
Nunca Mais Serei a Segunda Opção
Capítulo 3
Acordei num quarto de hospital branco e estéril. A minha perna estava engessada e elevada. Um médico de ar sério estava ao pé da minha cama, a olhar para uma prancheta.
"Senhora Alves," disse ele. "Teve sorte. A fratura foi grave, uma fratura exposta na tíbia. Vai precisar de cirurgia, pinos e placas. A recuperação será longa."
Eu assenti em silêncio. Longa. Pelo menos eu estava viva.
A porta abriu-se e o Mateus entrou. Atrás dele, como uma sombra, estava a Sofia. O pulso dela estava enfaixado.
"Clara," disse o Mateus, a sua voz baixa. "Como te sentes?"
Eu olhei para ele, depois para a Sofia, que se escondia atrás dele, a olhar para o chão.
"Como é que achas que me sinto?" respondi, a minha voz fria como gelo.
"Olha, eu sei que estás zangada," começou ele. "Mas a Sofia estava em pânico. Ela tem ansiedade, tu sabes disso. Eu tinha de a acalmar primeiro."
"Ela tinha um arranhão, Mateus. Eu tinha um osso a sair da minha perna."
A Sofia começou a chorar baixinho. "Desculpa, Clara. Eu não queria causar problemas. Eu estava tão assustada."
"Não é culpa tua, Sofia," disse o Mateus rapidamente, lançando-lhe um olhar tranquilizador. Depois virou-se para mim, a sua expressão a endurecer. "Não podes ser um pouco mais compreensiva? Foi um acidente. Todos estávamos em choque."
"Compreensiva?" Eu ri, um som amargo que me arranhou a garganta. "Tu deixaste-me presa num carro destruído para ires confortar a tua 'amiga' por causa de um pulso torcido. Não me peças para ser compreensiva."
"Eu ia chamar ajuda para ti!" ele elevou a voz. "O que é que querias que eu fizesse? Rasgasse o carro com as minhas próprias mãos?"
A porta abriu-se novamente. Era a minha mãe, o rosto dela pálido de preocupação. Ela parou, a olhar para a cena: eu na cama, o Mateus a gritar, e a Sofia a chorar ao seu lado.
"O que se passa aqui?" perguntou a minha mãe, a sua voz afiada.
O Mateus recuou, parecendo um rapaz apanhado em flagrante. "Nada. Estávamos só a conversar."
A minha mãe ignorou-o. Veio diretamente para o meu lado, pegando na minha mão. "Oh, minha filha. O médico ligou-me. Como estás?"
"Vou ficar bem, mãe."
O olhar da minha mãe passou para o Mateus e para a Sofia. "E vocês os dois? O que estão a fazer aqui? Não já causaram danos suficientes?"
"Senhora Dias, eu..." começou o Mateus.
"Não quero saber," cortou a minha mãe. "Saiam. A minha filha precisa de descansar."
O Mateus abriu a boca para protestar, mas o olhar da minha mãe era de aço. Ele agarrou no braço da Sofia e saíram do quarto.
Assim que a porta se fechou, eu desabei. As lágrimas que eu tinha segurado finalmente caíram. A minha mãe abraçou-me, e eu chorei no ombro dela.
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