
O Acerto de Contas da Herdeira: Dez Anos de Mentiras
Capítulo 3
Ponto de Vista de Carolina Almeida:
Meus pecados?
A palavra pairou no ar, absurda e obscena. Pensei nos anos que passei aparando minhas próprias arestas para dar espaço a ele. Eu me afastei da empresa, deixando-o assumir o título de CEO, os holofotes, a glória. Fiz isso porque o amava, porque o sucesso dele parecia o meu.
Lembrei-me da agonia de perder nosso filho. Lembrei-me de Heitor, ajoelhado ao lado da pequena pedra que colocamos perto do lago, seus ombros tremendo de soluços. Ele me confessou então, através de suas lágrimas, que estava dirigindo rápido demais, que estava distraído, que o acidente foi culpa dele.
Ele jurou que passaria o resto da vida se redimindo. Ele prometeu, sua voz rouca com uma dor que eu pensei ser real: "Se eu algum dia te trair, Carolina, se eu algum dia quebrar esta promessa, que eu sofra mil cortes. Que eu engula mil agulhas."
Tornou-se nosso voto sombrio. Um trauma compartilhado que nos unia. Por anos, o assunto filhos foi uma porta fechada, um cômodo em nossa casa compartilhada que nunca entramos. Um acordo silencioso e mútuo para proteger uma ferida que nunca cicatrizaria completamente.
E agora ele estava falando sobre meus pecados.
Meu aperto no cabelo de Kátia afrouxou. Heitor, pensando que eu havia recuperado o juízo, soltou um suspiro de alívio.
"Carolina...", ele começou, sua voz suavizando, tentando me acalmar.
Eu não o deixei terminar.
Eu ainda tinha a adaga. Estava enfiada na cintura da minha calça. Minha mão se moveu, um borrão de movimento.
Eu não estava mirando no coração dele. Isso teria sido uma misericórdia.
Avancei e passei a lâmina pequena e afiada pela sua sobrancelha esquerda. Bem sobre a cicatriz. Seu "símbolo de honra".
Ele gritou, tropeçando para trás, a mão voando para o rosto. Sangue, escuro e rico, brotou instantaneamente, escorrendo por sua têmpora e em seu cabelo escuro e perfeito.
"Essa é a primeira", eu disse, minha voz mortalmente calma. "O preço da traição, Heitor. Estou apenas começando."
Olhei para a nova cicatriz, a que eu acabara de lhe dar. Estava fresca, irritada e vermelha. Arruinava a narrativa heroica. Era uma marca de vergonha. Eu sorri. Um sorriso fino e frio que não alcançou meus olhos.
"Heitor!", Kátia gritou, finalmente encontrando sua voz. Ela se afastou da parede e avançou sobre mim, me empurrando com uma força surpreendente. "Sua psicopata! Olha o que você fez com ele!"
Eu mal tropecei. Virei meu olhar frio para ela. "Tire suas mãos de mim."
Eu a esbofeteei, com força. O som ecoou no hall de entrada. Ela cambaleou para trás, seus olhos arregalados de choque e fúria.
"Você quer ser a dona desta casa?", perguntei, dando um passo lento em sua direção. "Você quer a minha vida? Acha que tem o que é preciso para mantê-la? Você é fraca. Uma parasita. E quando ele se cansar de você, ele vai te descartar como está tentando me descartar."
Inclinei-me para perto, minha voz um sussurro. "E quando ele fizer isso, eu estarei esperando. Eu vou te encontrar, e vou te tirar tudo. Você vai acabar de volta onde começou, sem nada. Eu te prometo isso."
Lágrimas escorriam por seu rosto, mas seus olhos continham uma centelha desafiadora. "Eu não vou a lugar nenhum", ela soluçou, sua voz trêmula, mas teimosa. "Eu o amo, e ele me ama! Você é quem vai ficar sem nada!"
Suas palavras, tão semelhantes aos votos que eu um dia fiz, me deram um choque. Uma memória, nítida e vívida, brilhou em minha mente.
O guincho de pneus. O cheiro de gasolina e meu próprio medo. O mundo se contorcendo, metal gemendo. E Heitor, no banco do motorista ao meu lado, soltando o cinto de segurança naquele segundo antes do impacto. Ele se jogou sobre mim, seu corpo um escudo humano.
"Carolina!", sua voz, um rugido desesperado do meu nome, foi a última coisa que ouvi antes que o mundo ficasse preto. Ele chamou meu nome como se fosse uma oração.
"Carolina, você foi longe demais."
Voltei ao presente. Heitor estava lá, pressionando um lenço na testa sangrando, seu rosto uma mistura de dor e incredulidade.
"Você se tornou um monstro", disse ele, sua voz plana.
"Você me criou", respondi.
"Eu nunca te amei", ele cuspiu, as palavras projetadas para infligir o máximo de dano. "Eu era grato. Seu pai me acolheu. Ele me deu uma chance. Eu devia a ele. Eu devia a você. Mas amor? Essa era a sua fantasia, não a minha."
Ele deixou as palavras pairarem no ar, uma torção final e cruel da faca.
"Minha paciência com você acabou, Carolina", ele avisou, sua voz baixa e perigosa. "Não me provoque mais."
Ele se virou de mim então, sua atenção se voltando para a garota chorando no chão. Ele se ajoelhou, acolhendo Kátia em seus braços, murmurando palavras suaves e reconfortantes para ela. Ele a segurou com uma ternura que não me mostrava há anos.
"Está tudo bem, meu bem", ele sussurrou, alto o suficiente para eu ouvir. "Eu estou com você. Ela não pode mais te machucar."
Kátia enterrou o rosto no peito dele. "Estou com tanto medo dela, Heitor", ela chorou. "Ela é louca."
Ele era o herói dela agora. E eu era a vilã.
A narrativa perfeita.
Você pode gostar





