
Nunca te amei, era só um tapa-buraco
Capítulo 2
Eu não me mexi. Nem naquele momento, nem quando as risadas cessaram, nem quando suas vozes mudaram para planejar seus próximos passos sem mim. Eu apenas fiquei ali, um fantasma no corredor, deixando suas palavras penetrarem nas partes mais profundas do meu orgulho ferido.
Quando finalmente me virei para sair, meus movimentos foram lentos, deliberados. Meu celular vibrou no meu bolso, uma vibração suave e insistente.
Era o toque especial, aquele que Caio reservava para a Fabi. Eu já o tinha ouvido vezes suficientes para reconhecê-lo, uma melodia alegre e irritante que costumava me dar um nó no estômago.
"Oi, meu bem", a voz de Caio, agora doce como mel, flutuou do escritório. Um contraste gritante com o tom insensível que ele acabara de usar para mim. "Chegou bem em casa?"
Ele prometeu que iria para lá imediatamente. Ele estaria lá em um piscar de olhos.
A urgência dele era chocante. Ele saiu correndo do escritório, quase colidindo comigo quando virei a esquina. Seu rosto, geralmente tão composto, registrou um lampejo de surpresa, depois algo parecido com irritação.
"Clara?", ele disse, franzindo as sobrancelhas. "O que você está fazendo aqui? Ainda aqui, quero dizer."
Ele pensou que eu ainda estava me agarrando. Ainda esperando por ele. Ainda esperando que ele voltasse para casa comigo, como eu sempre fazia.
Seus olhos passaram por mim, em direção à porta, depois de volta para o meu rosto com uma ponta de impaciência. Ele achou que eu estava ali para arrastá-lo, para fazê-lo perder seu encontro.
Ele costumava dizer que eu era possessiva, que o seguia como uma sombra. Era verdade, de certa forma. Eu me agarrei a ele, à ilusão que ele representava, com um desespero que agora reconhecia como doentio.
Eu apenas assenti, incapaz de formar palavras. O que havia para dizer?
Caminhamos em silêncio em direção ao elevador, a tensão entre nós espessa e sufocante. O pé dele batia impacientemente no chão polido. Ele continuava olhando para o relógio, depois para mim, como se desejasse que eu desaparecesse.
"Olha, eu preciso ir", ele disse de supetão, sua voz afiada. "A Fabi está com problemas de novo. O proprietário dela está implicando com o aluguel, e ela acabou de brigar com o pai."
Ele tinha aquele olhar preocupado, o que costumava me enganar, me fazendo pensar que ele realmente se importava. Agora, parecia apenas uma atuação.
"Você pode pegar um táxi, né?", ele perguntou, sem esperar por uma resposta. Não era uma pergunta. Era uma dispensa. "Te vejo mais tarde."
As portas do elevador se abriram, e ele sumiu em um instante, o carro preto elegante acelerando para longe do meio-fio. Eu o observei partir, uma risada amarga borbulhando na minha garganta.
Ele nunca, nem uma vez, me ofereceu uma carona naquele carro. Em cinco anos.
Mas ele estava correndo para salvar sua "caloura" de artes em apuros, a mesma caloura que ele frequentemente buscava em aulas noturnas, a mesma caloura que agora estava convenientemente sem-teto e, aparentemente, ocupando o espaço em seu coração que eu um dia pensei ser meu.
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