
Não Sou Mais Sua: O Despertar de Sofia
Capítulo 2
O médico olhou para mim, a sua expressão era vazia, profissional.
"Lamento, Sofia. Perdemos o bebé."
O mundo pareceu parar. O barulho do hospital, os bipes das máquinas, tudo desapareceu. A única coisa que eu sentia era o vazio na minha barriga. Ontem, estava redonda, cheia de vida. Hoje, estava apenas... vazia.
As memórias do fogo invadiram a minha mente. O fumo denso, o calor, o pânico. Agarrei no meu telemóvel e liguei para o meu marido, Leo. Liguei vezes sem conta.
Agora, no silêncio estéril do quarto de hospital, peguei novamente no telemóvel. Os meus dedos tremiam.
Encontrei o nome dele. Leo.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava irritada.
"Sofia? O que se passa agora? Estou ocupado."
A sua voz não tinha qualquer preocupação. Apenas impaciência.
"Leo... o bebé..." A minha voz falhou.
"O que tem o bebé? Estás bem? Os bombeiros tiraram-te daí, não foi? Eu disse-te para esperares."
Do outro lado da linha, ouvi uma voz feminina, suave e chorosa.
"Leo, o meu gato ainda está tão assustado. Não me deixes sozinha, por favor."
Era a Clara. A sua amiga de infância. A mulher que ele sempre protegia.
A minha garganta secou. O fogo estava no nosso prédio. Eu estava no nosso apartamento, no décimo andar. Clara vivia do outro lado da cidade.
"Tu... estavas com ela?" perguntei, a minha voz era um sussurro.
"A Clara entrou em pânico quando ouviu sobre o fogo no noticiário. Ela ficou com um ataque de ansiedade. Precisava de mim. Tu sabes como ela é sensível."
Sensível. E eu? Eu, grávida de oito meses, presa num incêndio, a ligar para o meu marido enquanto o fumo enchia os meus pulmões. Eu não era sensível? O nosso filho não era importante?
"Leo," eu disse, e a minha voz soou estranhamente calma. "Quero o divórcio."
Houve um silêncio. Depois, ele riu. Uma risada curta e incrédula.
"Divórcio? Sofia, não sejas dramática. Estás em choque por causa do fogo. Vais ficar bem. Nós vamos ficar bem. Agora tenho de ir, a Clara precisa de mim."
Ele desligou.
Eu olhei para o ecrã do telemóvel. Ele desligou.
As lágrimas que eu não sabia que estava a segurar começaram a cair, silenciosas e quentes, no lençol branco do hospital.
O nosso bebé tinha desaparecido. E o meu marido escolheu consolar outra mulher por causa de um ataque de pânico, enquanto eu perdia o nosso filho no meio do fumo e das chamas.
O divórcio não era um drama.
Era uma promessa.
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