
O Beijo da Serpente: A Vingança de uma Esposa
Capítulo 3
Será que eles sequer se lembravam?
Alguma daquelas promessas significou alguma coisa?
Virei-me para sair. Não suportava ficar na mesma sala que eles, com aquele afeto sufocante e falso por ela.
"Onde você pensa que vai?"
A mão de João Pedro se fechou no meu braço, seus dedos cravando na minha pele.
"Eu mandei você pedir desculpas."
Seus olhos estavam frios, cheios de uma raiva aguda e cortante que eu só tinha visto dirigida a rivais de negócios.
Nunca a mim. Até agora.
Uma onda de náusea me invadiu.
Lembrei-me de outra vez em que ele agarrou meu braço assim. Foi depois que eu acidentalmente derramei café em um dos livros de Kaila. Ela chorou, e ele me forçou a ficar de joelhos para pedir desculpas, para implorar seu perdão na frente de toda a equipe da casa.
A memória, a humilhação, queimava em minhas entranhas.
Eu estava cansada disso. Tão cansada de ser o peão deles.
"Deixe que eles fiquem um com o outro", uma voz fria sussurrou na minha cabeça. "Deixe que eles tenham tudo."
Com uma força que eu não sabia que possuía, arranquei meu braço de seu aperto.
"Eu disse não."
A mão de João Pedro ficou suspensa no ar. Seu rosto era uma máscara de incredulidade.
Eu nunca tinha me afastado dele antes. Sempre me derretia com seu toque, ansiava por sua atenção.
Sua expressão escureceu.
"Nós pegamos leve demais com você, Beatriz?", ele disse, a voz perigosamente baixa. "É esse o problema?"
Soltei uma risada curta e sem humor.
"Leve demais comigo? Não, João Pedro. Acho que eu peguei leve demais com todos vocês."
Desde que Kaila chegou, foi como se uma chave tivesse sido virada.
As pequenas atenções, os afetos casuais, as piadas internas — tudo fluía para ela agora.
Eu ficava com as migalhas.
Na minha primeira vida, eu tentei desesperadamente reconquistá-los. Engoli cada insulto, ignorei cada desprezo, suportei cada humilhação.
Lutei por um amor que nunca foi realmente meu.
E isso me matou. Queimada viva em um incêndio que eles mesmos provocaram.
A memória da dor lancinante, da minha pele derretendo, passou pela minha mente.
"Você é só uma pirralha mimada", rosnou João Pedro, o rosto se contorcendo de raiva. "Você é nossa irmã adotiva. Nós te demos tudo. Um lar, uma vida que você nunca poderia ter sonhado."
Ele deu outro passo, me encurralando contra a parede.
"Você não tem direito a nada. Deveria ser grata por sequer te considerarmos. O testamento diz que você tem que se casar com um de nós. Você deveria estar de joelhos, me implorando para te escolher."
Ele praticamente cuspia as palavras em mim.
"Não", eu disse novamente, minha voz trêmula, mas firme. "Eu não vou."
Kaila escolheu aquele momento para fazer sua parte. Ela puxou a manga de Bernardo, os olhos arregalados de falsa angústia.
"Talvez... talvez eu devesse ir embora", ela sussurrou.
"Não, você não vai a lugar nenhum!", disseram os três em uníssono, virando-se para confortá-la.
Era uma peça bem ensaiada.
"Nós te amamos, Kaila", disse Bernardo suavemente, acariciando seu cabelo. As palavras eram para ela, mas foram uma faca no meu coração.
Eles tentaram explicar. Tentaram me dizer que seus sentimentos por Kaila eram diferentes, que ela era apenas uma amiga que eles estavam ajudando.
Mentiras.
Uma frieza se espalhou por mim, tão profunda que era quase pacífica. Eu finalmente, verdadeiramente, tinha acabado.
De repente, ouviu-se um forte gemido vindo de cima. Minha cabeça se ergueu, a memória da luz piscando e do aviso da governanta passando pela minha mente. O enorme lustre de cristal no hall de entrada balançava violentamente. Uma nuvem espessa de poeira caiu da luminária do teto.
"KAILA!", gritaram os três irmãos de uma vez.
Eles se lançaram em direção a ela, criando uma parede humana entre ela e o perigo, bloqueando meu caminho para a segurança.
Eu estava presa.
A última coisa que vi foi o lustre se soltando, despencando em minha direção.
Então, um universo de dor. Uma sensação aguda e estalante na minha costela.
Minha visão ficou turva. Lutei para olhar para cima, minha cabeça pendendo para o lado.
Através de uma névoa de agonia, eu os vi.
Eles estavam amontoados ao redor de Kaila, que estava perfeitamente bem, sem um arranhão.
"Você está bem? Se machucou?", perguntava João Pedro, suas mãos a examinando freneticamente.
Kaila balançou a cabeça, os olhos arregalados. Então seu olhar se voltou para mim, caída e quebrada no chão.
Só então eles pareceram se lembrar que eu existia.
Eles correram, seus rostos uma mistura confusa de alarme e irritação.
"Bia? Meu Deus, desculpe", disse Bernardo, ajoelhando-se ao meu lado. "Nós pensamos que era... nós te confundimos."
Eles me confundiram.
Eu era apenas um dano colateral em sua obsessão por ela.
Eu, que tinha sido o sol, a lua, as estrelas deles.
Comecei a rir, um som úmido e borbulhante que enviou uma nova onda de agonia pelo meu peito. Minhas costelas pareciam estar em chamas.
Lágrimas de dor e fúria picaram meus olhos. Eu não conseguia me levantar. Não conseguia nem respirar direito.
O mundo começou a escurecer nas bordas.
Eu apaguei.
A última coisa que vi foi o rosto de João Pedro, sua testa franzida, uma expressão estranha e indecifrável em seus olhos.
A última coisa que ouvi foi sua voz, chamando meu nome em um pânico que soava quase real.
"Bia!"
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