
O Acerto de Contas Final
Capítulo 2
Hoje é meu aniversário, o mesmo dia em que meu pai desapareceu na Amazônia há dez anos, e também o dia em que minha mãe, sem saber, está a caminho para analisar meu cadáver.
A ironia é tão densa que quase posso tocá-la, mesmo neste estado etéreo em que me encontro.
A dor da emboscada nas ruínas antigas ainda pulsa como uma memória fantasma, o frio da pedra contra minhas costas, o gosto de sangue e terra na boca. Patrícia, minha prima, com seu rosto contorcido de inveja, roubou o diário do meu pai e o mapa, me deixando para morrer.
Com minhas últimas forças, peguei o celular. Entre os tremores e a visão turva, disquei o número da minha mãe, Dona Clara. Eu só queria ouvir sua voz uma última vez, uma busca desesperada por uma conexão que perdemos há muito tempo.
O telefone chamou, cada toque um eco no silêncio da ruína. Finalmente, ela atendeu. Sua voz era como gelo, cortante e impaciente.
"O que você quer, Sofia? Estou ocupada comemorando com a Patrícia. Você não podia ter escolhido um dia pior para me perturbar?"
A menção do nome de Patrícia foi como um golpe físico. Tentei falar, mas apenas um som borbulhante saiu.
"Mãe..."
"Não me chame de mãe," ela cuspiu. "Você sabe o que este dia significa. É o dia em que você tirou seu pai de mim com essa sua obsessão doentia. A Patrícia, sim, ela é uma filha de verdade, ela me dá alegria, não dor. Francamente, Sofia, eu só tenho um desejo para você neste seu aniversário."
Houve uma pausa carregada de ódio.
"Espero que você morra."
A chamada terminou. E, de fato, o desejo dela se realizou.
Agora, o telefone de Dona Clara toca novamente. É do departamento de polícia. A voz do outro lado é profissional e sombria. Um corpo foi encontrado em umas ruínas antigas nos arredores da cidade. Um caso de homicídio brutal. Eles precisam da melhor perita da região para liderar a análise da cena do crime.
Eles precisam dela.
Minha mãe, a mulher que me desejou a morte, agora é a única que pode desvendar a verdade sobre meu assassinato.
Ela chega à morgue improvisada, seu rosto uma máscara de profissionalismo frio. O local fede a produtos químicos e morte. Ela veste seu jaleco branco, a postura rígida, os olhos focados.
E então, eles puxam a gaveta.
Meu corpo está ali, sob a luz fria e estéril. Desfigurado, quebrado, mas ainda eu.
Ela se inclina, com luvas, seus instrumentos em mãos. Ela analisa os ferimentos, a causa da morte, as marcas de tortura com uma distância clínica. Ela anota observações em sua prancheta, a caligrafia firme.
"A vítima sofreu trauma contundente na cabeça, múltiplas fraturas. Sinais de contenção nos pulsos," ela dita para o gravador, sua voz sem emoção.
Ela toca meu rosto, ou o que restou dele, para verificar a rigidez cadavérica. Suas mãos, as mesmas que uma vez me embalaram, agora me tratam como uma peça de evidência. Ela está tão perto, mas tão cega. A mãe que me amaldiçoou agora examina meu corpo sem derramar uma única lágrima, sem um pingo de reconhecimento.
A tragédia não é apenas a minha morte. É a dela também, só que ela ainda não sabe disso.
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