
Nunca Mais Serei Sua Vítima
Capítulo 2
Naquela noite, eu estava no hospital, sentada ao lado do meu pai. O cheiro de desinfetante era forte.
Meu pai, Miguel, acabara de sair da sala de cirurgia. Ele precisava de um transplante de rim, e o único doador compatível era eu.
Mas eu não pude doar.
Eu estava grávida de oito meses. O médico disse que a cirurgia seria muito arriscada para mim e para o bebê.
Liguei para o meu marido, Pedro. Ele não atendeu.
Liguei de novo. E de novo. A chamada foi para o correio de voz todas as vezes.
Eu sabia onde ele estava. Ele estava com a irmã dele, Sofia.
A família dele sempre veio primeiro. Eu era apenas uma estranha, mesmo depois de três anos de casamento.
Finalmente, desisti de ligar e enviei uma mensagem de texto.
"Onde você está? A cirurgia do meu pai terminou. Ele precisa de mim."
A resposta veio quase imediatamente, mas não era do Pedro. Era da Sofia. Ela deve ter pegado o celular dele.
"Catarina, o Pedro está ocupado. Eu não estou me sentindo bem, e ele está cuidando de mim. Você não pode lidar com o seu pai sozinha? Pare de ser tão carente."
A mensagem dela era fria. Olhei para o meu pai, pálido e fraco na cama do hospital.
Meu coração doeu. Eu não era carente. Eu estava assustada.
Uma enfermeira entrou no quarto para verificar os sinais vitais do meu pai. Ela sorriu para mim, um sorriso gentil.
"Ele vai ficar bem. Ele é forte."
Eu balancei a cabeça, tentando sorrir de volta.
Mais tarde naquela noite, o celular do meu pai tocou. Era um número desconhecido. Como ele ainda estava dormindo por causa da anestesia, eu atendi.
"Alô?"
Uma voz rouca e desconhecida respondeu. "Estou falando com Miguel Santos?"
"Não, ele está dormindo. Eu sou a filha dele, Catarina. Posso ajudar?"
Houve uma pausa. "Senhora, encontramos um rim compatível para o seu pai. De um doador falecido. A cirurgia pode ser agendada para amanhã."
Eu mal conseguia respirar. Meus olhos se encheram de lágrimas de alívio.
"Isso é... isso é maravilhoso! Obrigada! Muito obrigada!"
Desliguei e olhei para o meu pai. Ele estava salvo. Nós estávamos salvos.
Naquele momento, meu celular vibrou. Era uma mensagem do Pedro.
"Desculpe, estava ocupado. A Sofia precisava de mim. Como está o seu pai?"
A raiva substituiu meu alívio. Ele nem se importou em ligar.
Digitei uma resposta, com os dedos tremendo.
"Não se preocupe. Encontramos um doador. E, a propósito, eu quero o divórcio."
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