
Noiva Renascida, Não Mais Sua Vítima
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alice Arruda:
Meus olhos piscaram, mas não ousei me virar. Não queria que ele visse a gratidão patética que eu tinha certeza que estava estampada no meu rosto.
"Não me entenda mal," a voz fria de Caio cortou o ar, como se tivesse lido minha mente. "Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo por eles. É o mínimo que eles merecem depois de..." Ele parou, mas as palavras não ditas pairaram no ar: depois que a filha deles os abandonou.
"Obrigada," consegui dizer, minha voz um sussurro seco. Fugi da sala antes que as lágrimas pudessem cair.
De volta ao quarto de hóspedes estéril, encarei meu reflexo. As roupas que eu usava há dois dias estavam amassadas e manchadas. Eu não tinha mais nada. Nada apropriado para usar no funeral dos meus próprios pais, cinco anos atrasada. O pensamento me trouxe uma nova onda de vergonha.
Uma batida forte na porta me fez pular. Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu.
Era Karina. Ela entrou deslizando, seguida pela empregada, Maria, que carregava uma seleção de vestidos pretos. O sorriso de Karina estava perfeitamente pintado, mas seus olhos eram frios, avaliadores.
"Pensei que você pudesse precisar de algo para vestir," ela disse, sua voz pingando falsa preocupação. "Pedi para a Maria pegar algumas coisas do meu armário. Temos quase o mesmo manequim, não é?"
Ela gesticulou para Maria pendurar os vestidos na porta do guarda-roupa. Eram lindos, caros e totalmente estranhos.
"O Caio me mima demais," Karina suspirou, passando a mão por um vestido de seda justo. "Ele insiste que eu tenha o melhor de tudo. Ele diz que cuidar de mim é seu maior prazer agora."
Cada palavra era um dardo cuidadosamente apontado. Ela estava me mostrando seu poder, seu lugar na vida dele. Ela era a quem ele mimava agora, a quem ele cuidava. Eu era apenas um fantasma em roupas emprestadas.
"Ele é um homem diferente desde que me conheceu," ela continuou, seus olhos encontrando os meus no espelho. "Mais centrado. Ele diz que eu o salvei da escuridão depois que você foi embora."
Olhei para os vestidos pretos, sua austeridade um espelho do vazio em meu peito. Eu não podia usar as roupas dela. Parecia mais uma camada de rendição, mais um pedaço de mim que eu estaria entregando a ela.
"Obrigada," eu disse, minha voz tensa. "Mas vou usar minhas próprias coisas."
O sorriso dela vacilou por um segundo.
"Como quiser," ela disse, seu tom de repente afiado. Ela se virou e saiu do quarto, com Maria a seguindo.
Escolhi meu próprio jeans escuro e o suéter amassado com que cheguei. Era inadequado, mas era meu.
O motorista que me esperava era um rosto familiar. Francisco. Ele era o motorista de Caio há anos, um homem gentil e quieto que sempre me tratou com carinho.
Seus olhos se arregalaram de choque quando me viu.
"Senhorita Arruda? Alice? É você mesma?"
"Sou eu, Francisco," eu disse, um sorriso fraco tocando meus lábios.
"Nós todos... nós todos pensamos que você estava..." Ele parou, seu rosto cheio de confusão e pena.
Eu não podia lhe contar a verdade. As palavras soariam como loucura.
"É uma longa história," eu disse, minha voz cansada.
O trajeto foi silencioso por um tempo, então Francisco falou, sua voz baixa.
"Ele mudou depois que a senhorita foi embora. Muito. Demitiu todos os funcionários antigos, qualquer um que te conhecia. Disse que não queria nenhuma lembrança."
Meu coração se apertou. Ele havia sistematicamente apagado todos os vestígios de mim.
"E então, cerca de seis meses depois, ele se casou com ela," Francisco continuou, seus olhos no retrovisor. "A senhora Almeida... Karina. Ele a trata como se fosse de cristal. Melhor do que ele jamais... bem, ele é muito bom para ela."
Ele parou, percebendo que havia falado demais. Mas o estrago estava feito. O último fiapo de dúvida que eu tinha foi extinto. Não foi um rebote. Não foi para mostrar. Ele a amava. Mais do que ele jamais me amou.
A foto da coluna de fofocas brilhou em minha mente. O jeito que ele estava olhando para ela. Não tinha sido um erro de uma noite. Tinha sido o começo. Ele já estava se apaixonando por ela naquela época, enquanto ainda estava noivo de mim. A traição era mais profunda, mais antiga do que eu sequer imaginava.
O cemitério era silencioso e verde. Encontrei seus túmulos lado a lado sob um grande carvalho. Roberto Arruda. Amado Esposo e Pai. Maria Arruda. Amada Esposa e Mãe.
Caí de joelhos, a dor que eu vinha segurando finalmente me dominando. Deitei a cabeça na pedra fria do túmulo da minha mãe e chorei, meu corpo tremendo com soluços silenciosos e irregulares. Não sei quanto tempo fiquei ali, perdida em um mar de culpa e tristeza.
"Me desculpem," sussurrei para eles, minha voz quebrando. "Vou consertar isso. Eu prometo. Eu vou voltar. Vou impedir que isso aconteça."
Quando voltei para a casa, ela estava silenciosa. Eu estava emocional e fisicamente esgotada. Tudo o que eu queria era rastejar para a cama e esperar os sete dias passarem.
Karina me encontrou no corredor. Ela segurava uma caneca fumegante.
"Você parece exausta," ela disse, sua máscara simpática de volta no lugar. "Pedi para a cozinha preparar um chá de camomila para você. Vai te ajudar a descansar."
Ela estendeu para mim. Eu hesitei. Eu não confiava nela.
O sorriso dela se apertou.
"Ah, Alice," ela disse, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você não precisa fingir comigo. Eu sei que você está grávida."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. Como? Como ela poderia saber? Meu sangue gelou.
"Eu vi as vitaminas pré-natais na sua bolsa quando a Maria estava verificando," ela disse, seus olhos brilhando com um triunfo cruel. "Não se preocupe. Seu segredo está seguro comigo."
A caneca em sua mão de repente pareceu sinistra. O cheiro do chá fez meu estômago revirar. Senti uma onda de náusea, tão forte que tive que me apoiar na parede.
Passei por ela correndo para o banheiro mais próximo, esvaziando o conteúdo do meu estômago no vaso sanitário. O vômito foi violento, me deixando fraca e trêmula.
Quando finalmente saí, limpando a boca com as costas da mão, Karina estava encostada no batente da porta, de braços cruzados, o ato simpático completamente desaparecido.
"Você acha mesmo que pode voltar aqui, grávida de outro homem, e reconquistá-lo?" ela zombou, sua voz pingando veneno.
"Não é filho de outro homem," eu disse, minha voz tremendo com uma mistura de fraqueza e fúria.
"Ah, por favor," ela desdenhou. "Você nos toma por idiotas?"
De repente, a porta no final do corredor se abriu. Caio estava lá, seu rosto uma nuvem de tempestade. Ele deve ter ouvido a comoção.
A expressão de Karina mudou em um instante. Seu rosto se contraiu, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela se virou para ele, sua voz um sussurro ferido.
"Caio... eu... eu não queria te contar assim. Mas a Alice... ela está grávida."
O olhar de Caio se voltou para mim. Seus olhos, já frios, se transformaram em gelo. Ele caminhou em minha direção, sua mandíbula tensa com uma raiva mal controlada.
"Você está grávida?" ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
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