
O Atleta Caído: Vingança e Redenção
Capítulo 3
O quarto de hóspedes da mansão que um dia chamei de lar agora era minha cela. A porta estava trancada por fora, e a janela, no segundo andar, tinha grades que Sofia mandara instalar sob o pretexto de "segurança". Fotos nossas cobriam as paredes, sorrisos felizes de um passado que agora parecia uma mentira. Cada imagem era uma facada no meu peito.
Passei dois dias ali, sozinho com minha dor e minhas memórias. A dor no ombro era constante, e meu estômago ainda doía do soco de Miguel. Alguém deixava uma bandeja de comida na porta duas vezes por dia, comida fria e sem gosto que eu mal tocava.
No terceiro dia, a porta se destrancou. Sofia entrou, impecavelmente vestida, com um tablet na mão. Ela não me olhou. Apenas sentou-se na poltrona do outro lado do quarto.
"Temos um problema", disse ela, com a voz de uma empresária discutindo um negócio. "O patrocinador do jogo de caridade quer fazer uma campanha de 'saúde e bem-estar'. Eles querem exames de sangue de alguns jogadores importantes para provar que o esporte de alto rendimento é saudável."
Eu ri, um som seco e amargo.
"Saudável? Sofia, eu mal consigo andar. Meus exames de sangue mostrariam um coquetel de analgésicos e anti-inflamatórios. Mostrariam um corpo no limite."
"Exatamente", ela disse, finalmente olhando para mim. Seus olhos estavam frios como gelo. "E é por isso que você não vai fazer o exame."
"Ótimo. Então eu não jogo."
"Você vai jogar. Mas outra pessoa fará o exame por você. O problema é que o perfil sanguíneo precisa ser compatível. E o único compatível... é Miguel."
Eu a encarei, sem entender.
"Qual é o problema, então?", perguntei.
"O problema", ela disse lentamente, "é que Miguel... ele não tem sido cuidadoso. Ele usou alguns... suplementos não aprovados. Se o sangue dele for testado, a carreira dele acaba antes mesmo de começar. O clube será investigado. Meus negócios irão por água abaixo."
O quebra-cabeça começou a se encaixar, e a imagem que se formou era monstruosa.
"O que você quer, Sofia?", perguntei, com medo da resposta.
"Precisamos 'limpar' o sangue dele. Rapidamente. A melhor maneira é uma transfusão. Basicamente, trocar uma parte do sangue dele por sangue limpo."
"E onde eu entro nisso?", minha voz era um fio.
"Você tem o mesmo tipo sanguíneo raro que ele. Você vai doar o sangue. Uma quantidade significativa."
Eu balancei a cabeça em descrença.
"Sofia, doar essa quantidade de sangue, no meu estado... Eu já estou fraco. Isso pode ser perigoso. Eu posso..."
"Não seja dramático", ela me cortou. "Será um pouco desconfortável, mas você vai sobreviver. Um médico de nossa confiança virá aqui fazer o procedimento. É isso, ou eu vazo para a imprensa seu histórico médico completo, todas as injeções, todas as vezes que você jogou dopado sob minhas ordens. Você nunca mais trabalhará em lugar nenhum. Será o fim de João Carlos, o herói da várzea que se corrompeu."
Ela estava me encurralando, destruindo todas as minhas saídas.
A porta se abriu e Miguel entrou. Ele parecia pálido, ansioso. Ele não tinha a mesma arrogância de dias atrás. Agora, ele parecia um menino assustado.
"Sofia, isso é muito arriscado", disse ele, a voz trêmula. "Se algo der errado com ele..."
"Cale a boca, Miguel", ela disse, sem paciência. "Você deveria ter pensado nos riscos quando se encheu de porcaria. Agora, deixe-me resolver. Ele vai fazer." Ela se virou para mim. "Ele precisa de você, João. Nosso filho precisa que o pai dele tenha uma carreira."
A forma como ela usava o "nosso filho" para manipulá-lo e, ao mesmo tempo, me torturar, era cruel. Miguel, o covarde, apenas abaixou a cabeça, deixando-a lutar suas batalhas.
Eu olhei para as minhas mãos, para os calos e cicatrizes de anos de trabalho duro. Eu tinha dado meu sangue, suor e lágrimas por ela. Agora, ela queria meu sangue, literalmente.
"Eu faço", eu disse, e os dois me olharam, surpresos com a minha rápida rendição. "Mas com uma condição."
"Qual?", Sofia perguntou, desconfiada.
"Depois do jogo beneficente, e depois disso", eu disse, apontando para as minhas veias, "você me dá os papéis. O fim do nosso contrato de agenciamento, a dissolução de tudo. E eu desapareço. Você nunca mais me verá. E nunca mais me pedirá nada."
Sofia sorriu, um sorriso genuíno de vitória.
"Fechado", ela disse. "Eu já até preparei os papéis."
Uma hora depois, um homem de jaleco branco chegou com uma maleta. Ele não parecia um médico de verdade. Ele montou o equipamento no quarto, ao lado da minha cama. Eu me deitei, o coração pesado. Miguel sentou-se em uma cadeira no canto, incapaz de olhar para mim.
O "médico" encontrou uma veia no meu braço. A agulha entrou. Eu fechei os olhos e vi a cor vermelha escura começar a encher a bolsa. Senti uma fraqueza imediata, uma tontura. O mundo começou a girar lentamente.
Sofia observava tudo com um interesse clínico, como se estivesse assistindo a um procedimento em um laboratório. Quando a bolsa estava cheia, ela pegou-a com cuidado.
"Obrigada, João Carlos", ela disse, com a mesma voz que usaria para agradecer a um garçom. "Você sempre foi tão... generoso."
Ela entregou a bolsa a Miguel.
"Vamos. Temos que levar isso para a clínica antes que perca a validade", disse ela a ele.
Eles se viraram e saíram do quarto, deixando-me ali, deitado na cama, mais fraco e vazio do que nunca. A porta foi trancada novamente.
Eu apaguei. Não sei por quanto tempo. Quando acordei, o quarto estava escuro, exceto pela luz da lua que entrava pela janela gradeada. Minha cabeça latejava e eu sentia um frio que vinha de dentro.
Ouvi um barulho. Alguém estava no quarto.
"Gostou da sensação?", a voz de Miguel veio da escuridão. "De ter a vida sendo drenada de você? É assim que eu me sinto quando ela fala de você."
A luz do celular dele iluminou seu rosto. Ele estava me encarando.
"Ela ainda te ama, sabia?", ele zombou. "Ela me usa, mas é em você que ela pensa. É por isso que ela te odeia tanto."
"Saia daqui, Miguel", eu disse, minha voz fraca.
"Não tão cedo."
Ele se aproximou, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, meu celular, que estava na mesa de cabeceira, vibrou. Sofia não o tinha levado. Ela provavelmente achou que era inútil para mim.
Com um esforço enorme, eu me estiquei e o peguei. A tela se acendeu. Uma mensagem.
De um número que eu não via há anos. Maria.
"João, sou eu, Maria, a enfermeira. Sua antiga vizinha. Fiquei sabendo o que aconteceu na coletiva. Sinto muito. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me ligue. Estou aqui por você."
Maria. A garota doce que cresceu na mesma rua que eu. Nós éramos amigos antes de eu conhecer Sofia. Antes do futebol, antes do dinheiro. Uma onda de calor percorreu meu corpo frio. Um pingo de esperança em um oceano de desespero.
Miguel viu a tela e o nome. Seu rosto se contorceu de raiva.
"Quem é Maria?", ele rosnou, tentando arrancar o celular da minha mão.
Naquele exato momento, a porta se abriu. Sofia entrou. Ela viu a cena: eu segurando o celular, Miguel tentando pegá-lo.
"O que está acontecendo aqui?", ela perguntou, a voz cortante.
"Ele está falando com outra mulher!", Miguel gritou, como uma criança ciumenta.
Os olhos de Sofia se fixaram no meu celular, depois em mim. Sua expressão, que era de irritação, transformou-se em uma fúria possessiva e sombria.
"Me dê esse celular. Agora", ela ordenou, caminhando em minha direção.
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