
Noiva Abandonada, Vida Reconstruída
Capítulo 3
Cheguei ao hospital e perguntei na receção pelo quarto da Clara.
A enfermeira indicou-me o corredor, e eu caminhei até lá, o meu vestido de noiva a arrastar-se no chão polido.
Encontrei o quarto e parei à porta, a observar a cena lá dentro.
O Pedro estava sentado na beira da cama, a segurar a mão da Clara.
Ela tinha um pequeno corte na testa e um arranhão no braço, nada mais.
Não parecia uma mulher que tinha estado à beira da morte.
Ela estava a chorar suavemente, a olhar para ele com olhos adoradores.
"Pedro, eu sabia que virias. Eu estava com tanto medo. Pensei que ia morrer sozinha."
A voz dele era suave, cheia de uma ternura que ele raramente usava comigo.
"Shh, está tudo bem agora, Clara. Eu estou aqui. Não te vou deixar."
Ele inclinou-se e beijou-lhe a testa.
Aquele gesto, tão simples e tão íntimo, foi a confirmação de tudo.
A raiva que eu sentia desapareceu, substituída por um vazio frio e claro.
Entrei no quarto.
"Que cena comovente."
Os dois viraram-se bruscamente, os olhos arregalados de choque.
O Pedro levantou-se de um salto, o pânico no seu rosto.
"Ana! O que é que estás aqui a fazer?"
"Eu? Eu vim ver a mulher moribunda que roubou o meu noivo no dia do meu casamento. Mas parece que ela está a ter uma recuperação milagrosa."
A Clara encolheu-se na cama, a tentar parecer mais frágil.
"Ana, não é o que parece. Eu precisei dele."
"Claro que precisaste. Tu sempre precisas dele quando as coisas na minha vida estão a correr bem."
Virei-me para o Pedro, o meu olhar frio.
"Tu deixaste-me no altar. Deixaste a nossa família e os nossos amigos à espera, para vires aqui consolar esta mulher por causa de um arranhão."
"Não foi só um arranhão!", disse ele, a voz a subir. "Ela podia ter morrido! Tu não tens compaixão?"
"Compaixão?", ri sem humor. "Eu gastei toda a minha compaixão contigo e com ela nos últimos dois anos. Acabou. A minha paciência esgotou-se."
Tirei o anel de noivado do meu dedo.
Era pesado, uma mentira de ouro e diamantes.
Estendi-lho. "Pega. Podes dá-lo a ela. Talvez lhe sirva melhor."
Ele olhou para o anel, depois para mim, a confusão a lutar com a culpa no seu rosto.
"Ana, espera. Não faças isto. Nós podemos resolver."
"Resolver o quê, Pedro? Que tu vais sempre correr para ela? Que eu serei sempre a segunda opção? Não, obrigada. Eu mereço mais do que isso."
Joguei o anel para cima da cama. Atingiu a colcha com um som suave.
"Está acabado. Não me procures mais. Não me ligues. Apaga o meu número."
Virei-me para sair.
"Tu não podes fazer isto!", gritou ele atrás de mim. "Nós temos uma casa! Temos planos!"
Parei à porta e olhei para trás por cima do ombro.
"Tu tinhas planos, Pedro. Agora, tens a Clara. Espero que ela te faça feliz."
Saí do quarto e não olhei para trás.
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