
O amor que não mereço
Capítulo 2
Vivian
Oito anos atrás...
Sou Vivian Nelson, uma arquiteta e a esposa de Lawrence Nelson.
Éramos apaixonados e, muitas vezes, eu pensava que nosso casamento seria o começo para uma felicidade sem fim, até que um maldito acidente arruinou tudo.
— Cuidado! Lawrence! — gritei quando vi um caminhão aparecer de repente na nossa frente.
O tempo não desacelerou, pelo contrário, acelerou de forma aterradora, comprimindo segundos em decisões que ecoariam para a eternidade.
Em um único, fluido e decisivo movimento, o braço direito de Lawrence se esticou, não em direção ao volante para desviar, mas em direção a mim. Sua mão, larga e familiar, a mesma que acariciara minha face horas antes, pressionou-me com força brutal contra o encosto do meu banco. Ao mesmo tempo, com a mão esquerda, ele puxou o volante para a direita, com toda a força que tinha.
O mundo explodiu em um cacofonia de horror. O mais aterrador era o som: o impacto surdo do metal contra o corpo de Lawrence, o estilhaçar do vidro temperado em milhares de fragmentos, o gemido agônico da estrutura do carro se contorcendo. Uma força invisível e brutal arremessou-me contra o cinto de segurança, que me cortou o peito como uma lâmina. Minha cabeça quase bateu no vidro da janela lateral, mas uma mão a segurou com firmeza.
Quando a poeira e o silêncio se assentaram, a primeira coisa que percebi foi o peso do seu braço, ainda esticado em minha direção, protetor.
O sangue… uma linha escarlate e insistente escorria de sua têmpora, traçando um caminho horrível por seu rosto pálido.
— Lawrence? — Minha voz era um sopro fraco no meio do caos.
Não houve resposta, e percebi que seu nariz já parou de respirar. Seus olhos, aqueles olhos que sempre me olharam com tanto amor, estavam abertos, mas vazios.
Toquei seu rosto, minhas mãos tremendo descontroladamente. Sua pele ainda estava quente, mas era uma temperatura que se esvaía rapidamente, cedendo lugar a um frio que me queimou os dedos.
— Não... não! Por favor, acorde! Não me deixe! — Minhas palavras eram um mantra de desespero, sussurradas contra sua pele, contra o sangue, contra a injustiça do universo, enquanto o sacudia levemente.
O cheiro de gasolina invadia o carro, um odor nauseante que se misturava ao cheiro de sangue. Gritos começaram a vir de fora, vozes distantes e abafadas, como se eu estivesse no fundo de um poço. Luzes azuis e vermelhas piscavam, pintando o interior destruído do carro com cores de um pesadelo.
Mas tudo isso era irrelevante e o mundo exterior não existia para mim. Naquele momento, só senti o silêncio dele, o peso do seu braço sobre meu peito e a verdade horrível que se instalava em mim, lenta e inexorável como um veneno.
Ele me salvou, com um gesto instintivo, corajoso e final. Em um momento crítico, tinha puxado o volante para o seu lado, atraindo o impacto fatal para si.
— Tirem ele daqui primeiro! Salvem ele! Por favor!
Pedi em lágrimas quando vi bombeiros e médicos chegando, ainda me agarrando a um frágil fio de esperança, embora no fundo soubesse que era tarde demais.
Com a ajuda deles, fui puxada para fora, para o ar frio da manhã. Envolveram-me em um cobertor, mas nenhum calor poderia derreter o gelo que se formava meu coração.
Eles cobriram meu marido com um lençol. Aquele pedaço de tecido branco, manchando-se rapidamente de vermelho, foi a última imagem que tive dele, a confirmação visual do meu pesadelo, um mundo sem seu sorriso, sem sua voz, sem o seu corpo reconfortante ao meu lado na cama.
Em meio a dor da perda, toquei minha barriga, onde crescia silenciosamente o fruto do nosso amor.
— Meu pequeno, seu pai nos salvou. De agora em diante, te darei todo o meu amor. Seja bomzinho com a mamãe, OK?
Embora desesperada, eu teria que seguir para frente, já que meu bebê ainda precisava de mim.
Uma determinação se formou no meu coração: custe o que custar, vou dar a melhor vida possível a ele, tanto para mim quanto para Lawrence!
Você pode gostar





