por você!"
Ele o dobrou como uma faixa, pegou a garrafa que ainda continha bebida, e derramou um pouco sobre o ferimento, tentou ser o menos rude possível.
Encarou o ferimento que continuava a sangrar vertiginosamente. Rasgou um pouco mais a manga da blusa, para que pudesse enrolar o lenço por sobre todo o ferimento, sem nenhum problema.
Em seguida, com o lenço sobre o ferimento, o amarrou o mais gentil possível.
Constatou que Constância pouco provavelmente acordaria por aquela noite, mas se o fizesse, seria melhor estarem bem acomodados e prevenidos contra ataques de algum predador, ou mesmo da fera, que parecia estar atrás dela pelo que pôde perceber.
Alimentou a fogueira novamente. E finalmente cansado, sentou-se na extremidade oposta a mulher, recostado contra uma árvore de tronco grosso, tentou relaxar, mas ainda tinha um pressentimento ruim sobre aquela noite, e isso o atordoava ainda mais.
Havia deixado a aldeia há poucos dias, eram três dias de viagem até ali, sabia que não havia nenhuma casa por perto, entretanto, o que mais lhe intrigava agora, era o porquê daquela mulher estar logo ali, e por que a fera a perseguia?
Seus olhos miravam a miravam. Ela possuía uma beleza selvagem, não era delicada como as outras mulheres, os cabelos eram compridos e levemente com ondas, seus lábios pouco fartos tinha o mesmo tom de sua pele morena, sobrancelhas cheias como as dele e pouca arqueadas, nariz reto como o seu.
Ela era de toda atraente, porém a seus olhos, era mais uma mulher bonita como tantas outras que já tinha visto.
Todavia, ela poderia ter respostas que ele buscava há um tempo. E para que obtivesse suas respostas, o melhor seria mantê-la por perto, mesmo que essa ideia fosse contraproducente a seus desejos.
Um barulho bem perto dali o arrancou de seus pensamentos, pegou o rifle, e esperou. A floresta pareceu cessar por um momento.
"Isso não é bom!"
Leônidas caminhou o mais silencioso possível para junto da fogueira, pegou um pedaço de madeira dos muitos que estavam ali, e o acendeu. O predador estava perto, podia sentir.
Olhou para Constância. Ela estava voltando a si novamente.
- Ai! - com uma das mãos sobre o ferimento arqueou o corpo em dor.
Leônidas andou para mais perto dela, colocou-se ao seu lado, com uma mão segurando a tocha, e a outra o rifle, falou quase inaudível.
- Fique quieta!
Constância olhou para ele, chateada e assustada por ainda estar viva, pior era estar ao lado dele, o homem que quase a matou duas vezes. No entanto, a atenção dele não era sua e sim de algo que se aproximava lentamente.
Seus olhos seguiram a mesma direção que os dele.
- O que pode ser?
A voz dela estava falhando quando perguntou.
Leônidas voltou-se para ela.
- A fera!
Constância encolheu-se ainda mais. O esforço a fez sentir dor. O ferimento estava piorando, entretanto ela nem percebeu diante de tanto pavor em pensar naquele monstro.
Leônidas acabava de confirmar sua teoria. Constância era o que faltava para seu quebra cabeça ser montado.
Os arbustos à volta deles estavam se mexendo. Ouviu-se um barulho aterrador naquele instante. Vinha de onde Leônidas havia deixado o corpo do leopardo. Colocou o rifle em suas costas junto com sua bolsa, deixou a tocha no chão por um momento, fez sinal para que Constância, que ainda permanecia recolhida o seguisse.
Ela tentou com muito esforço levantar-se. Leônidas sabia que esta era a oportunidade de ambos, passou o braço direito em volta da cintura dela tomando-a de surpresa.
Segurando a tocha novamente, chutou areia para cima da fogueira e partiu apoiando Constância, ambos caminhavam para o lado oposto à fera.
- Vamos! Tem uma abertura aqui em algum lugar! – Mesmo naquela situação a voz dele continuava firme.
Constância concordou, não tinha forças nem coragem de discutir contra ele. Ambos caminharam por alguns minutos. O corpo dela não aguentava mais o esforço.
Leônidas praticamente a carregava pelo restante do caminho.
- Por favor pare! Não aguento mais! Por favor! Está doendo muito! E minhas pernas não me obedecem!
O caçador não parecia diferente, havia realizado um enorme esforço com o leopardo, mas não se deixaria morrer de cansaço, isso jamais. Curvou-se para que ela subisse em suas costas.
- Vamos lá!
Ela estava quase desmaiando novamente.
- Não! Você não pode me carregar!
Vendo que ela os faria perder mais tempo, a agarrou de uma só vez, e a colocou em suas costas, encaixando as pernas dela em sua cintura.
- O que pensa que está fazendo? Me ponha no chão seu grosseiro!- A voz dela não era ouvida por mais ninguém, exceto eles.
Leônidas reagiu a seu pedido, apertando mais ainda as pernas dela em seus braços, impedindo assim que, ambos gastassem a energia que ainda lhes restava.
Ela gemeu em resposta. E o socou sobre a espádua dele.
- Eu bem que gostaria de abandonar você aqui para aquela fera, mas tenho um senso de justiça infalível!
Ela parou de remexer-se.
O ouvindo agora, sentiu-se mais humilhada do que antes de o conhecer.
Passado um tempo, Leônidas percebeu que havia chegado finalmente na caverna que havia visto mais cedo, abaixou-se um pouco para que pudessem entrar, olhando para todos os lados com a tocha empunhada certificou-se de sua segurança.Constância o apertava sem perceber. Os olhos dela iam e viam pela escuridão.
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