
O Bombeiro e a Esposa Secreta
Capítulo 3
José recuou do corredor, o corpo tremendo, a cena que acabara de presenciar queimava em sua retina. Ele se lembrou de todas as regras que Ana lhe impusera, todas as proibições, a santidade do quarto dela onde ele não podia entrar, a forma como ela o repreendia se ele tentasse um simples toque, chamando-o de impuro e mundano. Agora, ele via a verdade, não se tratava de espiritualidade, era sobre ele, as regras eram apenas para ele, enquanto ela vivia uma vida dupla, com outro homem, em sua própria casa. A hipocrisia de Ana era uma ferida aberta.
Com o coração esmagado pela dor e pela humilhação, ele esperou que Pedro fosse embora e confrontou Ana na manhã seguinte, a voz firme, desprovida de qualquer emoção que não fosse a resolução.
"Eu quero o divórcio, Ana."
Ele esperava gritos, acusações, talvez até negações, mas a reação dela foi inesperada, ela o olhou com uma calma fria e disse: "Não."
José ficou perplexo. "Como assim, 'não'? Você me traiu, trouxe seu amante e o filho dele para a minha casa! Que direito você tem de recusar?"
"Estou em um período de preceitos, minhas regras espirituais não me permitem tomar decisões mundanas como o divórcio agora", ela respondeu, a voz serena, como se estivesse explicando uma receita de bolo. "Temos que esperar, talvez em um ano, quando meu ciclo se fechar."
A desculpa era tão absurda, tão desrespeitosa, que José sentiu uma onda de raiva o consumir. Ela não estava apenas o traindo, estava usando a fé dela como uma gaiola para aprisioná-lo naquela situação humilhante, ele era um objeto, uma conveniência para manter as aparências enquanto ela vivia seu romance.
Nesse momento, Pedro apareceu na sala, segurando a mão de Lucas, ele parecia desconfortável. "Ana, talvez seja melhor eu levar o Lucas e ir embora, não quero causar mais problemas."
"Não!", Ana disse, a voz subitamente dura, ela se virou para José, os olhos faiscando. "Você está vendo o que fez? Está assustando o Lucas! Está arruinando tudo com o seu egoísmo!"
A acusação foi a gota d'água, ele era o egoísta? Ele, que sustentava aquela farsa? O coração de José se transformou em uma pedra de gelo.
"Chega", ele disse, a voz baixa e perigosa.
Ele se virou e foi para o quarto, pegou uma mochila e começou a jogar suas roupas dentro de qualquer jeito, ele não aguentava mais um segundo naquela casa, que se tornara um palco para a sua humilhação.
Ana o seguiu, o pânico finalmente aparecendo em seu rosto. "O que você está fazendo? Você não pode ir embora!"
Ele pegou um papel e uma caneta e escreveu um acordo de divórcio simples, listando que abria mão de tudo, da casa, do carro, de tudo que compraram juntos, ele só queria sua liberdade. Ele assinou e jogou o papel na frente dela.
"Eu vou embora, Ana, e vou entrar com o pedido de divórcio amanhã, com ou sem a sua permissão espiritual."
Ana olhou para o papel, o rosto contorcido de fúria, ela o pegou e o rasgou em pedacinhos, jogando-os no chão. "Você não vai a lugar nenhum! Você é meu marido! Você tem um dever para comigo!"
"Dever?", ele riu, um som amargo e sem alegria. "Meu dever era ser o idiota que paga as contas enquanto você dorme com outro homem? Acabou, Ana."
"Você não entende nada! Pedro é meu guia espiritual, Lucas é uma criança que precisa de ajuda!", ela gritou.
"Não me chame de burro, Ana, eu vi como vocês se olham, eu vi como ele estava na sua cama!", José rebateu, a dor finalmente se transformando em raiva pura.
A verdade dita em voz alta a atingiu, e a reação dela foi primitiva, ela avançou e lhe deu um tapa forte no rosto.
O estalo ecoou no quarto silencioso, e algo dentro de José se quebrou para sempre. O amor, a esperança, a compaixão, tudo se desfez, ele a olhou, o rosto antes amado agora era o de uma estranha, uma inimiga.
"Agora eu tenho mais um motivo para o divórcio", ele disse, a voz fria como o ártico. "Agressão."
O rosto dela empalideceu, ela pareceu perceber o erro que cometera. "José, me desculpe, eu não queria... eu perdi a cabeça", ela tentou se aproximar, as lágrimas agora rolando por seu rosto, mas eram lágrimas de medo, não de arrependimento. "Fique, por favor, podemos conversar."
"Não há mais nada para conversar", ele disse, pegando sua mochila.
Ela se agarrou à alça da mochila, desesperada. "Você não pode me deixar! E a minha reputação? O que as pessoas vão pensar?"
Ele puxou a mochila com força, soltando-a de suas mãos. "Você deveria ter pensado nisso antes de transformar nossa casa em um ninho de amor para você e seu amante."
Com essas palavras, ele se virou e saiu do quarto, passou pela sala onde Pedro e Lucas o observavam em silêncio, e caminhou para a porta da frente, ele não olhou para trás, a cada passo, sentia um peso sendo tirado de seus ombros, era o peso de um amor não correspondido, de uma vida de mentiras. Ele estava saindo apenas com a roupa do corpo e uma mochila, mas se sentia mais rico do que nunca, pois estava levando consigo sua dignidade.
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