
Nunca Mais Serei a Vítima: A Minha Vez de Jogar
Capítulo 2
A notificação de transferência bancária de 50.000 euros chegou ao meu telemóvel.
Foi enviada por Leonardo, o meu noivo.
Juntamente com o dinheiro, veio uma mensagem de texto.
"Sofia, o casamento está cancelado. Não voltes a contactar-me."
Olhei para o texto, depois para o meu reflexo no espelho do quarto de hotel. O vestido de noiva branco puro parecia uma piada cruel.
O nosso casamento estava marcado para amanhã. Os nossos amigos e familiares já tinham chegado a Lisboa.
E agora ele queria cancelar tudo com uma única mensagem.
Agarrei no telemóvel, as minhas mãos a tremer ligeiramente, e liguei para o Leonardo.
A chamada foi atendida rapidamente, mas não era a voz dele.
"Sofia, sou eu."
Era a voz da minha irmã mais nova, Clara. Soava fraca e um pouco culpada.
"O Leo está a tomar banho. O que se passa?"
O meu cérebro ficou em branco por um segundo.
"Onde estão vocês?"
A minha voz saiu mais calma do que eu esperava.
"Estamos no hospital. Eu... eu caí das escadas. O médico disse que posso ter sofrido um aborto espontâneo."
Um aborto espontâneo?
Senti o meu coração apertar no peito.
"Passa o telemóvel ao Leonardo. Agora."
Houve um silêncio, depois o som de movimento. A voz do Leonardo chegou, fria e distante.
"O que queres?"
"O que significa aquela mensagem? Vais cancelar o casamento? Porquê?"
Ele suspirou, um som de pura irritação.
"A Clara está no hospital, ela pode perder o bebé. Não tenho tempo para lidar contigo agora. Falamos depois."
"O bebé dela?" perguntei, a minha voz a subir uma oitava. "Que bebé? Leonardo, de quem é o bebé?"
Ele não respondeu. O silêncio dele foi a resposta mais alta de todas.
"É teu, não é?"
"Sofia, não compliques as coisas," disse ele, a sua voz dura. "A Clara precisa de mim. Ela está sozinha e assustada."
Sozinha? A nossa mãe estava com ela. O nosso pai estava com ela. Toda a nossa família estava a correr para o hospital para a apoiar.
Eu estava sozinha, num quarto de hotel, com o meu vestido de noiva.
"Então e o nosso casamento, Leonardo? E nós?"
"Já te disse, está cancelado! Será que não entendes? A minha prioridade agora é a Clara!"
Ele desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel, o ecrã escuro a refletir o meu rosto pálido.
Tentei ligar de volta. O número estava ocupado. Tentei outra vez. Ocupado.
Ele tinha-me bloqueado.
Ri, um som oco e sem alegria.
A Clara, a minha doce e inocente irmã mais nova. A que sempre precisei de proteger.
Ela estava a ter um caso com o meu noivo. E estava grávida dele.
Tudo fazia sentido agora. As chamadas secretas, as desculpas esfarrapadas do Leonardo para trabalhar até tarde, a forma como a Clara evitava o meu olhar ultimamente.
Eu tinha sido uma idiota.
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