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Capa do romance Morro de Amores

Morro de Amores

Após a morte de seu pai, Anne é expulsa de casa pela madrasta e perde sua vida de luxo. Sem opções, ela troca a mansão por um pequeno quarto na comunidade, onde seu destino se cruza com o de João Gabriel. Conhecido como Fortão, o temido chefe do morro de apenas 25 anos é um homem implacável, mas a presença de Anne começa a abalar sua postura feroz. Entre contrastes e perigos, será possível que dois mundos tão opostos encontrem uma união real?
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Capítulo 3

Anne arregalou os olhos. 

“Elas vão… Raspar meu cabelo?”

Antes que Anne pudesse perguntar ou reagir, duas das mulheres a seguraram e arrastaram-na para um dos becos e logo, pra dentro de uma das casas. 

— Não! Eu não estou com o seu namorado nem nada! — Anne disse, chorosa. Ela não conseguia nem lembrar o que exatamente a mulher havia dito antes. 

— Ah, não? Tú foi para casa com ele, caralho! Não banca a inocente não , ô, Princesinha! 

— Você tá falando daquele tal… como é… Fortão? — Anne perguntou. 

A mulher segurou o cabelo de Anne pela nuca, bem perto do escalpo, arrancando um grito da moça. 

— Eu vou arrancá esses teus cabelo e rasgá tua cara, piranha! 

Anne ouviu o som da máquina e se desesperou. Ela não era lá muito apegada ao cabelo dela, no entanto, ela sabia que ali na comunidade a mulher que aparecia com a cabeça raspada daquele jeito, ficava marcada como “ladra de homem”. 

— Por favor, não! Eu… Eu  não fiz nada com ele! Eu tava bêbada e eu acordei de roupa e tudo!

— Num interessa! Ele tá de olho em tú. Então, vô acabá com as tuas fuça! — a mulher cuspiu no chão, perto de Anne. — Quero vê ele fodê com uma puta estropiada! 

A porta do barraco abriu com tudo, fazendo um barulho tremendo. 

— Que caralho é esse aqui? — um homem perguntou esbravejando e as mulheres soltaram um grito, menos a que segurava os cabelos de Anne. 

— Se mete aqui não, ô Morcegão! Essa quenga tá de sacanagem ca minha cara e eu vô dá uma lição nela!

— Késia, tú solta ela ou o Fortão te come na porrada — o tal Morcegão disse. — Ordi dele. Solta ela ou ele te arrasa!

Anne foi jogada longe. 

— Pega essa piranha e mantém ela longe das minhas vista! — Anne olhou pra mulher e esta apontou o dedo na direção da loira. — Se eu te vê de novo perto do meu homem, eu te quebro!

As mulheres saíram e Anne estava no chão, chorando, com o couro cabeludo doendo horrores. 

— O-obrigada — ela falou, se levantando e limpando a roupa.

— Tem nada não. Eu tô aqui seguindo ordi. 

Anne olhou para o homem, que era magro, mas malhado. O cabelo bem cortado, sem camisa, uma arma na cintura. 

— De todo jeito, obrigada — Anne passou pela porta e foi para o ponto de ônibus. 

Ao chegar no trabalho, o chefe dela levou um susto. 

— Que que é isso, ô Anne? Foi atropelada?

— Quase — ela choramingou. — Umas mulheres ficaram com raiva de mim porque o namorado de uma ficou interessado em mim e aí ela ia me machucar. 

O chefe, o Senhor Pereira, balançou a cabeça de um lado pro outro. 

— Caramba! Essa vida na comunidade é difícil. Eu já morei em uma, sei como é. 

— Eu nem sei como eu vou ter coragem de voltar pra lá!  — Anne disse, cobrindo o rosto com as mãos. 

— Seguinte, Anne, toma uma água, respira fundo e se prepara pro trabalho. Mas se você precisar dar um tempo de vez em quando, só avisar, tudo bem?

— Obrigada, Sr. Pereira!

— Nada, nada. 

O Sr. Pereira era um homem baixo, de cabelos escuros e um pouco cheinho. Ele era sempre muito educado e tentava compreender os funcionários. Anne gostava muito dele. 

Ela bebeu água, se acalmou e respirou fundo. 

“Vamos à luta, porque as lágrimas não pagam as contas!”

Ao final do expediente, ela foi para casa, se tremendo de medo de encontrar com a tal Késia. Para a sorte dela, a mulher não estava em nenhum lugar onde pudesse ser vista. Anne andou rápido até em casa e trancou a porta ao entrar. 

Depois de tomar banho, ela resolveu assistir à Netflix. Ela dividia a senha com Gabriela. Quando encontrou qual filme iria assistir, alguém bateu na porta dela. Anne estava de pijamas e pegou o roupão e o colocou por cima. 

A porta obviamente não tinha olho-mágico. 

— Quem é? 

Ela tinha medo que a mulher de mais cedo tivesse seguido ela. 

— É o Morcegão! — o homem que a salvou de Késia. Anne abriu a porta, incerta e olhou em volta. — O patrão qué falá com tú.

— O patrão? 

— Fortão, Princesinha. Ele disse pra tú ‘i lá falá com ele. Vem cumigo que eu ti levo. 

— Hmmm, certo — Anne mordeu o lábio. — Deixa só eu colocar uma roupa, ok? Eu já venho. 

Ele fez sinal positivo com a cabeça com o dedo e ela fechou a porta. 

“O que raios esse homem quer comigo? Ele já me causou muitos problemas!” 

Anne optou por uma calça jeans e uma blusa de manga 3/4 . O cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Ela se olhou no espelho. A roupa era simples, mas limpa e, o mais importante, “comportada”.

— Prontinho — ela falou para o tal Morcegão que nem a olhava direito. Quando o Fortão resolvia que queria uma mulher, ninguém podia olhar pra ela. 

Anne caminhou logo atrás de Morcegão, olhando em volta, com medo. 

— Relaxa, Princesinha. A Késia num vai te encher mais, não!

— Obrigada! — ela agradeceu, mas o homem soltou uma bufada de riso.

— Eu num tenho nada a vê com isso, não. Agradece o pai. 

O “pai”, ela compreendeu, devia se tratar do próprio Fortão. 

Assim que chegaram ao “barraco” dele, Anne ficou de queixo caído. Ali, no meio da comunidade, tinha uma casa que podia ser considerada de luxo. Claro, não era nada perto das mansões que ela estava acostumada a ver, mas ainda assim, para os padrões do local…

Ela entrou pela porta que Morcegão abriu para ela e foi caminhando atrás do mesmo, até chegar na sala. Fortão estava sentado atrás de uma mesa, jogando cartas com uns outros homens. As armas estavam em um canto e ela estremeceu. Anne tinha pavor daquilo. 

Fortão se levantou, com um sorriso no rosto. Ele estava sem camisa e Anne pode perceber que ele tinha tatuagens por todo o torso, porém, ela não manteve o olhar no homem a fim de vê-las melhor. Pelo contrário, Anne desviou o olhar para baixo. 

— A minha Princesinha chegou! — ele disse, abrindo os braços. Ele chegou perto de Anne e a abraçou. Ela levou um susto, e também, estremeceu ante o toque dele. Não de medo, mas de algo que ela não compreendia. 

— Você… Você pediu que eu viesse. Em que eu posso ajudar? — ela perguntou, séria. 

Fortão olhou pra ela sem entender e riu. Os outros riram junto, mas ele olhou para eles, mandando que se calassem.

— Eu só queria vê a minha gata! Num posso?

Anne olhou em volta e depois, para ele. 

— Ah, você se importa se conversarmos bem ali? — ela indicou um canto, visível aos outros, porém, mais afastado. Os outros homens se levantaram, a fim de dar privacidade aos dois. — Não, não pre…

— Deixa eles ir — Fortão se despediu dos homens com batidas nas mãos e tapas nas costas, dizendo coisas como, “valeu!”, “já é, irmão!”. — Pronto, gata. 

Ele segurou Anne pela cintura e ela seria uma mentirosa se dissesse que não se sentiu balançada, porém, ela tinha que se concentrar. 

— Eu não estou entendendo o que está havendo?

— Eu adoro que tú fala tudo certinho — ele brincou e aproximou o rosto do dela. — É bonito pra caramba.

— Olha só … — ela colocou a mão no peito dele e logo se arrependeu. Ele estava desnudo, ali e o calor do corpo dele a fazia querer mais! Por isso, ela retirou as mãos rapidamente. — Eu não estou com você… Tipo um casal. Eu realmente não sei o que está acontecendo.

Ele passou a língua pelos lábios e sorriu pra ela, com jeito safado. 

— Deixa eu te mostrá o que tá rolando. 

Ele puxou Anne mais para ele e a beijou. 

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