
Noventa e Nove Vezes, e Nunca Mais
Capítulo 3
A equipe de relações públicas de Júlia estava trabalhando horas extras. Quando Ricardo e eu chegamos, a narrativa estava definida: Júlia Carvalho, a amada queridinha da música indie, era vítima de uma campanha de difamação cruel, provavelmente orquestrada por uma parte ciumenta.
Nossa aparição juntos foi um golpe de mestre. Ricardo Vargas, o poderoso CEO, ao lado de sua esposa, Helena, que também era irmã adotiva de Júlia. Era a refutação perfeita e tácita aos rumores. Gritava solidariedade.
Júlia nos viu, e sua performance entrou em alta velocidade. Ela correu em nossa direção, o rosto uma máscara de alívio manchado de lágrimas.
"Helena! Ricardo! Que bom que vocês estão aqui!", ela chorou, jogando os braços ao meu redor. Seu aperto era surpreendentemente forte, suas unhas cravando em meu braço. "Eu sabia que vocês não acreditariam naquelas mentiras horríveis."
Fiquei rígida em seu abraço, meu sorriso congelado no rosto. Eu era uma marionete, e ela e Ricardo eram os mestres das marionetes. Eu desempenhei meu papel, murmurando algo sobre amor fraterno e a crueldade da mídia.
A multidão avançou, uma mistura caótica de fãs e repórteres. As pessoas estavam empurrando, gritando. Uma barreira de segurança cedeu. Vi um pesado refletor de palco precariamente equilibrado em um suporte começar a balançar. Estava diretamente acima de nós.
Tentei recuar, me afastar de Júlia, mas ela me segurou firme.
"Fique perto, irmãzinha", ela sussurrou, sua voz um silvo venenoso em meu ouvido. "É perigoso."
Ela sabia. Ela viu o refletor também. E ela não ia me deixar ir.
No momento seguinte, tudo aconteceu de uma vez. O suporte do refletor tombou. Júlia não tentou me tirar do caminho. Em vez disso, ela me empurrou para frente, diretamente em sua trajetória, e então se jogou para o lado com um grito teatral.
Era um plano perfeito. Exceto que, quando o suporte caiu, o pesado refletor se soltou e balançou para o lado. Ele me errou completamente e atingiu o ombro de Júlia enquanto ela se afastava. Ela gritou de novo, desta vez com dor genuína, embora pequena.
Ricardo, que estava observando tudo acontecer, não hesitou. Ele se lançou na multidão, seus olhos apenas para Júlia. Ele a pegou nos braços, o rosto frenético de preocupação.
"Júlia! Você está bem? Fale comigo!"
Ele nem sequer olhou para mim.
Eu fui empurrada com tanta força que tropecei para trás e caí. Aterrissei com força, meu rosto batendo no chão frio de concreto. O impacto me deixou sem ar e, por um momento, não consegui respirar, não consegui emitir um som.
Enquanto eu estava ali, atordoada, senti uma dor lancinante e ofuscante na minha lateral. Olhei para baixo. Um pedaço de vergalhão da barreira de segurança quebrada, afiado e enferrujado, estava projetado para cima do chão. Minha queda o havia cravado fundo no meu abdômen.
A multidão, como uma maré, seguiu Ricardo e Júlia enquanto ele a carregava em direção à saída. As pessoas gritavam, corriam. Alguém pisou na minha mão. Outro chutou minha perna. Eu era invisível, um pedaço de lixo deixado para trás no caos.
Sangue quente e pegajoso começou a encharcar meu vestido. A dor era imensa, um fogo se espalhando por todo o meu corpo. Tentei chamar o nome dele.
"Ricardo..."
Foi um sussurro, perdido no barulho.
Ele já estava na porta, abrindo caminho. Ele não se virou. Ele não olhou para trás. Ele simplesmente desapareceu, com ela nos braços.
Fiquei ali, observando-o ir. O último resquício de esperança em meu coração murchou e morreu.
Era isso. O ato final.
Eu vinha mantendo uma contagem silenciosa na minha cabeça por cinco anos. Cada crueldade deliberada, cada traição casual. As noventa e nove vezes que ele quebrou meu coração. E agora, isso. Deixar-me para morrer em um chão frio e sujo enquanto ele salvava a mulher que tentou me matar.
Este era o número cem.
O número que eu prometi a mim mesma que seria o fim.
Minha visão começou a embaçar. Os sons da multidão se transformaram em um rugido abafado. A última coisa que vi antes de desmaiar foi um segurança de rosto gentil ajoelhado ao meu lado, o celular no ouvido, a voz urgente.
"Precisamos de uma ambulância. Agora. Uma mulher está sangrando até a morte."
Então, tudo ficou preto.
Passei horas na cirurgia. Quando acordei, a primeira coisa que ouvi foram as vozes sussurradas e indignadas de duas enfermeiras.
"Você acredita? A estrela pop, Júlia Carvalho, ganha uma suíte VIP inteira por um ombro machucado. Eles trouxeram todos os especialistas da cidade para vê-la."
"Enquanto isso, esta aqui, a Sra. Vargas, quase morreu. O vergalhão errou a artéria principal dela por um milímetro. E o marido dela? Não apareceu nenhuma vez. Tentamos ligar para ele, para o assistente dele, para todo mundo. Ninguém atendeu."
A ironia era tão espessa que eu poderia ter engasgado com ela.
Sozinha. Eu tinha um marido, um pai, uma irmã. Mas no final, eu estava completamente sozinha.
A dor na minha lateral era uma pontada surda e constante. Mas não era nada comparada ao vazio dentro de mim.
Fechei os olhos e voltei a mergulhar na escuridão.
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