
O Arrependimento de um Marido Infiel
Capítulo 2
Ponto de Vista: Hana Silva
Uma semana atrás, passei a tarde sozinha, encolhida contra o vento frio, segurando dois envelopes em minhas mãos trêmulas.
O primeiro confirmava uma nova vida, um pequeno pulso ecoando o meu. Depois de anos tentando, finalmente seríamos pais.
O segundo relatório, no entanto, entregava uma sentença de morte. Câncer de estômago, estágio 4. O olhar de pena do médico foi um reflexo da minha própria esperança destruída.
Meu coração parecia um bloco de gelo, frio e pesado no peito.
Dois anos. Dois longos anos Anderson e eu tentamos ter um bebê. No momento em que vi aquela linha positiva, liguei para ele imediatamente, minha voz embargada de lágrimas de alegria.
Nossas famílias ficaram exultantes, celebrando a notícia de um neto a caminho. A felicidade deles era um contraste brutal com o desespero que agora me consumia.
Apenas dias depois, o diagnóstico veio. Dois relatórios, quase ao mesmo tempo. Um anunciava um começo; o outro, um fim.
Uma nova vida precisava de nove meses para crescer, mas eu mal tinha tempo sobrando. Como eu poderia contar a Anderson? Como eu poderia dizer a ele que estávamos perdendo tudo?
Duas vidas, entrelaçadas em tragédia. Senti o peso do destino me esmagando, roubando meu fôlego.
Uma parte de mim estava grata por Anderson não ter ido à consulta médica. Pelo menos ele não tinha visto os olhos tristes do oncologista, nem ouvido as palavras terríveis.
Eu precisava de tempo para processar, para encontrar as palavras para explicar o inimaginável. Mas antes que eu pudesse, a ligação de Katlyn aconteceu.
Naquela noite, Anderson me encontrou em casa. Ele envolveu minhas mãos frias nas dele, seu toque enviando um calafrio através de mim.
— Suas mãos estão geladas, querida — ele murmurou, esfregando-as gentilmente. — Vou ficar mais em casa agora. Eu prometo. Vamos enfrentar tudo juntos.
Eu apenas o encarei, minha voz presa na garganta. Ele parecia um estranho, suas palavras ecoando em um vazio que eu não conseguia compreender. Ele era realmente capaz de tamanha traição?
Ele me guiou até a mesa de jantar. Uma tigela fumegante de canja estava diante de mim, o aroma preenchendo o ar. Meus olhos arderam.
Eu tinha um estômago sensível, um fato que ele conhecia bem, e ele costumava cozinhar para mim sempre que eu tinha uma crise. Agora, ele soprava cuidadosamente uma colherada, testando a temperatura, antes de levá-la aos meus lábios.
— Diga "ah" — ele pediu, com um sorriso terno.
Anderson. Eu queria gritar o nome dele, exigir respostas, sacudi-lo até que a verdade transbordasse.
A gentileza dele, seu aparente amor, colidia violentamente com as palavras venenosas de Katlyn. Ele não podia ser tão cruel, podia? Eu estava à beira de confrontá-lo, de derrubar essa fachada frágil.
Então o telefone dele tocou.
Ele olhou para a tela, um sorriso suave e familiar enfeitando seus lábios. Um sorriso que eu sabia que era reservado para mim. Ele silenciou o telefone rapidamente, seus olhos encontrando os meus.
— Tudo bem, amor?
Engoli a sopa, forçando um sorriso fraco.
— Está deliciosa — menti, as palavras com gosto de cinzas.
Ele acariciou meu cabelo.
— Que bom. Tudo para você, meu amor. Nada além do melhor para minha Hana e nosso bebê.
Cerrei o maxilar, meus dedos apertando a colher. Ele era um mestre da enganação. Cada palavra doce, cada toque gentil, era uma mentira.
Essa sopa, esse momento, nada disso era verdadeiramente para mim. Era uma performance, e eu era a plateia involuntária. A sopa, antes um símbolo de seu amor, agora revirava meu estômago. Era amarga, um insulto à minha inteligência.
A refeição inteira foi uma farsa. Eu sentia que estava sufocando, cada mordida uma luta.
No momento em que ele pediu licença para atender a ligação na outra sala, eu corri. Tropecei para o banheiro, caí de joelhos e vomitei, esvaziando o conteúdo do meu estômago no vaso sanitário.
Meu corpo convulsionava, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Quando os espasmos diminuíram, encarei o interior do vaso. Em meio à bile, vi manchas de sangue e pequenos fragmentos de pílulas. Minha medicação. Eu mal conseguia mantê-la no estômago.
Encolhi-me em posição fetal no chão frio de azulejo, soluçando, meu corpo devastado por uma dor que ia muito além da física.
E então eu ouvi. Uma voz fraca e abafada vinda do telefone de Anderson na sala.
Era Katlyn.
O quebra-cabeça repugnante se encaixou. A peça final do meu mundo destruído.
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