
O BEBÊ DO CEO
Capítulo 2
Oh,, parabéns, congratulou-se Josie. Que tato. Que sutileza.
Mas era difícil ser sutil quando se está do tamanho de um rinoceronte.
Suprimiu um suspiro e concentre-se em parecer o mais indiferente possível. Não era fácil. Na verdade, era mais difícil do que imaginava.
Nos últimos seis meses, desde que percebera que a noite que passara com Sam Fletcher teria outras repercussões além das de natureza emocional, sabia que aquele momento viria. Adiara o inevitável, resistindo às críticas contínuas de Hattie para que contasse a Sam, em vez de "enfiar a cabeça na areia como um avestruz", parodiando a querida protetora.
Pois preferia chamar de sobrevivência.
De que outra maneira definir aquela relutância em dar ao homem com quem passara uma única noite a notícia de que ia ser pai quando ele parecia descontente apenas por revê-la?
A noite de intimidade acontecera por "efeito do uísque". Não fora essa a explicação dele? Quanto a ela, sempre sou¬bera disso, mas simplesmente não fora capaz de resistir.
Josie Nolan amava Sam Fletcher secreta e desoladamente desde os quinze anos de idade.
Realista, ela nunca cogitara que o empresário milionário se apaixonaria pela filha adotiva do vizinho da tia Hattie.
Ainda que agora fosse a gerente da pousada, o fato era que começara como arrumadeira. Até conhecia a história de Cinderela, mas isso não significava que era idiota.
De algum modo, porém, deixara-se envolver pelo clima de conto de fadas, pois, quando Sam Fletcher aparecera em sua porta, na noite de seu vigésimo quinto aniversário, todo compaixão, gentileza e amizade, fora incapaz de dispensá-lo.
Assim, passara os últimos seis meses tentando imaginar um modo de contar-lhe sobre os resultados daquela noite.
Não parecia haver uma forma satisfatória. Qualquer ar¬gumento levaria Sam a pensar que ela era uma aproveita¬dora, disposta a forçá-lo a um casamento indesejável.
As vezes, na calada da noite, por exemplo, quando se lembrava da ternura do toque, da urgência, da persuasão dos lábios dele, entregava-se à ilusão de que realmente ocor¬rera algo especial entre eles, de que ele receberia bem a notícia da gravidez, de que ele sentia sua falta tanto quanto ela sentia a dele.
A luz do dia, sabia que era tudo bobagem.
Mas, enquanto ele não aparecesse e declarasse que tudo não passara de um lamentável equívoco, não ousaria perder o fiozinho de esperança.
Acabava de perdê-la.
Sam gaguejava incontrolavelmente:
— Nun... nunca tive a intenção de... de...
Nem ela.
Mas acontecera. Agora, teriam um filho.
Josie levantou-se, preparada para receber os golpes ver¬bais. Sam esbravejaria, assim como Kurt esbravejara. De dedo em riste, questionaria, frio: "Bem, o que você vai fazer a esse respeito?", exatamente como o ex-noivo.
Mas Sam não lhe apontou o dedo. Estava pálido, apesar do bronzeado. E sua voz não saiu fria. Saiu emocionada ao confirmar, incrédulo:
— É... é meu?
Não, Sam não esbravejaria. Sua maneira de falar confortava. Atónito, ele se mantinha ali parado como se hou¬vessem atirado uma bomba a seus pés.
Tratava-se mesmo de uma bomba, concluiu Josie. Sam fora a Dubuque a fim de tratar do legado de tia Hattie, não para receber a notícia de que seria pai.
— Tem certeza? — indagou Sam.
Ela se enrijeceu e a angústia que sentia por ele se dis¬sipou. Ruborizou.
— Sim, tenho certeza. Apesar da impressão que possa ter causado, não ando por aí dormindo com um homem a cada noite!
— Não foi o que eu quis dizer... — Ele se calou, indefeso. Suspirando, passou a mão pelos cabelos curtos. — Bolas, talvez quisesse dizer isso mesmo, mas é porque estou cho¬cado. Desculpe-me...
Ele não a encarava. Parecia não conseguir desviar o olhar da barriga dela.
Josie recebeu a desculpa no espírito em que foi emitida: de má vontade. Pegou mais dois vasos e voltou-se para o carrinho. Não ficaria ali, vendo-o pasmo! E não quereria vê-lo raciocinando, tampouco.
Queria sair correndo dali, mas também não daria esse prazer a ninguém.
Permaneceu, ciente do silêncio, ciente do passo adiante, ciente do pigarro de Sam ao indagar-lhe:
— Então... você ia me contar?
O tom era cordial, quase casual, mas ela sentia o nervosismo dele, sabia o quanto ele se esforçava para se controlar.
Ela passou a língua nos lábios e encolheu os ombros na tentativa de parecer descontraída.
— Num dado momento, imagino, eu teria que contar.
— Você teria que contar? — Sam espantou-se. — Não imaginou que eu talvez quisesse saber?
— Para ser franca, não.
Sam encarou-a boquiaberto. Então, como se tivesse per¬cebido, fechou a boca. Não deixou de encará-la nem por um instante.
Desafiadora, Josie devolveu o olhar.
— Bem, este não é exatamente um momento típico dos romances, não é?
Sam remexeu o maxilar.
— Está querendo dizer que não quer esse filho?
Josie pressionou a mão protetoralmente sobre a barriga.
— Não, não estou dizendo nada disso! Eu quero esta criança.
Era a única coisa de que tinha certeza. Filha de pais desnaturados, fora abandonada e passara por vários lares adotivos desde os seis anos. Não deixaria que isso aconte¬cesse com seu filho. Cuidaria dele com todo o amor. Quanto a isso, estava decidida.
— Mas não consigo imaginá-lo com a mesma disposição — completou. — Você consegue? — disparou, tão rude quan¬to ele se mostrara pouco antes.
Sam pareceu ficar sem resposta.
Satisfeita, Josie começou a empurrar o carrinho na direção da sala de jantar.
Pouca coisa perturbava Sam Fletcher.
Afinal, era um empresário de renome internacional. Ne¬gociara até o privilégio de fornecer mobília nobre ao paxá de um pequeno reino asiático, algo que a concorrência daria tudo para obter. Estava acostumado a fechar contratos de milhões de dólares, colocando em jogo as finanças de muitas pessoas, incluindo a sua. E até manteve a compostura quan¬do a noiva o trocou por outro homem.
Sim, sim, sim, sim e sim novamente.
Mas a notícia de que teria um filho com uma mulher a quem nem se lembrava de ter levado para a cama... Beta, isso tiraria do sério o mais calmo dos homens.
Sam estava para lá de agitado. Estava se descabelando.
Quase acusara Josie Nolan de estar maluca, certo de que não era irresponsável a ponto de fazer um filho com uma mulher com a qual nem era casado! Mas o fato de não se lembrar dos acontecimentos naquela noite era prova cabal do quanto fora irresponsável.
Em seguida, teve vontade de fugir. Ele, que nunca fugira de nada na vida.
Fora criado para assumir a responsabilidade por seus atos, para aceitar desafios, para exercer liderança, para fa¬zer a coisa certa.
Fora a Dubuque na esperança de fazer o que era certo, dar um destino aos bichos que tinham feito parte da vida de tia Hattie. Esperava encontrar um comprador para a pousada e até encontrar um novo lar para os três gatos, o cachorro e o periquito.
Quanto a Josie, pretendera pedir-lhe desculpas, garan¬tindo que só podia ser brincadeira de tia Hattie tê-la legado a ele.
Começava a entender a atitude da tia Hattie.
Jamais lhe passara pela cabeça estar às vésperas de ser pai.
O testamento da tia Hattie fizera o que Josie não ousara: levá-lo a Dubuque para inteirar-se de um fato da maior importância.
Talvez devesse agradecer a tia Hattie. Agradeceria, se não estivesse tão abalado.
Ia ser pai?
Idéia perturbadora. E imaginar que, se tia Hattie não o houvesse forçado a tomar posse da pousada, talvez ele nunca viesse a saber.
Era como esperar a gota d'água.
Ao mesmo tempo que distribuía os vasos de flores pelos cómodos, atendia os hóspedes, oferecia champanhe aos recém-casados, telefonava a restaurantes fazendo reservas e esclarecia sobre as atrações locais, Josie mantinha-se olhan¬do por sobre o ombro, esperando Sam aparecer.
Ele não estava mais na cozinha quando ela voltara.
— Saiu — informara Cletus.
— Caiu em cima dele, não foi? — deduziu Benjamin.
Josie negou, mas vira a expressão de Sam. Talvez ele houvesse ido embora. Não, o carro alugado dele ainda estava rui vaga. Aonde quer que tivesse ido, fora a pé. Lembrou-se de que ele ia até o atracadouro, ou caminhava à beira do rio, sempre que queria pensar.
— Ele precisa de espaço — explicara Hattie. — Pers¬pectiva. Precisa recuar um passo para entender as suas responsabilidades.
Estaria fazendo isso naquele momento?
De qualquer forma, Josie gostaria de não estar envolvida.
Não sabia se seria melhor que ele voltasse para que re¬solvessem a questão, ou que ele permanecesse longe, de modo que ela pudesse fingir que nada acontecera.
Teria que ser a primeira opção, a menos que ele concor¬dasse em desaparecer pelo resto da vida dela!
A tarde passou rápido. Novos hóspedes se registraram, as flores foram entregues, as reservas foram feitas e as perguntas foram respondidas, mas nenhum sinal de Sam.
Otimo, pensou Josie. Não. Não estava nada ótimo.
Bolas. Não sabia o que fazer, além de se descabelar. Ficou andando pelo saguão de entrada. Olhou pela janela. Até saiu à varanda e esticou o pescoço para ver o fim da rua, na esperança de ver Sam, determinada a não permitir que ele a surpreendesse novamente.
Logo, já era noite. O ar frio de abril obrigou-a a entrar. Deu mais alguns passos pelo saguão de entrada e então foi para a cozinha, ainda impregnada das lembranças do de¬sastroso reencontro.
Agitada, desceu a escada de madeira que levava à la¬vanderia no porão. Precisava dobrar dezenas de toalhas e lençóis. Se Sam fosse procurá-la ali, ouviria o ranger dos degraus e não seria pega de surpresa.
Ora, por que se preocupar tanto? Sua realidade não se alteraria agora que Sam também estava ciente dela. Ela con¬tinuava grávida e seu amor por ele não seria correspondido.
Perguntou a si mesma, pela milésima vez, por que não se satisfizera com Kurt, apesar de ele dar mais importância a sua missão religiosa do que a ela.
Talvez ele estivesse certo.
Mas ele não precisava ter salientado o quanto ela fora idiota experimentando o fruto proibido.
Desceu a escada com cuidado, segurando no corrimão. Sempre se deslocara pelo casarão vitoriano sem pensar, leve e solta, mas nos últimos meses, com a barriga se avolu¬mando, passara a andar mais devagar.
Devia ter olhado bem por onde andava sete meses antes!
Na lavanderia, inclinou-se e tirou um monte de toalhas do cesto, dispondo-as sobre o balcão para dobrá-las. Era um trabalho mecânico, calmante. Acabou uma pilha e então pegou mais toalhas do cesto.
Dentro da barriga, o bebê deu um chute.
Josie sorriu. Mesmo estando muito aborrecida, aquela criança sempre podia fazê-la sorrir. Talvez fosse tolice pen¬sar que já tinha uma ligação com o bebê, mas era o que sentia. Não se tratava mais de Josie e o resto do mundo. Agora eram Josie, seu bebê e o resto do mundo.
— Acordou, hein? — sussurrou, branda.
Largou as toalhas, acariciou a barriga e foi recompensada com outro empurrão. Deu um tapinha no bebê e sorriu no¬vamente. Às vezes, imaginava poder comunicar-se com aquele ser que ocupava provisoriamente seu corpo.
— Como foi o seu dia? — indagou, precisando desabafar. — O meu foi difícil. E acho que vai piorar ainda mais — confidenciou. Pegou uma toalha e se abanou com ela antes de dobrá-la.
O bebê chutou novamente. Forte. Tão forte que Josie fez uma careta de dor.
— O que foi?
Josie reagiu com um pulo, deixando cair a pilha de toa¬lhas. Dando meia-volta, olhou assustada para a adega no outro extremo do porão. Sam estava de pé nas sombras.
— Olhe o que você fez! — ralhou ela, brava.
— Parece que isso é pouco em relação ao que fiz da outra vez. — replicou ele, e avançou um passo.
Instintivamente, Josie recuou.
— O que foi? — indagou ele. — Está sentindo dor?
Ela balançou a cabeça negativamente.
— Não. Foi... foi um chute, só isso.
— Chute?
— Do bebê.
Ele olhou para a barriga dela e abriu a boca como se fosse dizer algo. Mas apenas passou a língua pelos lábios e balançou a cabeça. Inclinou-se para pegar as toalhas.
Josie desejava poder recolher as toalhas sozinha, mas nào podia. Havia um bebê entre ela e o chão.
— O que estava fazendo escondido na adega? — pergun¬tou, contrariada.
— Não estava pegando outra garrafa, se é essa a sua preocupação. — Sam endireitou-se e pousou as toalhas no balcão.
— Pode colocá-las na máquina outra vez? — pediu Josie. — Não posso usá-las mais.
Obediente, ele colocou as peças felpudas na máquina de lavar.
— Eu estava pensando — esclareceu, em resposta à per¬gunta anterior.
— Na adega?
— É um bom lugar para isso.
Josie fechou a máquina e foi buscar o sabão em pó. Sem pressa, colocou o sabão no local adequado, e selecionou o programa de lavagem requerido. Não conseguia pensar em nada para dizer.
Sam não ia embora. Após apertar os botões, Josie abriu a tampa da máquina e verificou a distribuição das toalhas.
— Vim porque tia Hattie me deixou a pousada — co¬mentou Sam, desconfortável com todo aquele silêncio.
— Eu sei.
— Sempre pensei que ela deixaria a propriedade para você — comentou ele.
Josie fechou a tampa e ligou a máquina.
— Por que deixaria? Não sou da família.
— Você era mais chegada a ela do que qualquer pessoa da família. Era a neta que ela e Walter nunca tiveram. Ela amava você.
Sam falava em tom quase acusador.
— Eu a amava também — afirmou Josie, e voltou-se para encará-lo. — Ela foi a mãe, a avó, a família que eu nunca tive. Mas nunca esperei que ela me deixasse a pou¬sada! Já tinha feito muito por mim, providenciou até um fundo. O sr. Zupper pode falar-lhe a respeito, se quiser. Um para mim e... e um para o bebê.
— Você devia ter recebido a pousada também — insistiu Sam. — Quando estive aqui no outono, na época em que Izzy e eu...
— Eu sei quando — adiantou-se Josie. Ele achava que ela podia se esquecer?
Sam respirou fundo.
— Certo. Você sabe quando. Bem, naquele ocasião, tia Hattie me disse que eu não precisaria me preocupar com a pousada quando ela partisse. Eu respondi que ela não iria a lugar algum.
Ele fez uma pausa e Josie percebeu que ele sofria. Com¬binava com sua própria dor, mas não ia oferecer-lhe conforto.
— Você não sabia que ela ia morrer — concluiu ela. — Nenhum de nós sabia.
— Tia Hattie sabia. Ela disse: "Este velho coração pode parar a qualquer momento. Então quero que saiba de uma coisa..." Ela disse que não queria desrespeitar a família, mas que ia deixar a propriedade para você. — Sam passou a mão pela nuca. — Sendo assim, ao me legar a pousada, junto com você, ela estava querendo enviar uma mensagem.
Josie fitou-o no rosto.
— Ela me deixou para você?
— Pensei que fosse brincadeira.
Brincadeira sem graça, pensou Josie.
— E era — afirmou ela.
Sam balançou a cabeça.
— Não, ela estava certa.
Transferiu o peso de uma perna a outra, mantendo as mãos nos bolsos. Ficou olhando para o chão por um longo tempo. A máquina de lavar parou de girar e a água começou a entrar, iniciando outro ciclo. Ele ergueu o olhar e encarou Josie.
— Vamos nos casar.
Como pedido, aquilo deixava muito a desejar.
Na verdade, Josie sentia como se ele tivesse apunhalado seu coração.
Vamos nos casar. Desse jeito. Como se fosse uma conclusão óbvia, uma transação comercial com uma única possibilidade.
Ela supunha que, quando se tratava de Sam Fletcher, só havia uma única possibilidade de desfecho. Do jeito dele.
Mas ele não queria se casar!
Sabia que ele não queria. Podia ver em seu semblante, em seus olhos. Sentia no tom resignado de sua voz.
Por que se prontificava àquilo, então? Ele não a amava. Não queria o filho.
Sam submetia-se ao dever porque sua tia Hattie o obri¬gara. Tomava aquela atitude porque estava acostumado a fazer a coisa certa, a fazer o que era necessário.
Exatamente como Hattie imaginara que ele faria.
Exatamente como Josie temia que ele faria. Era por isso que não lhe contara sobre o bebê.
— A criança tem o direito de conhecer o pai — comentara Hattie, usando um tom muito mais gentil do que o seu normal.
— Eu sei disso — afirmara Josie. — Mas é que... não posso contar. Não agora.
— Quando?
— Qualquer dia — declarara à protetora, vagamente.
— O pai tem o direito de conhecer o filho também — insistira Hattie, implacável.
— Eu direi a ele — prometera Josie. Só não dissera quan¬do. E sempre mudara de assunto quando Hattie retomara a questão.
— Pode contar a ele no Natal — sugerira Hattie, preo¬cupada, no fim da vida.
Mas Sam não fora passar o Natal em Dubuque. Josie percebera o quanto Hattie ficara decepcionada com sua au¬sência. Ela mesma não se espantara tanto, pois sabia por que Sam não aparecera.
Depois dessa ocasião, Hattie não tocara mais no assunto.
Josie até pensara que ela desistira.
Obviamente, após a leitura do testamento, entendeu que se enganara. Hattie garantira que Sam tomasse conheci¬mento do fato.
Agora, a par de tudo, Sam agia exatamente conforme Hattie desejara, e exatamente conforme Josie temera.
Não era assim que Sam imaginara fazer um pedido de casamento. De pé, na lavanderia da pousada, a uma mulher já grávida de seu filho.
Com certeza, não fora nessas circunstâncias que pedira Izzy em casamento. Daquela vez, providenciara um jantar caprichado à luz de velas num restaurante caro. Após a refeição requintada, dançaram de corpo colado ao som de músicas românticas, quando concluíram que tamanho ar¬roubo era bom demais para partilharem só de vez em quando.
Desta vez, ele estava parado, muito tenso, com a cabeça meio inclinada, pois o teto do porão era baixo. Sua voz saíra nervosa e atrapalhada. E Josie, longe de sorrir radiante, olhava-o como se fosse um monstro.
Não podia estar surpresa. Tinham que se casar e ponto final. Era a única alternativa responsável. Se houvesse qual¬quer outra, ele a teria escolhido.
Ora, o que ela esperava, afinal? Uma declaração de amor eterno? Ele já afirmara que aquilo que acontecera entre ambos naquela noite fatídica fora um equívoco.
Bastava a intenção de fazer o que era direito, assegu¬rou-se. Olhou para ela apreensivo, esperando que ela to¬masse a decisão acertada também.
Mas Josie respondeu:
— Não.
Sam ficou boquiaberto. Não estava mais sob efeito da mudança de fuso horário, mas achou que a audição estava prejudicada. Confirmou:
— Não?
— Não. Obrigada — acrescentou ela, após um momento, mas ele não achava que ela se sentia agradecida.
Ele remexeu o maxilar.
— Por que não?
Não era como se ele quisesse se casar com ela! Ele estava sendo correto, afinal, fazendo o pedido. O mínimo que ela podia fazer era aceitar!
— Quando me casar, vai ser por amor — declarou Josie, simplesmente.
Ele ficou olhando para ela. Deu uma olhada pela lavanderia e, então, focalizou o dedo dela sem a aliança de noivado.
— Perdoe-me se estiver errado, mas não estou vendo em seu dedo a prova do seu amor...
Josie olhou para as próprias mãos e ele imediatamente sentiu-se um canalha. Oh, bolas. Era como chutar um cachorrinho.
— Não quis dizer... — murmurou Sam, finalmente, a voz rouca. Avançou para confortá-la, mas então lembrou-se de como aquilo acabara da última vez. Conteve-se. — Desculpe-me.
Na verdade, Sam não lamentava nada. Imaginava o motivo do rompimento do noivado. De qualquer forma, o futuro pastor Kurt Masters nunca merecera uma mulher tão gentil, generosa, voluntariosa e... bolas, adorável quanto Josie. Obviamente, ela não queria ouvir nada da¬quilo naquele momento.
— Não é por causa de Kurt — garantiu Josie, serena.
Sam nem ia argumentar.
— Fico feliz em saber. Nesse caso, por que está recusando?
— Eu já lhe disse.
— Porque quer se casar por amor. — Ele despejou a palavra como se não fosse nada. — E quanto ao bebê? Você não quer que ele seja amado?
Ela respirou fundo.
— Claro que quero! Do que está falando?
— Você está negando-lhe o amor paterno.
— Você não o ama — concluiu Josie, dura.
— Como pode saber?
— Você não pode amá-lo.
Sam exasperava-se:
— Por que não?
— Porque nestes dez anos em que o conheço nunca ouvi comentário seu sobre ter filhos ou algo assim.
— Talvez eu tenha mudado de idéia.
Josie revirou os olhos.
— Não dá para acreditar.
— Pode me dar um crédito? Afinal, você teve tempo para se acostumar à idéia. Eu caí de pára-quedas...
— Não havia nada impedindo-o de voltar nestes sete me¬ses — observou Josie, rude.
— Eu achei que estava beneficiando aos dois ficando longe.
— E estava.
Ele respirou fundo.
— Agora, estou sendo responsável. Estou preparado para fazer o que é certo...
— E como tem certeza de qual seja a atitude correta?
Ele abriu a boca e hesitou.
Aquilo foi o suficiente para Josie cruzar os braços.
— Você não quer se casar comigo, Sam. Você não quer um filho. Você quer vender a pousada, dar o fora daqui e nunca mais voltar. Não é isso? Não foi por isso que voltou?
— Voltei porque tia Hattie me deixou este abacaxi!
— Exatamente. E eu lhe digo, você não precisa descascar este abacaxi. Hattie o queria aqui. Eu não. Foi tudo um equívoco, como você já disse antes. — Ela olhou para a escada e voltou a encará-lo. — Foi "efeito do uísque", não é mesmo?
— Eu não quis dizer...
— Sim, você quis. Você foi honesto. E agora tem sorte, pois não vou responsabilizá-lo pelo que fez sob efeito da bebida.
— E se eu quiser me responsabilizar?
Seguiu-se um duelo de olhares.
— Não me amole, Sam — disparou ela e foi para a escada. Ele a seguiu.
— Não me deixe falando sozinho!
Josie voltou-se, o rosto afogueado.
— Não grite comigo! — avisou ela, a voz mais baixa, mas firme. — Não se quiser manter a reputação deste estabelecimento.
— Às favas com a pousada!
Josie encolheu os ombros.
— Bem, como quiser. É a sua casa. É o seu negócio.
— Eu ofereci parceria.
— E eu disse não. Obrigada — acrescentou. A educação excessiva de Josie era tão irritante quanto a recusa. — Não bata a porta quando sair. — Subindo a escada, deixou-o ali parado.
Sam ficou olhando para as costas dela até que sumisse de vista. Então, subiu à cozinha e saiu ao saguão de entrada. Conseguiu não franzir o cenho aos hóspedes que estavam na sala, mas aquilo era o máximo que podia fazer.
Não havia como discutir de forma satisfatória quando não se podia nem bater a porta!
O embate fora tão desastroso quanto Josie temera.
Pior.
Sam a pedira em casamento, pois era um cavalheiro, um homem responsável. Um homem gentil.
Tudo o que ela queria num marido, mas que não teria, porque ele não a amava.
E ele fora honesto o suficiente para não mentir e dizer que a amava. Aquilo tornara tudo pior.
Josie estava parada junto à cortina e olhava para a aléia. Lá fora, Sam contemplava a cidade de ombros curvados, as mãos nos bolsos. O vento agitava seus cabelos curtos. Pa¬recia miserável.
Ele devia estar contente.
Ela dissera não, não dissera?
Talvez ele não houvesse compreendido bem ainda. Quan¬do isso acontecesse, ficaria feliz.
Mesmo assim, continuaria se sentindo responsável. Queria fazer tudo certo. Sam era assim, sempre fora. Pois não fora consolá-la no dia em que Kurt a fizera esperar em vão?
Dissipou esses pensamentos. Não fizera nada além de pensar nisso nos últimos sete meses. Tivera esperança... sonhara... desejara... fora a idiota que prometera que jamais seria. Não conseguira eliminar a esperança de que um dia Sam viesse a se apaixonar por ela.
Ele não se apaixonara. E tudo estava acabado.
Amanhã seria outro dia para ambos. Ele ainda tentaria fazer a coisa certa, claro, mas desta vez apresentaria uma proposta mais razoável. Ofereceria ajuda à criança, pron¬tificando-se a dar-lhe seu nome, talvez providenciasse um fundo. Seu filho não enfrentaria problemas financeiros, pen¬sou, e sorriu triste.
Tratando-se de Sam, ela permitiria que ele ficasse com o filho durante duas semanas no verão.
Sim, aquilo era o certo. Educada, ela se mostraria agra¬decida. Sam experimentaria grande alívio por não ter que levar adiante o casamento, mas não o demonstraria, polido como era. Seria tudo muito civilizado.
E ela ficaria ligada a Sam Fletcher para o resto da vida.
Seria difícil, mas suportaria, por causa da criança.
— E não por si mesma? — questionou, inclinando-se para ver melhor o único homem que já amara.
Para ser franca, tinha que admitir que não a desagradava a idéia de ter Sam em sua vida.
Não era como se fosse se casar com ele. Não seria res¬ponsável por envolvê-lo num relacionamento de conveniên¬cia, em vez de baseado no amor.
Mas saber como ele era, onde estava, o que fazia...
Só ficar sabendo...
Ela dissera não?
Não?
Sam ainda não acreditava.
Ou talvez acreditasse. As mulheres pareciam não querer se casar com ele. Primeiro Izzy, agora Josie. Por quê?
Andava tão tenso que começou a sentir dor de cabeça. Forçou-se a respirar fundo, mas não conseguiu relaxar. Fi¬cou andando junto à encosta, olhando para a cidade sem ver nada. Só vislumbrava o desastre que acontecera à tarde. Não, o desastre que acontecera em sua vida.
Não se achava uma pessoa difícil. Com certeza, podia sustentar uma esposa num padrão muito acima do normal. E não era um homem feio.
Ou era?
Não, raios, não era.
Então, qual era o problema?
— Quando me casar, vai ser por amor — resmungou, imitando a voz de Josie, ao mesmo tempo que chutava uma pedra com força. — Bem, querida, eu também.
Deviam pensar na criança agora. Seu filho. O filho dela.
O filho deles.
Aquela criança devia a própria existência a circunstâncias deturpadas pela bebida, mas o ato de amor não fora incon¬sequente, sem sentimento. Podia não se lembrar de todos os acontecimentos daquela noite, mas seu corpo reagira mo¬vido a emoções.
Estava apostando que Josie ainda sentia-se atraída por ele!
Olhou por sobre o ombro na direção da casa. No andar de cima, viu uma cortina se movimentar. Remexeu o maxilar e estreitou o olhar.
— Acha que a resposta final é não, Josie Nolan? — sus¬surrou à mulher que sabia estar por trás das cortinas.
Bem, Sam Fletcher nunca recuava diante de um desafio.
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