
Noite de prazer- 1ª. Edição
Capítulo 3
Muito bem. — Ele guardou o celular, tirou minhas mãos do seu pescoço e olhou ao redor. — A enfermeira falou que você ainda precisa de trinta minutos para se recuperar da anestesia. — Quero ir agora. Me dê o bebê! — soei enérgica e o homem riu baixo. — Algumas regras, Sara Benildes. — Douglas se aproximou e ergueu um dedo. — Você está sendo contratada para amamentar um bebê. Ele não é seu. Vai receber o dinheiro no fim do trabalho ou quando o chefe decidir ser suficiente. Apenas uma empregada, isso que você será. — Eu não assinei nada. — Nem o fará. — Olhou-me da cabeça aos pés. — No nosso mundo, palavras valem mais do que contratos impressos. Descumpra e você poderá pagar com a própria vida. — Vá à merda, eu estou morta mesmo — murmurei, infeliz. Respirei fundo e tentei me levantar, mas minhas pernas estavam dormentes. — Você, realmente, quer ir antes da sua alta? — O bebê deve estar com fome e perderemos tempo aqui, esperando a anestesia passar. — Segure o soro. — Ele tirou o saco do suporte e me entregou. Sem me avisar, pegou-me no colo e fez um movimento com a cabeça para os outros que estavam com ele. — Vamos até ele. — Pode ser uma menina — comentei, memorizando aquele rosto angelical do bebê, que se mesclava com as lembranças da minha Gabrielle. — Roupas e fraldas estão sendo providenciadas. O problema é de quem comprar errado. — Deu de ombros e caminhou comigo pelos corredores da maternidade. — Quem é você? — Douglas e não estou a seu dispor, Sara. — Idiota. Não era isso que eu queria saber. — Quem está com você nos braços sou eu, então, tenha um pouco mais de respeito — soou ameaçador. — Como você teve comigo? Eu acabei de passar mais de seis horas de trabalho de parto para não ter minha filha nos braços. Então, um louco me abordou e está me levando até outro bebê, como se um pudesse substituir o que perdi. — E você está vindo, nem precisei usar minha arma para te persuadir. Passamos pela recepção lotada, as pessoas nos encaravam, mas não impediam o nosso avanço. Havia muitos empresários poderosos na cidade e um deles estava na minha lista para ser executado, junto com Ricardo. — Minha mala e bolsa estão na enfermaria, onde eu ficaria com minha filha. Tem como pegá-la para mim? — Não sou seu empregado. — Eu estou apenas de camisola hospitalar! — Tive vontade de pular do seu colo. Ele riu baixo, como se fosse uma piada. — Reniel, pegue a bagagem da moça — ele comandou e parou de andar. — Consegue se sentar? — Não sei. Ele se inclinou e me colocou dentro de um carro confortável, com banco de couro e cheiro forte de cigarro. Suspirei com irritação ao perceber que não conseguia me manter equilibrada e Douglas me empurrou para o lado, colocou o braço ao redor dos meus ombros e me manteve firme. Inconsequente, surreal e louco. O homem poderia ser aquele que pegaria meus órgãos e me deixaria em uma vala qualquer, sem que eu pudesse voltar a falar com a minha família ou me vingar do idiota do doador de esperma. Escolhi viver de forma inconsequente, sem pensar em como minhas escolhas poderiam influenciar a minha essência. Eu queria aquele bebê. Entreguei o meu para dar a vida a outro, eu merecia ser recompensada. Acomodei-me ao lado do desconhecido e me deixei ser guiada. Nenhuma dor superaria aquela que eu havia vivenciado, eu não tinha medo de morrer e encontrar a minha Gabrielle. Sorri ao escutar a música que tocava no som do carro. Eu estava me tornando tão alucinante quanto a letra. “Não consigo encarar os fatos Estou tenso, nervoso e Não consigo relaxar Não consigo dormir, porque a minha cama está em chamas Não toque em mim, estou cheio de energia Assassino psicótico O que é isso?” Talking Heads – Psycho Killer Capítulo 3 — O que é isso? — Douglas reclamou quando me tirou do carro em seus braços. Olhei para o banco e vi o sangue, era a menstruação do pós- parto, nem eu tinha me lembrado daquilo. — Pelo que pesquisei, ainda vou sangrar de uma a duas semanas, para limpar o útero. — Segurei o soro, que já estava quase terminando. — Vai me custar caro limpar essa merda. — Aproveita e tira o cheiro de cigarro, está podre — rebati com tranquilidade, sem o encarar enquanto me levava até um elevador. — Está fazendo um rastro de sangue. Porra! — O homem começou a rir e reparei que dois outros estranhos entraram conosco. As portas se fecharam e o movimento para cima me fez sacudir. — Vocês vão limpar toda essa bagunça. — Deveria obrigar que ela recolhesse essa nojeira — um deles resmungou, me lançando uma cara de asco. — Sua mãe também te pariu e passou por isso. Espero que ela tenha tido um marido decente e pais amorosos para não se sentir a aberração do circo. Então, mais respeito. — Vou precisar de um banho — Douglas continuou suas lamúrias, me ignorando. — Também precisarei, antes de cuidar do bebê. Pegou minha mala? — Está chegando. — Bufou irritado e nos encaramos. — Você é bem bocuda. — E isso faz de mim o quê? Não precisa das minhas palavras para alimentar um bebê. — O chefe vai te matar em dois dias — um dos outros homens debochou e revirei os olhos. — Não se pode matar uma pessoa duas vezes. Os três ficaram em silêncio. As portas do elevador se abriram e saímos em direção a um apartamento. Abracei o pescoço de Douglas e reparei no rastro de sangue que eu estava deixando. Era mórbido e sem noção, mas eu até que gostava de ver o quão vivo era o fluído que saía de mim. Assim, eu chamaria atenção. Com aquele caminho de morte e vida, eu iniciaria uma nova jornada, com a mente perturbada e o coração destruído. Era daquele jeito que eu queria fazer com Ricardo. Entramos em um quarto, depois fui posta dentro de uma banheira e o idiota ligou o chuveiro gelado em cima de mim.
Você pode gostar





