
Nosso Amor, Nossa Destruição Mútua
Capítulo 3
Ponto de Vista: Dália
Lembrei-me de minha mãe me dizendo que esta pequena loja era tudo o que ela tinha para me deixar. Ela a comprou com sua própria herança, uma pequena economia que protegeu ferozmente. Depois que ela morreu, tornou-se minha única âncora. Agora, tinha se tornado uma pilha de madeira molhada e lascada e vidro quebrado. Outro pedaço da minha história apagado por Bento Ferguson.
A dor no meu abdômen era um nó quente e retorcido. Eu queria me encolher no chão e esperar o mundo acabar, mas a agonia não me deixava descansar. Fiquei lá a noite toda, encharcada até os ossos, a chuva fria um batismo impiedoso.
O noticiário da cidade era uma cacofonia de especulações. "O Retorno Impiedoso de Bento Ferguson: Vingança Contra uma Ex-Amante?" As manchetes eram sensacionalistas, me pintando como uma ex-amargurada e ele como um magnata vingativo. Não estavam totalmente errados.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram o teto quebrado, eu finalmente me movi. Ajoelhei-me nos escombros e pressionei minha testa no chão molhado e sujo. Era uma despedida. Eu estava procurando pela placa memorial da minha mãe, uma pequena e simples placa de madeira que eu guardava atrás do balcão. Tinha sumido. Perdida nos destroços. Este gesto era tudo o que me restava.
"Rezar por perdão?"
Sua voz, suave e zombeteira, cortou o silêncio da manhã. Bento estava na porta, uma silhueta contra o sol nascente.
"O quê, perdeu um brinco?", ele provocou, aproximando-se.
Eu não respondi. Apenas me levantei e comecei a andar, meu corpo gritando em protesto a cada passo.
"Eu te fiz uma pergunta", disse ele, agarrando meu braço.
Eu me virei, minha força restante explodindo em uma fúria branca e incandescente. Dei uma joelhada nele, com força, no estômago. Ele grunhiu, curvando-se.
"Eu estava me despedindo da minha mãe", cuspi, minha voz rouca. "Você destruiu o memorial dela."
Ele se endireitou, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos antes de ser substituído por sua arrogância fria de sempre. "É só isso? Eu te compro um novo. Um maior. De ouro, se você quiser."
Eu apenas o encarei, a profundidade de sua crueldade um abismo entre nós. Então me virei e fui embora, deixando-o nas ruínas.
Ele me seguiu pela rua, seus passos ecoando os meus. "Fugindo de novo, Dália? É só para isso que você serve."
Eu não diminuí o passo. "Vá brincar com seu novo brinquedo, Bento. Ouvi dizer que ela é muito 'sofisticada'."
Eu sabia por que ele estava de volta. Ele não suportava que eu o tivesse deixado. Ele não suportava que eu tivesse construído uma vida, por menor e frágil que fosse, sem ele. Ele tinha que provar que ainda me possuía.
Meu corpo era um traidor. Eu queria lutar com ele, machucá-lo, queimar o mundo dele assim como ele fez com o meu. Mas eu não tinha forças. A doença estava vencendo.
Consegui chegar ao hospital para minha consulta de acompanhamento. A Dra. Howell e sua equipe olharam para meus novos exames, seus rostos uma máscara cuidadosamente construída de neutralidade profissional. Mas eu vi a pena em seus olhos.
"Dália", começou a Dra. Howell, sua voz gentil. "Quantos dos novos analgésicos você ainda tem?"
"Nenhum", eu disse.
Seus olhos se arregalaram. "Era um suprimento para três meses. Você pegou na semana passada."
Ela não precisava dizer as palavras. Eu sabia. O câncer era um incêndio florestal agora, queimando através de mim, e eu estava jogando gasolina nele, tentando entorpecer uma dor que estava se tornando absoluta.
"Há algum familiar que possamos ligar?", ela perguntou, seu olhar suave. "Um amigo?"
"Eu tenho alguém que vai reclamar o corpo", eu disse, as palavras da nossa ligação com gosto de ácido na minha língua. "Ele prometeu."
Sua testa se franziu. "Suas emoções têm estado tão voláteis ultimamente. Isso não é típico de você."
Não, não era. A antiga eu, a de antes do retorno de Bento, estava calma. Eu tinha aceitado meu destino. Mas ele arrancou essa paz, forçando-me de volta a uma guerra para a qual eu não estava mais equipada para lutar. Olhei para o meu celular. Um alerta de notícias piscou na tela: "Ferguson Promete 'Limpar' os Bairros Degradados de Curitiba." Ele era a doença, e eu era a praga que ele queria apagar.
"Se você parar a medicação", disse a Dra. Howell, sua voz firme, "a dor será... inimaginável. Você não durará um dia."
Ela me entregou uma nova receita, seus olhos suplicantes. "Por favor. Apenas um de cada vez."
Peguei o frasco dela e, assim que saí de seu consultório, encontrei um canto tranquilo no hospital e engoli um punhado.
O alívio foi temporário, um breve cessar-fogo antes que a dor se reagrupasse e atacasse novamente. Encolhi-me em um banco, tremendo, tentando respirar através da agonia.
Foi quando os ouvi novamente. A mãe e a filha pequena do outro dia, passando.
"Mamãe, aquela moça está chorando", a menina sussurrou.
"Shh, não encare, querida."
"Mas ela parece tão triste. Ninguém se importa com ela? Se ela morrer, quem vai ficar triste por ela?"
Eu olhei para cima, e meu celular vibrou na minha mão. Uma mensagem de Bento.
`Já está pronta para voltar para mim?`
Um pensamento frio e terrível criou raiz em minha mente. *Quem vai ficar triste por mim?* Talvez ninguém. Mas eu conhecia alguém que seria forçado a reconhecer minha existência, mesmo na morte. Alguém que havia prometido.
Ele poderia carregar meu caixão.
Levantei-me, minha determinação se solidificando. Fui para uma escadaria deserta, o ar frio e úmido. Disquei o número dele novamente.
Ele atendeu instantaneamente, como se estivesse esperando. "Decidiu que sentiu minha falta?"
"Eu pensei sobre isso", eu disse, minha voz firme apesar dos tremores que percorriam meu corpo.
"E?"
Respirei fundo. "Bento", eu disse, as palavras claras e precisas. "Venha buscar meu corpo."
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