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Capa do romance Não Pode Me Amar

Não Pode Me Amar

Unidos pelo desespero, Lia e Lázzaro vivem uma jornada marcada pela dor. Diante do corpo sem vida do amado, a jovem enfrenta o luto e a descoberta de uma gravidez solitária. Lázzaro partiu sem saber que seria pai, deixando promessas vazias e um rastro de desilusão. Agora, despedaçada e sem rumo, Lia amarga o peso de um sentimento proibido, recordando-se do aviso que negligenciou quando ele implorou para que ela jamais entregasse seu coração.
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Capítulo 1

Era apenas mais um dia no qual Lia acordava sentindo-se um nada. Não era culpa dela, ela até tentava se amar, no entanto era impossível quando sua tia – com quem morava – fazia questão de dizer o contrário todos os dias.

Seus olhos estavam um pouco inchados por ter chorado a noite toda, – algo também corriqueiro em suas noites – aquela cor escura que sua mãe tanto amava e dizia ser os mais lindos olhos, não brilhavam mais. Entretanto, Lia sorria para todos e quem a via ajudando o próximo e sempre feliz, não imaginava a dor na alma que ela sentia sempre que estava sozinha.

Suspirando levantou-se para enfrentar um novo dia, apesar de tudo, agradecendo aos céus por ter acordado. Era uma boa menina.

— Já acordou, garota? — ela ouviu a voz de sua tia berrar na porta do porão onde dormia.

— Já sim, tia Martha. — respondeu com a voz triste.

— Termine o que tem para fazer e vá logo para a rua, os mais ricos estão indo a essa hora para o trabalho. — exigiu ela se afastando.

Lia suspirou segurando um choro dolorido, olhando para o lado em seu relógio que achara na rua, constatou que eram apenas quatro da manhã, estava uma madrugada fria e chuvosa, mas mesmo assim teria que ir pedir esmola para a tia, ou isso, ou a rua e a fome.

Terminando de arrumar a cama ela escovou os dentes e prendeu o cabelo com uma linha velha. Vestiu um moletom rasgado, uma calça jeans desbotada e subiu as escadas deixando para trás o porão velho que só não estava sujo por causa dela, que limpava todos os dias com restos de produtos de limpeza que achava no lixo.

Não suportava cheiro de sujeira.

— Rápido, menina! Estamos com fome! — Martha a apressou a sair.

Lia foi caminhando pelas ruas chorando, como sempre fazia. Sua pequena mochila estava nas costas com todos os seus documentos que fazia questão de carregar sempre consigo. O queixo batendo de frio e a boca na cor roxa estavam quase congelando.

Sua mãe havia morrido há dois anos e desde então ela passou a morar com a tia e os três filhos dela; Marcos, Mara e Mike. Sua vida tornou-se um inferno, Martha explorava-a mandando a garota pedir esmola todos os dias, ela sempre conseguia algo, mas era pouco para durar muito e então ficava com fome até trazer quantidades maiores de dinheiro ou doações. Sem contar as torturas psicológicas.

Odiava tudo que estava acontecendo, mas nada disso tirou sua fé em algo mais, ela sonhava em ter algo mais um dia, só não sabia como. Sentia-se fracassada também.

Aqueles sonhos clichês que todas as adolescentes tinham de encontrar um amor e ser feliz, viver um lindo romance, morreu nela quando seus primos diziam como ela era feia, seu cabelo ruim, muito magra e com quase nada de seios. Que homem nenhum olharia para ela como mulher a não ser alguém com interesse apenas em se divertir.

Pouco a pouco isso foi penetrando em seu psicológico deixando marcas e feridas, traumas e desconfiança em si mesma como mulher. Quando foi morar com a tia tinha dezessete anos, agora estava com dezenove, quase vinte em poucos meses e até então nunca havia tido um namorado se quer. Quem iria querer namorar uma mendiga feia e suja?

Nada mais importava para ela. Apesar de nutrir uma esperança bem lá no fundo de um futuro melhor, no momento não se importava se algum dia iria se casar, se apaixonar, ou fazer alguma faculdade, isso nunca mais seria importante para ela.

Por muitas vezes se odiava.

Dando mais alguns passos, ela ouviu miados baixos vindo da frente de uma fábrica em construção, atravessou a rua de pressa e se deparou com uma caixa de papelão molhada na beirada de uma caída onde jogavam os restos de escombros, estava muito escuro ainda, mas sua atenção só se voltou à caixa no chão.

Os miados ficaram mais altos e agitados quando os pequenos felinos perceberam a presença de alguém. Lia abriu com agilidade a caixa e sentiu o coração aquecer ao mesmo tempo que se despedaçar ao ver três gatinhos dentro do recipiente. Ela segurou o choro quando tocou em um deles e o sentiu tremer de frio, eram filhotes e alguém havia os abandonado.

A cada minuto que passava ela perdia ainda mais a fé na humanidade. Quem seria capaz de abandonar animais indefesos? Ela não conseguiu conter as lágrimas de empatia pelos bichinhos inocentes que não miavam tanto mais com suas carícias. Ela era apaixonada por animais.

Poderia muito bem levá-los para sua casa, mas lembrou-se de que nem mesmo ela era bem vinda e já vivia em dificuldade, que dirá três gatos filhotes. Sua tia os mataria e obrigaria ela a comer. Ela sabia disso pois certa vez a obrigou-a comer uma panela de arroz queimado porque ela simplesmente se descuidou ao ajudar um dos primos com as roupas no varal.

Ficou passando mal por vários dias e sem comer também.

A menina ficou tanto tempo pensando que acabou não percebendo um carro vindo em alta velocidade em sua direção, seu coração deu um salto quando ela finalmente notou o farol forte em seus olhos e pulou para um barranco ao lado com a caixa agarrada ao corpo, no intuito de livrar-se de ser atropelada e também aos gatos.

Colocou a mão sobre o peito tentando acalmar as batidas quando estava caída no meio de várias pedras, ela pensou que fosse morrer. Sentiu o braço doer e algumas fisgadas nas costas e costelas, mas estava viva ao menos.

Não que isso soasse muito significativo para ela. Afinal, do que valia sua vida?

Suspirou e levantou-se com dificuldade batendo uma mão na outra para limpa-las. Foi difícil para que subisse pelo barranco, tentou uma, duas, três vezes e quando o mato no qual ela segurava, rompeu-se, ela começando a sucumbir gritando, foi quando sentiu uma mão calejada segurar a sua, cobrir para ser mais precisa. Era uma grande mão.

Calafrios percorreram todas as suas correntes sanguíneas, não entendendo naquele momento o que era aquilo que a deixou flutuando, como se fosse o melhor toque que já recebera na vida.

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