
O Amor Dele, Meu Inferno, A Justiça Dela
Capítulo 3
O gosto metálico de sal e ferrugem encheu minha boca enquanto eu descia a escada bamba, cada degrau uma nova pontada de medo. A jaula balançava violentamente com o movimento das ondas, ameaçando se soltar de seu cabo enferrujado e me lançar no abismo agitado abaixo. Minha fobia era um cobertor sufocante, pressionando meu peito, fazendo meus pulmões arderem por ar. O cheiro de algas em decomposição e salmoura era avassalador, agredindo meus sentidos.
Minhas mãos, escorregadias de suor, agarravam o metal frio, meus nós dos dedos brancos. Abaixo, a água se agitava, negra e sem fundo, engolindo os últimos vestígios de luz do dia. Minha mente voltou a um pesadelo de infância: ser arrastada para baixo das ondas por mãos invisíveis, a pressão esmagadora das profundezas. Isso não era mais um pesadelo; era real.
Todo instinto gritava para eu soltar, para recuar. Mas o rosto da minha mãe, pálido e sem vida, brilhou por trás das minhas pálpebras. Isolda. Sua última palavra ecoou em meus ouvidos, um lembrete cruel do custo da minha inação. Não. Eu não iria quebrar. Não aqui. Não agora.
Forcei-me a me mover, um passo agonizante de cada vez, até que meus pés tocaram o chão gradeado da jaula. O portão enferrujado rangeu ao abrir, depois bateu atrás de mim com um som nauseante. Eu estava presa.
A jaula mal era grande o suficiente para ficar de pé, as barras de metal frias contra minha pele. Balançava precariamente, o som das ondas amplificado, um rugido gutural em meus ouvidos. Fechei os olhos com força, lutando contra a náusea que subia pela minha garganta, a vertigem ameaçando me fazer girar. Eu podia sentir o ar frio e úmido se infiltrando em meus ossos.
No píer, eu podia ouvir os gritos abafados dos espectadores, suas vozes distorcidas pelo vento e pelas ondas quebrando. Alguns apontavam, outros pareciam horrorizados. Eles estavam assistindo à minha agonia, um espetáculo público orquestrado por Ezequiel e Isolda.
A risada de Isolda, estridente e triunfante, cortou o vento. Ela estava gostando disso, de cada segundo agonizante do meu tormento. Sua cabeça estava jogada para trás, uma imagem de pura alegria maliciosa.
Ezequiel estava ao lado dela, sua silhueta nítida contra o céu escurecendo. Mesmo à distância, eu podia sentir seu olhar, frio e analítico. Mas havia algo mais também. Um lampejo de algo em sua postura, um leve enrijecimento de seus ombros, uma sutil mudança em seu peso. Era quase imperceptível, uma sombra fugaz de desconforto. Meu foco se aguçou. Ele estava me observando.
Então, um som áspero e rangente rasgou o ar. O guindaste deu um solavanco, e a jaula começou a descer. Lenta, inexoravelmente, eu fui baixada em direção à água negra.
Minha respiração ficou presa. O pânico, cru e avassalador, inundou meus sentidos. Meu coração batia tão forte que pensei que explodiria através do meu peito. Minha visão se afunilou. A água subiu, engolindo a luz, até que eu estava submersa, o frio se infiltrando em minha alma.
A pressão aumentou, um peso esmagador contra meu corpo. A água escura girava ao meu redor, empurrando e puxando. Eu me debati, minhas mãos agarrando as barras, meus pulmões gritando por ar. Era isso. Era assim que eu morreria. Afogada, presa, consumida pelo meu medo mais profundo.
Mas então me lembrei da minha mãe. Seu sacrifício. Seus últimos momentos. Isso era o suficiente? Desistir agora era o que ela gostaria?
Não. Uma determinação feroz se acendeu dentro de mim, uma pequena brasa na vasta escuridão. Eu lutaria. Eu suportaria. Não por eles, mas por ela. Por justiça.
Forcei-me a parar de lutar, a conservar minha respiração. Abri os olhos, espiando através da água turva. Formas se moviam nas profundezas, distorcidas e aterrorizantes. Minha mente gritava, mas meu corpo permanecia imóvel, um ato desafiador contra o terror. Concentrei-me na minha respiração, lenta e constante, um mantra contra o medo sufocante.
Minutos se estenderam em uma eternidade. O frio me mordia, entorpecendo meus membros. Meus pulmões ardiam. Justo quando pensei que não aguentaria mais um segundo, a jaula deu um solavanco para cima.
Ar. Ar doce e glorioso.
Eu emergi da água, ofegante, tossindo, meu corpo convulsionando. Minha garganta estava em carne viva. Todo o meu ser doía, cada músculo gritando em protesto. Agarrei-me às barras, tremendo violentamente, tentando colocar ar suficiente em meus pulmões em chamas.
A jaula continuou a subir, pingando água do mar, até que estava novamente pairando logo acima do píer. Meus olhos, ardendo de sal, procuraram por Ezequiel. Ele ainda estava lá, seu rosto ilegível. Isolda, no entanto, estava radiante, seus olhos brilhando de satisfação. Ela parecia ter acabado de ganhar na loteria.
Meu corpo estava fraco, mas meu espírito foi forjado de novo, endurecido pela provação. Eles queriam me quebrar? Eles falharam.
"Ezequiel!" Minha voz estava rouca, mas firme. "Você prometeu. Minha mãe. Você prometeu ajuda."
Ele olhou para mim, depois para Isolda. Seu olhar demorou em mim por um momento, um lampejo de algo que eu não consegui decifrar, antes de se fixar novamente em Isolda.
"Você aguentou, Brielle", disse ele, sua voz monótona. "Isolda, você viu?"
Isolda se aproximou, sua mão deslizando possessivamente na de Ezequiel. "Ela se saiu bem, considerando sua pequena fobia, querido. Mas agora acabou. Podemos deixá-la secar, como um peixe fora d'água."
"Não", insisti, minha voz ganhando força. "Você prometeu. Ajuda para minha mãe. Ela está... ela está ferida."
Ezequiel deu um aceno seco. "Mande um médico para o endereço dela. Primeiros socorros básicos. Nada mais."
Uma onda de alívio, misturada com uma nova onda de pavor, me invadiu. Pelo menos alguém estava indo. Mas "primeiros socorros básicos"? Meu coração afundou. Ele sabia que ela estava em estado crítico.
Então, Isolda ofegou. Sua mão voou para o estômago. "Oh, Ezequiel! Uma dor aguda! Meu bebê! Acho que... acho que algo está errado!" Ela agarrou a barriga, desabando dramaticamente contra ele. Sua voz estava tingida de um pânico fabricado.
O rosto de Ezequiel, que estava impassível, se contorceu de preocupação. Ele imediatamente a pegou nos braços, seu lampejo anterior de preocupação por mim desaparecendo completamente.
"Meu amor! O que foi? Você está bem?" Sua voz estava tingida de alarme genuíno, um contraste gritante com a indiferença fria que ele me mostrara. Ele a embalava como se ela fosse feita de vidro.
Isolda enterrou o rosto no ombro dele, sua voz abafada. "Eu não sei, Ezequiel. Parece... parece que algo está rasgando por dentro. O estresse... todo esse drama com Brielle... está machucando nosso bebê!"
Meu sangue gelou. Nosso bebê? As palavras me atingiram como um golpe físico, ainda mais forte que o frio do oceano.
O maxilar de Ezequiel endureceu. Ele lançou um olhar furioso para mim, ainda tremendo na jaula. "Brielle, olhe o que você fez!", ele rosnou, sua voz cheia de veneno. "Você colocou meu filho em perigo!"
"Ezequiel, não!", gritei, tentando desesperadamente explicar, contar a ele sobre as mentiras dela, sua manipulação. "Ela nunca esteve grávida! Ela está mentindo! Minha mãe-"
Ele me interrompeu. "Silêncio! Sua mãe já estava sem salvação de qualquer maneira. Você a abandonou. A culpa é sua, Brielle. Você levou Isolda longe demais."
Ele se virou para o operador do guindaste, sua voz um rosnado baixo. "Abaixe a jaula o suficiente para ela sair. Não a ajude. Deixe-a aí. Se ela tiver algum juízo, encontrará o caminho de casa. E certifique-se de que ninguém a ajude. Nenhuma alma viva."
Ele não esperou por uma resposta. Ele carregou Isolda para longe, de costas para mim, desaparecendo na escuridão. Isolda olhou para trás, um sorriso triunfante e perverso no rosto, antes de desaparecer.
"Espere! Ezequiel!", gritei, mas minha voz se perdeu no vento, no rugido do oceano. Ele se foi. Ele me abandonou, assim como abandonou minha mãe.
A jaula desceu novamente, uma queda lenta e torturante. Desta vez, parou logo acima da água, permitindo que eu me arrastasse para o píer. Minhas pernas estavam fracas, meu corpo entorpecido de frio e desespero. Tropecei, caindo de joelhos na madeira úmida e fria.
"Minha mãe", sussurrei, as palavras engasgadas com lágrimas. "Minha mãe..."
Eu estava sozinha, tremendo, encharcada e completamente quebrada. A dor no meu peito era uma dor física, um buraco aberto onde meu coração costumava estar. Minhas pernas se recusavam a se mover. Fiquei ali, encolhida no píer, o vento cortando minha pele exposta, o som das ondas um canto fúnebre por tudo que eu havia perdido.
Então, fracamente, ouvi uma voz. Era alguém do píer, falando com outro. "Você ouviu o que Ezequiel disse antes de sair? 'Apenas certifique-se de que ela receba o mínimo de cuidados. Nem mais, nem menos.' O que isso significa?"
Cuidados mínimos? Ele havia ordenado "primeiros socorros básicos" para minha mãe, depois revogou. Que cuidados mínimos? Para quem?
O mundo girou diante dos meus olhos. Meu corpo, levado além de seus limites pelo medo e pela dor, finalmente cedeu. Tudo ficou preto.
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