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Capa do romance O AMOR QUE VOCÊ NÃO QUIS

O AMOR QUE VOCÊ NÃO QUIS

Criada sob a sombra do desprezo paterno por ser filha da empregada, uma jovem enfrenta uma nova provação cruel. Seu próprio pai a obriga a contrair matrimônio com um desconhecido. O maior conflito surge quando ela descobre que seu futuro marido nutre uma paixão profunda por sua irmã. Agora, ela precisa lidar com um casamento forçado e sem amor, presa em uma teia de sentimentos não correspondidos e rejeição familiar que parece não ter fim.
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Capítulo 2

DUAS IRMÃS

As meninas foram criadas exatamente como Laura exigiu. Cresceram juntas, frequentaram a mesma escola e faziam as mesmas atividades extracurriculares. Catarina era uma criança muito bela. Loira, olhos claros e algumas sardas. Nina também era muito linda. Branca, mais branca que a Catarina, mas tinha cabelos castanhos escuros que iam até os ombros, com uma franja bem penteada cobrindo a testa e tinha lindas covinhas no rosto quando sorria. Seus olhos eram grandes e negros como os do pai.

Catarina era chorona e na maior parte do tempo estava de mal humor e fazendo birra. Sempre estava querendo algo e se fosse contrariada, dava ataques de raiva.

Nina era uma criança tranquila. Estava sempre sorrindo, correndo atrás de algum bichinho, cantarolando e explorando a fazenda, perdida no seu mundinho encantado. Ela não gostava muito de brincar com sua irmã. As duas, de vez em quando, brincavam juntas. Mas a brincadeira só ia bem até que Catarina começasse a dar chiliques e culpar Nina de alguma coisa. Aí, ela tinha que ouvir as broncas de sua mãe Rosa.

— Eu já te falei mil vezes pra não incomodar a Catarina. Você não é filha da Dona Laura, entendeu? Ela só será boa até certo ponto! Se você não se comportar, ela vai te castigar! E qualquer dia desses eles vão mandar a gente embora por sua culpa!

Por isso, Nina preferia brincar sozinha com seus brinquedos ou com Bia, uma coleguinha da escola e filha do caseiro da fazenda vizinha. Lipe, o filho do vaqueiro, às vezes se juntava a elas para brincarem. Essa amizade não ficou só na infância. Tornaram-se inseparáveis.

Nina se parecia muito com o pai e isso incomodava muito Otoniel. Quando alguém lhe dizia:

— A Nina se parece muito com você!

Ele sempre imaginava que a pessoa estava dizendo:

— Nossa, você traiu mesmo a sua mulher!

A presença dela o incomodava. Toda vez que via a menina pelos cômodos da casa, sempre a repelia gritando palavras de ordem e não escondia de ninguém seu desprezo por ela. Mas ele tinha que cumprir o que havia combinado com Laura. Então, regularmente fazia seu papel de pai. Comprava para ela presentes de aniversário, dia das crianças, páscoa, Natal etc. Essas demonstrações de afeto do pai eram suficientes para ela. Mas, na verdade, os presentes que ele costumava dar a Nina eram sempre bem mais inferiores aos que ele comprava para Catarina. E ele ficava muito irritado quando Nina, mesmo recebendo brinquedos ruins, se mostrava muito agradecida e feliz. Enquanto que Catarina, nada parecia satisfazê-la. Ela sempre reclamava: “Não era esse que eu queria! ”; “Não gostei!”; “ Credo, que horrível!”

Mas Otoniel alimentava todos seus caprichos e fazia questão de deixar bem claro que Catarina era sua favorita. Ele suportava a presença de Nina em sua casa por respeito à sua esposa. Nina, inocentemente, não se cansava de tentar agradar o pai. Ela era estudiosa, inteligente, muito dedicada em suas tarefas. Era a primeira aluna da sua classe e suas notas eram sempre altas. Porém, Otoniel ignorava tudo o que vinha da menina. O fato de Nina ser bem mais inteligente que Catarina também o aborrecia. Ele fazia questão de elogiar a filha favorita na frente da outra, mas isso não surtia muito efeito. Nina sempre ficava feliz pela irmã. A menina, mesmo sendo rejeitada, gostava muito de ter um pai. Contudo, quando ela lhe trazia aqueles cartõezinhos de declaração de amor ao papai com coraçãozinho e outras fofurinhas, ele resmungava, amassava e jogava no lixo. Mas, no fundo, ele sabia que ela era só uma criança e estava sendo sincera. Às vezes ele parecia amolecer diante da doçura de Nina, como no dia em que lhe deu uma linda boneca de pano que a deixou muito feliz. Ela a chamava de Lara e passou a ser sua boneca favorita.

Já o relacionamento com Laura compensava toda essa indisposição com o pai. Ela realmente gostava muito de Nina. Quando ainda eram bebês, Laura chegou a trocar com Rosa os horários de mamadas das meninas, amamentando Nina por muitas vezes. Conforme dizia ela, isso era necessário para que fosse criado um vínculo entre as duas. Enquanto Rosa, por vezes, amamentava a Catarina. Ela não questionou a patroa, pois imaginou que essa troca seria muito bom pra diminuir a animosidade que fora criada entre elas.

Nina se afeiçoou muito à Laura, quem ela chamava de mãe sem nenhuma dificuldade. Laura se dedicava muito em ensinar Nina muitas coisas. Não era nada forçado o relacionamento das duas, pois Nina gostava de tudo que vinha da mãe adotiva. Enquanto Catarina se mostrava mais apegada com o pai, tomando gosto por montaria e o trato com os cavalos, Nina preferia as lições de piano, francês, aula de bordado, histórias da bíblia e outras histórias também. Laura era muito religiosa e fazia questão de passar os seus princípios para as filhas, mas Nina era a que mais se empolgava com tudo isso. Quando era bem pequena, se apaixonou pela história de Moisés. Era sua favorita. Se identificava com ela, pois era amada por uma mulher que não era sua verdadeira mãe. A história foi uma resposta a esta pergunta:

— Mamãe, porque eu tenho duas mães?

Laura, respirou fundo e respondeu:

— Porque você é uma criança especial! E crianças especiais são muito amadas! Então, precisam de muita gente pra amá-las! Você conhece a história de Moisés?

— Não... Quem é?

— Um menininho muito amado!

— Ele era uma criança especial?

— Sim! Muito especial!

— E ele tinha duas mães?

— Sim! Duas mães que o amavam muito! Eu vou contar pra você. Bem... No livro chamado Êxodo...

Laura contava as histórias de uma forma encantadora. Ela tinha talento para isso. Às vezes inseria músicas nos enredos e tornava tudo mais interessante. Nina ouvia tudo muito atenta e envolvida, reagindo a cada situação e fazendo perguntas em alguns momentos.

Catarina não gostava das histórias da mãe. Quando Laura arriscava envolve-la nessa brincadeira, ela sempre dormia ou interrompia a narração dizendo:

— Que chato! Vamos fazer outra coisa!

— Cala boca, Cata! Eu quero ouvir! — repreendia Nina.

A medida que o tempo foi passando e as meninas foram crescendo, Nina desistiu de conquistar o pai. Entendeu que ele nunca mudaria. Afinal de contas, ele tratava mal a maioria das pessoas. Em compensação ela e Laura foram ficando cada vez mais próximas com o decorrer dos anos.

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