
Não mexa com essa mulher misteriosa
Capítulo 3
Yelena lançou um olhar de relance para os homens esparramados no chão e depois para o homem ferido.
Os traços marcantes dele eram impressionantes: olhos escuros e frios, e expressão distante e estoica, como se ele tivesse sido esculpida em pedra. Apesar da palidez e dor evidente, ele exalava um ar de resiliência tranquila.
Quando Yelena pretendia ir embora e deixar essa cena caótica para trás, algo a fez hesitar. Uma das suas fraquezas, seu coração mole, a prendeu ali.
Com um suspiro resignado, ela se agachou ao lado do homem para examinar seus ferimentos.
"Obrigado", disse Austin com a voz baixa, mas com um tom sincero de gratidão.
"Não é nada", respondeu ela num tom indiferente, embora suas ações sugerissem o contrário.
Ao verificar o pulso dele, suas sobrancelhas se franziram. O sangramento, embora severo, não era a preocupação mais urgente. O pulso dele estava fraco e irregular, um sinal evidente de que havia veneno correndo nas suas veias.
Yelena abriu a bolsa e pegou um pequeno frasco de porcelana. Após abri-lo, ela espalhou um pó medicinal fino sobre os ferimentos que sangravam. Quase que instantaneamente, o sangramento diminuiu, e um alívio refrescante substituiu a dor aguda.
Em seguida, ela pegou uma pequena pílula e a entregou a ele, dizendo com a voz firme: "Tome isso, vai neutralizar o veneno. Sem tratamento imediato, você não sobreviverá por muito tempo."
Austin hesitou, seus olhos afiados a observando como se estivesse tentando adivinhar suas intenções.
Sem dizer mais nada, Yelena continuou tratando os ferimentos dele com eficiência. Assim que ela terminou, som de passos ecoou, a levando a virar a cabeça para ver outro grupo de pessoas se aproximando. "Senhor Barton..."
"Eles estão comigo", disse Austin, suspirando aliviado enquanto seus ombros relaxavam ligeiramente, sua postura suavizando.
Nesse momento, Yelena se levantou. "Já que seus homens chegaram, vou seguir meu caminho", disse ela rapidamente, já se virando para partir.
Austin chamou por ela, assumindo um tom mais suave: "Senhorita, pelo menos me diga seu nome para que eu possa retribuir sua bondade."
"Não é necessário", respondeu Yelena, sua voz fria, mas convicta.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela já tinha ido embora. Afinal, encrenca era algo que ela não podia arriscar se meter.
Tendo sido salvo, o olhar agudo de Austin se deteve na figura de Yelena se retirando, com uma centelha de curiosidade iluminando sua expressão.
Como ela conseguira detectar o veneno apenas medindo seu pulso?
A precisão, a calma inabalável e a evidente experiência dela, tudo isso era inacreditável. Contudo, uma coisa era certa, contanto que ela permanecesse em Eighfast, ele a encontraria novamente.
Yelena se afastou sem olhar para trás, seu foco se desviando para o próximo passo da sua jornada. Porém, não demorou para que seus pensamentos fossem interrompidos pelo ruído suave de um carro se aproximando. Um elegante Rolls-Royce personalizado parou à sua frente, seu exterior polido brilhando mesmo sob a luz tênue da rua.
Yelena paralisou por um momento, já que só vira tal extravagância em revistas e na televisão.
No instante seguinte, a porta se abriu com uma suavidade precisa e um homem de meia-idade saiu. Seus movimentos eram deliberados e sua postura impecável, com um semblante que transmitia uma reverência discreta. "Senhorita Harris, finalmente te encontramos! Sou Sebastian Holden, mordomo da família Harris. A pedido do senhor e da senhora Harris, vim para te levar para casa."
"Eu? Senhorita Harris?", Yelena perguntou, sua voz carregada de descrença enquanto ela se perguntava do que o homem estava falando.
A família Roberts havia falado que seus pais biológicos eram aldeões pobres da remota região de Phurg. No entanto, aqui estava um homem, cujo comportamento e carro do qual ele saiu indicavam nada além de riqueza e privilégio.
Num tom comedido, mas caloroso, Sebastian afirmou: "Sim, você! Você é a filha mais velha da família Harris. Sua mãe ficou emocionada e por pouco não desmaiou quando soube que você estava viva, e seu pai me pediu para providenciar seu retorno em segurança. Por favor, venha comigo."
Com uma expressão composta, mas marcada pela deferência, Sebastian se adiantou e abriu a porta do carro para ela.
A mente de Yelena estava acelerada, se perguntando se a investigação da família Roberts poderia estar errada ou se eles mentiram de propósito.
Foi então que sua perplexidade deu lugar à determinação. Ela sempre queria encontrar seus pais biológicos, e se alguém apareceu para levá-la até eles, por que hesitar?
Com isso em mente, Yelena soltou um suspiro profundo e entrou no carro. Após a porta se fechar com um clique suave, o veículo se afastou estrada afora.
As Mansões Elite eram o ápice do prestígio em Eighfast, um local exclusivo com apenas doze residências luxuosas, cada uma habitada pelas figuras mais poderosas e influentes da cidade.
Enquanto o carro percorria as sinuosas estradas particulares que levavam ao exclusivo condomínio, a voz de Sebastian transbordava com um entusiasmo reverente. "Senhorita Harris, você tem um irmão mais velho, Cayson Harris, e uma irmã adotiva mais nova, Bella Harris. Seus pais sentiram muito a sua falta. Eles passaram anos te procurando por todo o país, sem medir esforços para te encontrar."
Ele parou por um momento, assumindo um tom suave ao continuar: "Na verdade, o senhor Harris é de Phurg. Décadas atrás, ele e a senhora Harris voltaram lá para homenagear seus ancestrais. Foi durante essa viagem que você nasceu num hospital da região. Mas uma tragédia aconteceu, e as circunstâncias irreversíveis levaram ao seu desaparecimento logo após ter nascido. Depois disso, o senhor Harris te procurou incansavelmente, mas quando as pistas se esgotaram, eles foram obrigados a voltar para Eighfast. Embora seus corações estivessem partidos, eles tiveram que lidar com essa dor e se concentrar na construção do seu legado."
Um lampejo de orgulho transpareceu na sua voz. "Com o passar dos anos, a família Harris criou um império e se tornou a família mais rica de Eighfast. Apesar das suas conquistas impressionantes, eles nunca perderam a esperança de um dia te trazer para casa."
Yelena permaneceu em silêncio, sua mente girando enquanto as palavras de Sebastian revelavam fragmentos de um passado que ela nunca soubera.
Logo, o carro desacelerou, parando numa mansão extensa que parecia ter saído de um quadro paisagístico.
Quando a porta se abriu, Yelena saiu, e seu olhar percorreu o local.
Nesse momento, duas figuras emergiram da porta grandiosa, seus rostos iluminados por emoções profundas demais para serem escondidas.
O homem tinha um ar refinado, suas feições marcantes suavizadas por uma graciosidade discreta. Ao lado dele, a mulher exalava elegância, cada um dos seus movimentos deliberados e sua postura inigualável.
Entretanto, no momento em que Donna Harris colocou os olhos em Yelena, essa compostura se esvaiu. Lágrimas transbordaram dos seus olhos enquanto ela se aproximava, envolvendo Yelena num abraço feroz e sincero.
"Yelena, minha filha querida. Finalmente te encontramos. Depois de todos esses anos... a dor que você deve ter suportado... É culpa nossa por não termos conseguido te proteger", murmurava a mãe, sua voz trêmula de emoção.
Enquanto mantinha Yelena nos braços, Donna olhou para o rosto dela, impressionada com sua inegável semelhança. Foi nesse instante que prometeu a si que sua filha nunca mais passaria pelas dificuldades que havia enfrentado.
Desacostumada com tamanha demonstração de afeto, Yelena se enrijeceu, se sentindo incomodada sob o peso do abraço de Donna, algo praticamente esmagador.
No entanto, havia algo nesse calor puro e natural que lentamente começou a quebrar suas defesas, a deixando imóvel mas não mais tensa.
"Estou bem, de verdade", murmurou Yelena, suas palavras servindo mais como um bálsamo para as emoções de Donna do que como um reflexo das suas próprias emoções.
Com relutância, Donna se afastou, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas. "Yelena, te prometo que de agora em diante, nada nem ninguém te machucará novamente."
Callum Harris estava por perto, seu comportamento composto habitual traído pelo brilho dos seus olhos marejados. Ele limpou a garganta e assumiu uma voz firme, mas carregada de emoção. "Você está em casa agora, Yelena. Isso é tudo que importa. Venha, vamos entrar."
Assim, os três entraram na mansão.
Parada na porta, Bella observava o reencontro cabisbaixa, com um lampejo de frieza reluzindo brevemente seus olhos antes de ela disfarçá-lo.
Embora tivesse se recomposto rapidamente e esboçado um sorriso educado, um leve tremor denunciava seu esforço para manter a calma. Num tom cuidosamente ponderado, ela disse: "Yelena, seja bem-vinda. Sou Bella."
Assim que avistou Yelena e percebeu a semelhança impressionante entre ela e Donna, Bella soube tudo o que precisava: Yelena definitivamente era uma Harris.
Enquanto ela observava o rosto de Yelena, um traço de ressentimento surgiu em seus olhos.
Após recuperar a compostura, Donna fez as apresentações com um sorriso caloroso. "Yelena, esta é Bella, nossa filha adotiva. Agora, ela é sua irmã mais nova. Seu irmão, Cayson, está viajando no exterior a trabalho, mas em breve voltará. E sua avó está num retiro e voltará no fim do mês."
Yelena acenou com a cabeça sutilmente, sua expressão calma, mas inescrutável. Certamente, uma família desse porte teria relações complicadas e planos ocultos.
Ela não tinha a menor dúvida quanto a isso, portanto, decidiu pedir para Brody investigar mais a fundo a história da família Harris quando o momento permitisse.
"Ah, Yelena, há algo que eu queria te dar", disse Donna de repente, seus olhos brilhando de expectativa.
Com uma elegância refinada, Donna tirou um bracelete de esmeraldas do seu pulso. "Esse bracelete sempre esteve comigo, e agora quero que fique com ele."
Apesar de não se lembrar dos detalhes, Donna sabia que havia recebido essa joia de alguém importante e passou a apreciá-la desde então.
Yelena hesitou, o peso do momento a pegando desprevenida.
A peça não era apenas bonita, mas valia milhões, e seu valor não passou despercebido para ela, que murmurou com uma voz cautelosa: "Isso vale muito. Não posso aceitar algo tão precioso."
"Querida, tudo o que tenho um dia será seu. Isso é só um símbolo do que está por vir."
Antes que Yelena pudesse continuar protestando, o bracelete já estava no seu pulso, adornado com uma esmeralda reluzente que se destacava na sua pele com um brilho irresistível.
Do outro lado da sala, o sorriso de Bella congelou e seus dedos se contorceram antes de se fecharem fortemente, suas unhas cravadas nas palmas das mãos até que a dor se transformasse em dormência.
Uma injustiça estava ocorrendo bem diante dos seus olhos!
Você pode gostar





