
Noiva Trocada, Vida Renovada
Capítulo 2
Isabel Botelho POV:
Voltei para casa, o corpo pesado, mas a mente em chamas. Comecei a arrumar minhas coisas. Cada peça de roupa que dobrava, cada livro que colocava na mala, era um adeus.
Rodrigo apareceu na porta do quarto, um sorriso no rosto. Ele segurava um enorme buquê de flores.
"Meu amor, voltei! Resolvi tudo. Senti tanto a sua falta."
Ele se aproximou, estendendo as flores. Seus olhos tentavam parecer sinceros, mas havia algo forçado.
"Essas flores são para você. Eu sei que não fui o melhor hoje, mas eu te amo, Isabel. Você é a única."
Meu olhar pousou nas flores. As pétalas estavam um pouco murchas. Um leve cheiro de perfume diferente pairava no ar. Não era o meu.
Eu ri. Um riso seco, sem humor.
"Por que você está rindo, Isabel? Você está bem?"
A preocupação dele parecia genuína, mas era um reflexo do seu próprio egocentrismo. Ele não ria de mim, mas da ridícula situação.
"Estou ótima."
Peguei o buquê, sentindo a textura das pétalas. Então, meus olhos pousaram em seu colarinho. Uma mancha de batom. Vermelho vibrante. Não era o meu.
"Rodrigo, o que é isso no seu colarinho?"
Minha voz era calma, quase doce. Ele congelou. Seus olhos se arregalaram. O sorriso vacilou.
Ele levou a mão ao pescoço, o rosto empalidecendo. Meu coração batia forte. Ele estava assustado.
"Ah, isso? Não é nada. Acho que... esbarrei em alguém na multidão."
Ele tentou limpar, mas a mancha apenas borrou. Sua voz estava um tom mais alta que o normal.
"Deixe-me. Eu lavo para você."
Peguei a camisa de sua mão. Ele me olhou, surpreso.
"Não precisa, meu amor. Eu peço para a empregada."
"Não. Eu faço. Minhas mãos são mais delicadas para manchas difíceis."
Eu sorri, um sorriso que não alcançava meus olhos. Ele hesitou, depois relaxou.
"Você é a melhor, Isabel. Eu te amo tanto!"
Ele me beijou a testa, aliviado, e foi para o banho. Ele não fazia ideia do que estava por vir.
Eu segurei a camisa, sentindo o batom pegajoso sob meus dedos. A raiva subiu, quente e corrosiva. Sem pensar, rasguei o tecido onde a mancha estava. Um rasgo limpo, preciso.
Ele saiu do banho, ainda com a aura de outro perfume, mais forte agora. Eu o entreguei a camisa rasgada.
"Ah, não! Meu terno favorito! O que aconteceu?"
Ele olhou para o rasgo, depois para mim, sem conseguir esconder o aborrecimento.
"Eu estava tentando tirar a mancha. Acho que a máquina estava muito forte. Desculpe."
Minha voz era suave, quase inocente.
"Não se preocupe, meu amor. Eu compro outro. Aliás, é bom ter coisas novas, não é? As velhas às vezes nos trazem azar."
Eu olhei para ele, um significado oculto em minhas palavras. Mas ele apenas coçou a cabeça, aliviado.
"É verdade! Melhor um novo. Esqueça esse velho."
Ele me abraçou, o cheiro de Tatiana ainda impregnado nele. Senti náuseas.
As lágrimas vieram, quentes e silenciosas. Eu o amava tanto. Quando o conheci, eu era uma jovem designer talentosa, mas cautelosa. Ele era charmoso, persistente. Lembro-me de resistir aos seus avanços, querendo manter minha independência.
Mas ele não desistia. E então, em um momento de desespero, quando minha galeria quase faliu, ele apareceu como um herói. Ele investiu na minha empresa, salvando-a. Ele disse que me amava, que queria construir um futuro comigo. Eu acreditei. Eu me entreguei.
"Eu serei seu para sempre, Isabel. E você será minha. Eu prometo."
Lembrei-me das palavras dele, daquele dia, há cinco anos. As palavras ecoavam na minha mente, torturando-me com a ironia.
Eu havia avisado. Há muito tempo. Em uma briga boba sobre fidelidade.
"Se um dia você me trair, Rodrigo, eu me caso com o primeiro homem que aparecer. E você nunca mais me verá."
Ele tinha rido, achando que era uma ameaça vazia.
Eu o tinha perdido. Ou talvez nunca o tivesse tido de verdade. A dor era insuportável.
Ele me viu chorar. Seus olhos se arregalaram.
"Isabel? Meu amor, por que você está chorando? O que houve?"
Ele me abraçou, suas mãos em minhas costas. Eu não o afastei. Não ainda.
"Está tudo errado, Rodrigo. Tudo."
Minha voz estava embargada. Ele não entendeu. Não poderia entender.
"Está tudo bem, meu amor. Eu estou aqui. Está tudo bem."
Ele alisava meus cabelos. Eu sabia que ele me enganava. Sabia que ele me traía. E sabia que a promessa que eu fizera, em um momento de raiva juvenil, se tornaria a minha salvação.
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