
O Arrependimento Do Meu Ex-Marido: Demasiado Tarde
Capítulo 2
O terceiro aniversário de casamento chegou e passou, silencioso e frio, como todas as noites que passei ao lado de Hugo Gordon. A cama de casal parecia um oceano gelado, com um abismo a separar-nos. Ele nunca me tinha tocado.
A frustração acumulava-se no meu peito, um peso constante. Eu, Raelyn Hayes, uma enóloga dedicada, via a vinícola da minha família no Vale do Douro a definhar, enquanto o meu próprio casamento era uma farsa vazia.
Sentada na varanda da nossa imponente casa no Porto, com vista para o rio, liguei à minha melhor amiga, Raina Gordon. Ela era a irmã adotiva de Hugo e a minha única confidente nesta cidade.
"Raina, não aguento mais. Três anos, e ele continua a tratar-me como uma estranha. O que é que eu fiz de errado?"
A voz dela soou doce e preocupada do outro lado da linha, como sempre. "Raelyn, não digas isso. O Hugo é assim, um pouco frio. Sabes como a nossa família é conservadora. Ele só precisa de tempo."
As suas palavras, que antes me confortavam, agora pareciam ocas. Desliguei e decidi procurar Hugo no seu escritório em casa. Precisava de uma resposta, de qualquer coisa que quebrasse este silêncio ensurdecedor.
A porta estava entreaberta. Parei, com a mão levantada para bater, quando ouvi as suas vozes lá de dentro.
"Hugo, até quando vamos continuar com isto? Eu não suporto vê-la a sofrer." Era a voz de Raina.
"É o único jeito, meu amor. A família nunca aceitaria. A Raelyn é o nosso escudo. Só mais um pouco, e depois seremos livres."
A resposta de Hugo foi um sussurro carregado de uma paixão que eu nunca tinha ouvido. Senti o chão a desaparecer debaixo dos meus pés. Espreitei pela fresta da porta.
Hugo estava sentado na sua cadeira, e Raina estava no seu colo, os braços dela à volta do pescoço dele. Ele beijava-a com uma fome, uma devoção que me roubou o ar. A minha melhor amiga e o meu marido.
Recuei, cambaleando, o som do meu próprio coração a martelar nos meus ouvidos. Eles ouviram-me.
Hugo levantou-se bruscamente, empurrando Raina para o lado. O seu rosto, normalmente uma máscara de frieza, estava pálido de choque.
"Raelyn..."
"Não precisas de dizer nada", a minha voz saiu trémula. "Eu ouvi tudo. O vosso amor... o vosso escudo."
A verdade atingiu-me com a força de um golpe físico. O meu casamento era uma mentira, um arranjo para esconder um amor proibido. Hugo não era apenas frio; ele amava outra pessoa. Amava a irmã dela. A minha melhor amiga.
"Eu amo-a", confessou Hugo, a sua voz dura, sem um pingo de remorso. "Casei-me contigo para apaziguar os meus pais. Era a única maneira de a manter perto de mim."
Cada palavra era uma facada. O amor que eu tinha nutrido por ele durante anos, a esperança de que um dia ele me visse, tudo se desfez em pó. Eu tinha sido uma idiota, uma ferramenta conveniente na sua história de amor doentia.
Virei-lhes as costas, cega pelas lágrimas, e corri para o nosso quarto. A dor era tão intensa que mal conseguia respirar. Deitei-me na cama fria e chorei, não por ele, mas pela minha própria estupidez.
Na manhã seguinte, com os olhos inchados, mas o coração decidido, liguei ao meu advogado.
"Quero o divórcio."
Passei o dia a preparar os papéis, sentindo uma estranha sensação de libertação a cada assinatura. Estava prestes a sair para os entregar quando a campainha tocou incessantemente.
Abri a porta e deparei-me com um Hugo desesperado, o seu cabelo perfeitamente penteado agora em desordem.
"Raelyn, preciso da tua ajuda."
Não era sobre o divórcio. O seu pânico era genuíno e aterrorizante.
"A Raina... ela sofreu um acidente de carro. Está em estado grave."
O meu coração parou por um segundo. Apesar da traição, uma parte de mim ainda se importava com a rapariga que fora minha amiga.
"Ela precisa de uma transfusão de sangue, urgentemente. O tipo de sangue dela é raro... B negativo. Tu és a única pessoa que conhecemos que é compatível. Por favor, Raelyn. Eu imploro."
O desespero nos seus olhos não era por mim. Era tudo por ela. Um sorriso amargo e irónico formou-se nos meus lábios.
"Eu ajudo", disse eu, a minha voz fria como o gelo. "Mas com uma condição."
Ele olhou para mim, expectante.
"Quero a noite de núpcias que me deves. A que me negaste durante três anos."
Pensei que ele hesitaria, que ficaria chocado com a minha proposta mórbida. Em vez disso, a sua resposta foi imediata, sem um pingo de hesitação.
"Feito."
A facilidade com que ele concordou foi a confirmação final. Ele venderia a sua alma, o seu corpo, qualquer coisa, por Raina. E eu, no meu sofrimento, aceitei este pacto doentio.
"Leva-me ao hospital", disse eu, a minha voz vazia de qualquer emoção.
A doação de sangue deixou-me fraca e tonta. A enfermeira disse-me para descansar, mas Hugo mal olhou para mim. Assim que o procedimento terminou, ele correu para o quarto de Raina, deixando-me sozinha na sala de recuperação.
Fiquei ali, a observar pela porta entreaberta. Ele segurava a mão dela, limpava-lhe a testa com um pano húmido, sussurrava-lhe palavras de conforto. Inclinou-se e beijou-lhe os lábios, um beijo roubado, cheio de amor e medo.
A última centelha de sentimento que eu tinha por Hugo Gordon apagou-se naquele momento. Fui consumida por um vazio gelado, uma aceitação tranquila da realidade.
Recuperei sozinha. Dois dias depois, tive alta. Quando cheguei a casa, ele estava à minha espera na sala de estar, a sua expressão tensa.
Ouvi-o a falar com Raina ao telefone antes de eu chegar. "Ela vai ficar bem, Hugo. Ela ama-te tanto, nunca te culparia por cuidares de mim." A sua perceção equivocada do meu amor era quase cómica. Ele realmente acreditava que eu ainda o amava depois de tudo.
"Estás de volta", disse ele, desligando o telemóvel. "Estou pronto para cumprir a minha parte do acordo."
A sua tentativa de se aproximar, de tocar no meu ombro, fez-me recuar. O meu estômago revirou-se.
"Sabes que mais?", disse eu, forçando um sorriso. "Mudei de ideias sobre o meu desejo. Estava a brincar. Não quero isso."
Ele pareceu confuso, mas também aliviado. A ignorância dele era espantosa.
"Então, o que queres em troca?", perguntou ele, claramente ansioso por acabar com aquilo.
Caminhei até à mesa de centro, onde os papéis do divórcio ainda estavam. Peguei na caneta e nos documentos.
"Quero isto", disse eu, estendendo-lhos. "O meu novo desejo é que assines."
Ele olhou para os papéis, chocado. "Divórcio?"
Naquele preciso momento, o seu telemóvel tocou novamente. O nome de Raina brilhou no ecrã. A sua atenção desviou-se instantaneamente de mim.
"Assina, Hugo", insisti, a minha voz firme.
Distraidamente, com a mente já no hospital com ela, ele pegou na caneta e assinou o seu nome na linha pontilhada, sem sequer ler os termos.
"Tenho de ir", disse ele, já a caminho da porta, a atender a chamada. "Raina? Estou a caminho."
Fiquei sozinha na sala silenciosa, a olhar para a sua assinatura no papel. "Estou livre", sussurrei para o vazio. O casamento tinha acabado.
Você pode gostar





