
O antídoto dele, o tormento meu
Capítulo 3
Passei horas no jardim, minhas mãos afundando na terra, enquanto meus pulmões queimavam a cada inspiração. As flores — belas, porém letais para mim — liberavam no ar o pólen sufocante que me cercava. Na minha pele, surgiram vários vergões vermelhos e inflamados, e minha garganta começou a se fechar, cada respiração se transformando em um arquejo áspero e doloroso.
Quando finalmente terminei, o sol já havia desaparecido no horizonte.
A empregada, Clara, não estava em parte alguma, provavelmente dispensada — um gesto ínfimo e insignificante de Julian, incapaz de apagar a tortura que me impusera.
Cambaleei de volta ao meu quarto, a visão turva. Revirei a bolsa em busca da EpiPen — a injeção de emergência que sempre carregava comigo, indispensável para sobreviver nesse mundo cruel que Julian criara. Apliquei o medicamento na minha coxa, o líquido percorrendo minhas veias e trazendo apenas um alívio parcial.
Eu sabia que precisava de ajuda médica imediata, mas antes que pudesse decidir o que fazer, a porta foi escancarada com brutalidade.
Julian entrou, seu rosto uma máscara de fúria. Ele avançou sobre mim, as mãos se fechando ao redor do meu pescoço e me arremessando contra a parede.
"Você foi se queixar para o meu avô!", ele rosnou, os dedos esmagando minha garganta. "Disse a ele que eu a obriguei a trabalhar no jardim!"
Manchas escuras invadiram minha visão. Eu não conseguia falar, tampouco respirar. Balancei a cabeça desesperadamente, já que não falava com Arden desde aquela primeira ligação.
"Não minta para mim!", ele bradou, sua voz reverberando como um trovão. "Cassandra foi humilhada por ele! Ele a chamou de prostituta e a expulsou de casa! Tudo por sua culpa!"
Minhas unhas arranhavam as mãos dele, meus pulmões clamando por ar. Eu estava morrendo, no mesmo quarto onde, por anos, havia me sacrificado para salvar a vida dele.
Quando minha consciência começou a se apagar, ele me soltou.
Caí no chão, arquejando, o corpo convulsionando em tosse, lágrimas escorrendo sem controle.
Não houve compaixão. Ele me agarrou pelos cabelos, me forçando a erguer a cabeça.
"Fique de pé", ele sibilou. "Você vai pagar caro por isso."
"Para onde… para onde está me levando?", consegui murmurar, a voz rouca.
"Você vai até a casa de Cassandra e vai se ajoelhar diante dela, implorando perdão", declarou ele com frieza mortal, O sangue gelou em minhas veias. "Não."
Ele me arrastou pelo corredor, me conduzindo até a garagem, onde me atirou no banco do passageiro de seu carro.
"Não estou te dando uma escolha", ele disse, a voz baixa, perigosa, enquanto acelerava pelas ruas molhadas da cidade. "Você vai implorar, ou enviarei aquele vídeo para toda a sua família. Sua mãe doente será a primeira a assistir."
A menção à minha mãe, frágil por causa de uma condição cardíaca delicada, foi sua arma definitiva. Ele conhecia minha vulnerabilidade mais profunda.
Era quase irônico — Julian acreditava estar me punindo, mas apenas reforçava minha decisão de deixá-lo para sempre. Essa seria era a última pá de terra sobre o caixão da minha antiga vida.
O carro parou diante de uma mansão luxuosa, em um bairro nobre de Nova Iorque, enquanto a chuva caía sem parar.
Ele me arrastou para fora, me empurrando de joelhos contra o pavimento frio e encharcado diante da porta de Cassandra.
"Você vai ficar aqui e vai suplicar por perdão até que ela concorde em concedê-lo!"
"Eu não fiz nada de errado", murmurei, a voz fraturada.
"Faça", ele ameaçou, exibindo o celular, a tela iluminada com o contato da minha mãe.
Minha resistência se partiu, pois não podia permitir que ele a ferisse.
Encostei a testa no chão molhado. Uma vez, duas vezes...
A chuva castigava meu corpo, me encharcando até os ossos. A minha garganta ardia enquanto o cascalho rasgava minha pele.
Dos arredores, vinham sussurros abafados — espectadores invisíveis que observavam da segurança de suas janelas, suas vozes carregadas de piedade e desprezo.
Meu corpo pesava, os movimentos se tornavam lentos e eu sentia o mundo girar.
Através da cortina de chuva e da névoa da dor, pensei ouvir voz dele — não mais fria, mas aguda, marcada por um pânico estranho. "Bailey?"
Não pude deixar de pensar que era uma alucinação. Afinal, ele sempre deixara claro que desejava minha morte.
Quando o colapso me venceu e a escuridão me envolveu, meu último pensamento foi uma aceitação amarga. Então era assim que terminava.
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