
O Arquiteto de Sua Própria Ruína
Capítulo 3
Ponto de Vista: Helena Jansen
O baile de caridade para o hospital infantil era o tipo de evento em que Caio prosperava. Um mar de dinheiro antigo e novo poder, flashes de câmeras e a elite da cidade pendurada em cada palavra sua. Para mim, geralmente era um mal necessário, uma performance de duas horas como a noiva elegante e solidária.
Naquela noite, era um campo de batalha.
Eu me movia pela multidão cintilante no piloto automático, um sorriso fixo no rosto. Meus olhos varriam o salão, não em busca de rostos familiares, mas de um em particular.
E então eu a vi. Carina Schmidt. Ela estava perto do bar, conversando com um vereador, parecendo discreta em um simples vestido preto. Mas meu olhar se fixou imediatamente em sua mão esquerda, que repousava sobre o balcão de mármore.
Lá estava ele. O anel de sinete dos Ferraz.
Não era uma réplica. Não era um truque de luz. Era pesado, ornamentado, e estava em seu dedo como se pertencesse a ele. Como se sempre tivesse sido destinado a ela.
Uma fúria fria e dura se solidificou no meu peito. Ele havia mentido. Tão facilmente. Tão completamente.
Caio me encontrou momentos depois, sua mão possessivamente na base das minhas costas. "Aí está você. Eu estava justamente contando ao Desembargador Albright sobre o seu novo projeto do museu."
"Caio", eu disse, minha voz perigosamente baixa, meu sorriso nunca vacilando. "Sua gerente de campanha está usando o anel de sinete da sua família."
Ele seguiu meu olhar. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de pânico em seus olhos antes que fosse habilmente mascarado por diversão.
Ele riu, um som suave e desdenhoso. "Ah, isso. Não seja boba, Helena. É uma réplica. Mandei fazer algumas para a equipe de alto escalão como um bônus por todo o trabalho duro neste trimestre. Um pedacinho da 'equipe Ferraz' para motivá-los."
Ele apertou minhas costas gentilmente. "Você tem o verdadeiro esperando por você, você sabe disso. O que importa. Assim como você é a única que importa."
A mentira era tão audaciosa, tão insultuosa em sua simplicidade, que fiquei momentaneamente atordoada em silêncio. Ele achava que eu era tão estúpida. Tão ingênua.
Mais tarde naquela noite, meu celular vibrou. Era uma mensagem de Léo, o melhor amigo de Caio. Aquele da gravação. Sua consciência, ao que parecia, estava começando a pesar.
A mensagem continha uma única captura de tela.
Era uma postagem de uma conta privada no Instagram com o nome 'Cari S.'. A foto de perfil era Carina, sorrindo. A postagem era um close de sua mão, com o anel de sinete dos Ferraz em destaque.
A legenda dizia: "Finalmente pude usar isso de verdade. Tão animada para o que vem a seguir com meu marido. Ele diz que a namorada de fachada vai sumir em breve, e ele vai comprar um apartamento novo para ela como presente de despedida. Um preço pequeno a pagar por seus anos de serviço."
Um presente de despedida. Um apartamento novo.
Ele não estava apenas planejando anular seu casamento com Carina. Ele estava planejando me descartar. Me pagar como uma funcionária dispensada.
O salão começou a girar. A conversa da multidão, o tilintar das taças de champanhe, tudo se transformou em um rugido abafado. O sangue pulsava em meus ouvidos. Senti uma mão no meu braço e olhei para cima para ver Léo parado ali, seu rosto pálido de culpa e ansiedade.
"Me desculpe, Helena", ele murmurou, sem encontrar meus olhos. "Eu tentei avisá-lo... ele se afundou demais."
"Obrigada, Léo", eu disse, minha voz em uma calma mortal. Fechei a mão sobre o celular, a tela queimando contra minha palma.
Encontrei Caio perto das portas francesas que davam para o terraço. Ele estava no meio de uma risada com o prefeito, a imagem do charme e da confiança. Eu esperei.
Quando o prefeito se afastou, eu dei um passo à frente, minha expressão serena. "Caio, posso falar com você por um momento?"
Fomos para o terraço. O ar fresco da noite foi um choque bem-vindo na minha pele quente.
"O que foi?", ele perguntou, seu sorriso ainda no lugar.
Eu levantei meu celular, mostrando a ele a captura de tela.
Seu sorriso desapareceu. A máscara caiu, e pela primeira vez, eu vi o homem frio e implacável da gravação. Seu rosto ficou rígido, sua mandíbula tensa de fúria. Mas a fúria não era pela decepção. Era por ter sido pego.
Ele não fingiu indignação. Ele não negou. Ele simplesmente olhou para o celular, depois para mim, seus olhos como lascas de gelo.
Então, ele fez algo que eu nunca esperei. Ele se virou e chamou o nome de Carina.
Ela correu até lá, com uma expressão nervosa no rosto. Caio a agarrou pelo braço, seus dedos cravando em sua carne.
"Que porra é essa?", ele sibilou, enfiando o celular na cara dela. "O que eu te disse sobre discrição? Sobre manter a boca fechada?"
Lágrimas brotaram instantaneamente nos olhos de Carina. "Caio, eu... eu só estava animada. Eu não pensei..."
"Você não pensou?", ele rosnou, sua voz um sussurro venenoso. Ele a virou para me encarar, seu aperto no braço dela implacável. "Peça desculpas. Peça desculpas a Helena por sua indiscrição tola e deslumbrada."
Carina soluçou, seu corpo tremendo. "Sinto muito, Sra. Jansen. Foi estúpido. Eu só... eu admiro tanto o Vereador Ferraz, e o anel réplica... parecia tão real. Eu me empolguei. Por favor, me perdoe."
Foi uma performance impecável. A funcionária assustada e emotiva. O chefe poderoso e irritado. A noiva ofendida e magnânima. Ele nos escalou para nossos papéis.
Ele soltou o braço dela com um leve empurrão. Ela se afastou correndo, ainda chorando.
Então, Caio se virou para mim, sua expressão se transformando em um instante. A raiva se foi, substituída por um olhar de profunda e amorosa preocupação. Ele segurou meu rosto entre as mãos.
"Viu?", ele murmurou, seu polegar acariciando minha bochecha. "Apenas uma funcionária deslumbrada com uma paixonite. Você não pode deixar coisas assim te afetarem. Você é a única para mim, Helena. A única."
Ele se inclinou para me beijar. Fiquei paralisada, meu corpo rígido, enquanto seus lábios encontravam os meus. Parecia ser beijada por uma cobra.
Eu me afastei. "Vou para casa. Estou com dor de cabeça."
"Claro, meu amor", ele disse, todo calor e simpatia. "Vou pedir para o motorista te levar. Estarei em casa assim que puder."
Eu não esperei pelo motorista. Peguei um táxi. E do banco de trás, observei meu próprio prédio. Meia hora depois, um carro parou. O carro de Caio.
Ele saiu. Então, a porta do passageiro se abriu. Carina.
Ele a puxou para seus braços, beijando-a com uma intensidade desesperada e apaixonada que ele não me mostrava há anos. Eu podia vê-lo sussurrando em seu cabelo, sua mão acariciando suas costas.
Mesmo a uma quadra de distância, eu sabia o que ele estava dizendo. Você foi brilhante. Ela engoliu tudo. Teremos nossa própria celebração de verdade em breve. Vou reservar um iate particular.
A voz do motorista me assustou. "Senhora? É aqui?"
Eu não consegui responder. Apenas assenti, um único movimento brusco, enquanto observava o homem com quem eu deveria me casar levar sua esposa grávida para a casa que eu construí.
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