
No Caminho do Amor- Irmãos Torres
Capítulo 2
Ela acordou antes do sol.
O quarto ainda estava envolto numa penumbra azulada, e por um instante ela esqueceu onde estava. Depois vieram os detalhes: o cheiro da madeira antiga, o ranger suave da casa despertando aos poucos, o peso diferente do silêncio. Não era o silêncio opressor dos lugares por onde tinha passado recentemente. Era um silêncio que respirava.
Levantou-se devagar, como se não quisesse acordar a casa inteira com seus pensamentos.
Na cozinha, encontrou o mais velho.
Ele estava encostado na bancada, camisa simples, mangas dobradas, preparando café como se aquele fosse um ritual essencial para manter o mundo em ordem. Ergueu o olhar quando percebeu a presença dela e pareceu levemente surpreso, embora o rosto não denunciasse muito mais do que isso.
— Acordou cedo — comentou, em tom neutro.
— Costume antigo — respondeu ela, aproximando-se.
Ele assentiu, como quem entende hábitos sem precisar de explicações. Serviu uma xícara e empurrou em direção a ela. O gesto foi simples, quase automático, mas carregava algo de cuidado silencioso.
Ela agradeceu com um sorriso pequeno. Sentaram-se à mesa sem pressa, dividindo o espaço e o aroma do café. Não conversaram muito. Não precisaram. Havia conforto naquele silêncio compartilhado, uma sensação estranha de que ambos respeitavam o passado um do outro sem precisar conhecê-lo.
Pouco depois, o do meio apareceu.
Trazia consigo uma energia mais leve, ainda meio sonolenta, e um sorriso que se abriu assim que a viu. Puxou uma cadeira, começou a falar sobre coisas triviais — o clima, o dia que se anunciava, uma história qualquer da cidade. Ela percebeu como era fácil acompanhá-lo. Como ele parecia criar pontes invisíveis entre as pessoas.
— Se precisar de qualquer coisa hoje, é só falar — disse ele, com naturalidade.
Ela agradeceu outra vez, sentindo algo quente se acomodar no peito.
O caçula apareceu por último, os cabelos ainda desalinhados, trazendo consigo uma espécie de movimento diferente no ar. Quando a viu, abriu um sorriso espontâneo, quase luminoso.
— Bom dia — disse, com uma leveza que a fez sorrir também.
Os olhos dele demoraram um segundo a mais do que o necessário nos dela, e ela sentiu aquilo de novo: a fulga.
Não era exatamente atração. Não ainda. Era como uma faísca pequena, rápida, quase invisível, mas suficiente para avisar que algo poderia crescer dali se não tomassem cuidado. Ela desviou o olhar primeiro, concentrando-se no café já frio.
Ao longo do dia, a casa ganhou vida.
Ela passou horas explorando os cômodos, abrindo janelas, deixando o ar circular. Em alguns momentos, cruzava com um deles no corredor, na sala, no quintal. Pequenos encontros, olhares rápidos, palavras simples. Nada demais. Tudo demais.
À tarde, sentou-se no quintal com o do meio, conversando sobre livros e escolhas erradas. Ele ouviu mais do que falou, e quando falou, escolheu palavras gentis. Mais tarde, ajudou o mais velho a organizar algumas coisas da casa, percebendo como ele era atento aos detalhes, como se cuidar daquele lugar fosse uma forma de cuidar da própria família.
E, em algum ponto do fim do dia, riu alto com o caçula por causa de uma piada boba, sentindo aquela fulga se repetir — breve, intensa, inegável.
À noite, sozinha outra vez no quarto, ela entendeu.
Não estava fugindo apenas do que deixara para trás. Estava fugindo do medo de sentir de novo. E aquela casa, aquelas presenças, começavam a desafiar essa fuga silenciosa.
A fulga não era perigo.
Era aviso.
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