
Não Se Mexa Com a Filha Que Perdeu Tudo
Capítulo 3
Não respondi ao meu pai.
Apenas deixei o telefone em alta-voz, permitindo que o silêncio do quarto de hospital lhe respondesse.
Consegui ouvi-lo a respirar pesadamente do outro lado, a sua impaciência a crescer.
"Helena, estás a ouvir-me? Diz alguma coisa, caramba! A Joana está a agir como uma criança mimada, e tu não fazes nada!"
A voz dele era um ruído distante, sem sentido.
Olhei para o rosto sereno da minha mãe.
Pela primeira vez em anos, ela parecia em paz, livre da dor constante e da necessidade de agradar a um homem que nunca a valorizou verdadeiramente.
"Ela não pode responder-te, pai," disse eu finalmente, com a voz monótona.
Houve uma pausa.
"Joana? Porque é que estás com o telefone da tua mãe? Passa-lho!"
"Não posso."
"Porque não? O que se passa aí?" A irritação dele estava a transformar-se em alarme.
"A mãe morreu há vinte minutos."
O silêncio que se seguiu foi total.
Consegui ouvir um som abafado, como se algo tivesse caído. Talvez o telefone dele.
Depois, a voz da Sofia, trémula e assustada.
"Lucas? O que foi? Estás tão pálido."
Ninguém respondeu.
Apenas o som de respiração ofegante.
"Pai?" perguntei, uma faísca de curiosidade cruel a acender-se dentro de mim. "Estás aí?"
A chamada foi desligada abruptamente.
Senti um vazio estranho. Não era tristeza, nem raiva. Era apenas... nada.
Como se a parte de mim que se importava com ele tivesse morrido juntamente com a minha mãe.
O meu pai não me ligou de volta.
O Tiago não apareceu.
Fiquei sentada ao lado da minha mãe durante mais uma hora, até que as enfermeiras entraram para preparar o corpo dela para a morgue.
Elas foram gentis, falando em sussurros suaves, oferecendo-me um copo de água que eu recusei.
Quando saí do hospital, o ar da noite estava frio e húmido. A chuva tinha parado.
Caminhei para casa.
Não era longe, apenas vinte minutos a pé.
O apartamento que eu partilhava com o Tiago parecia estranho, como se pertencesse a outra pessoa.
As fotos dele e minhas nas paredes pareciam zombar de mim.
Fui diretamente para o nosso quarto e peguei num grande saco de lixo preto.
Comecei a esvaziar o lado dele do armário.
As camisas dele, as calças, os sapatos.
Tudo o que lhe pertencia foi para o saco.
Depois, a mesa de cabeceira dele.
Os livros, o carregador do telefone, uma caixa de preservativos.
Por último, a casa de banho.
A sua escova de dentes, a sua espuma de barbear, o seu perfume.
Enchi três sacos de lixo grandes com os vestígios da vida dele na minha casa.
Arrastei-os para a porta da frente e deixei-os no corredor, do lado de fora.
Depois, enviei-lhe uma mensagem de um número desconhecido, usando uma aplicação online.
"As tuas coisas estão à porta. A chave está debaixo do tapete. Não entres."
Fechei a porta e tranquei-a.
Pela primeira vez em muitas horas, senti algo.
Alívio.
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