
Nunca Mais Vítima: A Luta Pelo Meu Filho
Capítulo 3
Chegámos a casa tarde, exaustos mas felizes. O Leo adormeceu no carro, agarrado a um balão do seu super-herói favorito.
Levei-o para o quarto, despi-o com cuidado e aconcheguei-o na cama. Beijei-lhe a testa e sussurrei: "Feliz aniversário, meu anjo."
Quando voltei para a sala, vi que tinha várias chamadas não atendidas do Tiago e mensagens da Dona Elvira.
Ignorei-as. Preparei um chá e sentei-me no sofá, finalmente a permitir-me processar o dia.
O telefone tocou de novo. Desta vez, atendi.
"Sofia, porque é que não me atendeste?" A voz do Tiago era dura.
"Estava a pôr o Leo na cama. Ele estava cansado."
"Claro que estava. Depois de um dia inteiro a 'celebrar'." Ele cuspiu a palavra com desprezo.
"Tiago, já tivemos esta conversa. O que é que queres?"
"Quero que venhas cá a casa. Agora."
"Agora? São quase onze da noite. O Leo está a dormir."
"Não me interessa. A minha mãe não está bem. Ela passou o dia inteiro a chorar. Ela quer ver-te."
Senti um arrepio. Sabia exatamente o que aquilo significava. Não era um convite, era uma intimação para mais uma sessão de tortura emocional.
"Eu não vou", disse eu, com firmeza. "A tua mãe precisa de ajuda profissional, não de um saco de boxe."
Houve um silêncio chocado do outro lado. Eu nunca lhe tinha falado assim.
"O que é que disseste?"
"Tu ouviste-me. Eu não vou aí para ser humilhada. Nem hoje, nem nunca mais. Acabou, Tiago."
"Acabou? Pensas que podes simplesmente decidir isso? Tu deves-nos isto! Deves à memória da Ana!"
"Eu não devo nada a ninguém! A morte da Ana foi um acidente trágico! Eu lamento mais do que possas imaginar, mas não foi culpa minha nem do Leo! E estou farta de ser tratada como uma criminosa!"
A minha voz subiu de tom, a raiva e a frustração de cinco anos a virem à superfície.
"És inacreditável", disse ele, com a voz gelada. "A Ana deu a vida por ti, e é assim que a honras? Ao recusares-te a consolar a mãe dela?"
"Consolar? Ou deixá-la culpar-me mais uma vez? Diz-me, Tiago, alguma vez defendeste o teu próprio filho? Alguma vez disseste à tua mãe que o Leo é inocente nisto tudo?"
Silêncio. Um silêncio que me deu a resposta de que eu precisava.
"Foi o que eu pensei", disse eu, a minha voz agora cansada. "Não me ligues mais hoje. Passa bem."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
O meu coração batia desalmadamente. Tremia, não de medo, mas de uma nova e estranha sensação de poder.
Pela primeira vez em cinco anos, eu tinha dito que não.
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