
Nunca Mais Rejeitada
Capítulo 2
O meu telemóvel vibrou na mesa de cabeceira do hospital, o som agudo a cortar o silêncio do quarto.
Eu tinha acabado de sair de um parto de emergência, induzido pelo stress de um incêndio no nosso prédio. O meu corpo doía, uma dor surda e profunda que a anestesia não conseguia apagar completamente.
Estiquei a mão trémula e agarrei o telemóvel. Não era uma chamada, era uma notificação do Instagram.
Clara, a amiga de infância do meu marido, tinha publicado uma foto.
Nela, o meu marido, Pedro, abraçava-a com força. O rosto dela estava manchado de fuligem, enterrado no peito dele. A legenda dizia: "O meu herói. Obrigada, Pedro, por me salvares a mim e ao Miau. Sem ti, não sei o que teria feito."
Atrás deles, o nosso prédio ardia, com fumo negro a subir para o céu.
O meu filho recém-nascido, Léo, estava na incubadora da UCI neonatal, a lutar pela vida.
Eu estava sozinha no quarto de hospital.
Senti um frio que não vinha do ar condicionado. Respirei fundo e disquei o número de Pedro.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente falou, a sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi, Sofia? Estou ocupado. Não consegues ver as notícias? Houve um incêndio."
"Eu sei," a minha voz saiu rouca. "Eu estava lá. O nosso Léo nasceu."
Houve um silêncio do outro lado. Depois, ele suspirou.
"Olha, a Clara está em choque. O gato dela, o Miau, inalou muito fumo e está no veterinário de emergência. O pai dela está a viajar, e eu sou a única pessoa que ela tem."
A voz fraca e chorosa de Clara soou ao fundo. "Pedro, o veterinário disse que o Miau pode não sobreviver... É tudo culpa minha."
"Não te preocupes, Clara, eu estou aqui," a voz de Pedro tornou-se suave, cheia de conforto.
O meu coração, que eu pensava já estar partido, pareceu partir-se outra vez.
Eu e o nosso filho recém-nascido, em estado crítico, não éramos tão importantes como a amiga dele e o gato dela.
"Pedro," eu disse, com uma calma que me surpreendeu a mim mesma. "Vamos divorciar-nos."
Ele explodiu.
"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? A Clara precisava de mim! O nosso filho acabou de nascer e já queres destruir a família? Tens alguma empatia?"
"Onde estavas tu quando as contrações começaram no meio do fumo? Eu liguei-te dezassete vezes, Pedro."
"Eu não ouvi! Estava a tirar a Clara do prédio! Não sejas egoísta, Sofia. Pensa no teu filho!"
Ele desligou.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
Olhei para a minha barriga, agora vazia e flácida. As lágrimas que eu segurava finalmente caíram, quentes e silenciosas.
Ele tinha razão. Se Léo estivesse bem, nos meus braços, eu provavelmente aguentaria qualquer coisa por ele, para lhe dar uma família completa.
Mas Léo não estava bem. E a única coisa que me prendia a Pedro era uma mentira.
Salvar a Clara não foi um desvio. O apartamento dela era no lado oposto do prédio. Para chegar a ela, ele teve de passar pela nossa porta. Ele teve de ignorar o fumo que saía debaixo da nossa porta.
Ele não se importava.
Nesse momento, o telemóvel da minha mãe, que estava na cadeira ao lado da minha cama, começou a tocar. Ela tinha vindo ajudar-me nos últimos dias da gravidez e também tinha sido apanhada no incêndio, inalando fumo. Ainda estava a dormir, exausta.
No ecrã, brilhava o nome "Ricardo". O meu sogro.
Atendi.
A voz dele era um trovão. "Sofia! Que raio de ideia é essa de divórcio? O Pedro salvou uma vida! Devias ter orgulho nele, não criar dramas! A tua mãe não te ensinou a ser uma esposa decente?"
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